sábado, 20 de novembro de 2010

ETIAM TEMPUS

Fora um início. Era como se não tivesse dormido: ele apenas abriu os olhos. Seria como um relacionamento já de tempos. Deitada ao lado, ela não se movera. Tomada por um sono mortal, de pecado. As mãos de Jorge margeiam os cabelos da adormecida. Não acordará. Um beijo de brisa, quase sem toque. Veste-se e sai sem dizer uma palavra. À porta, vira-se e contempla o corpo delgado. Não o vê realmente. É o relevo formado pela tenra pele que o aquecera durante a noite. O corpo, agora sozinho, apoderava-se da cama, da coberta que lhe delimitava as formas, contido em si mesmo. A porta é trancada da forma mais sutil. Jorge vai embora.

Poderia chegar em casa e contar tudo. Jorge poderia fazer isso. No entanto, lembra-se das palavras da mãe, de como dizia que as mulheres não perdoam. Se o acaso vier e assim te encontrares sobre uma cama, doente, o olhar dela será de reprovação. Lembrar-te-á que fora traída. Que tu a traíste. E em teus instantes finais fincará o olhar em ti, agora de um teor repulsivo, condenando-te e relembrando, para tua tortura final, que estivera ao teu lado sempre, que te apoiara em tudo, nos cuidados, na dor, e que tal benevolência seria tua passagem para o inferno. Meu filho, que nunca admitas traição a uma mulher, mesmo que em evidente delito. Negas às últimas!

Durante o caminho de retorno, Jorge esvaziara-se de pensamentos, absorto em nada, despertado já à frente de sua casa. Circe o desperta. Dormindo ao volante! Ambos retornando ao raiar do dia, de caminhos opostos. Demoraram-se na decisão de quem estacionaria primeiro. Nas feições de ambos não era possível notar indagação alguma. Pareciam até tranqüilos. Uma paz estranha. Nesta hora, nem o vento soprava. As árvores testemunhavam mudas, imóveis.

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