segunda-feira, 8 de novembro de 2010

CALINA

Poderia fazer um balanço de minha história. Analisar minhas escolhas ao longo de um percurso tão conturbado. Quando penso que tudo está resolvido, sou tragada por problemas recorrentes e sentimentos que me deixam atordoada, ainda mais: surpresa comigo mesma. O meu casamento com Jorge, por exemplo, parece ser uma daquelas coisas que não eram para ser. O meu casamento é como uma pessoa bipolar. É como um monstro que me devora. É mais. Pior! É o mesmo que ter feito um pacto com o demônio: primeiro o deleite, depois o estipêndio. Estou prestes à pagar. Estas idas e vindas, ora entre beijos, ora entre discussões, olhares vazios, indiferença. Tudo me faz desejar o colo de minha mãe. Lugar único! Então, sigo de carro até o cemitério querendo estar perto dela.
Queria um mausoléu. Papai reclamara: para quê tanto? Pediu-me um bloco de granito. Esculpiria o que viera a ser, para mim, uma verdadeira madona. Os cabelos longos, pouco ondulados, caíam-lhe aos ombros. A cabeça e o olhar baixos. As mãos ajuntavam-se sobre o colo. Era saudade. A madona que se assentava sobre o túmulo de minha mãe era legítima saudade. E mesmo que em puro granito, era a saudade mais encarnada que já vira. Queria... Quis muitas vezes tocá-la e pedi-la que levantasse, a dor passa. Diminui. Àquela hora, já fria, a escuridão apontava. Ficaria ali por mais um tempo assentada ao lado da “pessoa” que simbolizava toda a falta de minha mãe.

Por toda minha vida busquei tomar as atitudes mais coerentes. Nunca operei mudanças bruscas. Mas agora, abrindo-me por dentro e refletindo sobre mim mesma... Temo a culpa, a falta de razão ou talvez a realização de vontades outrora inibidas. É um amálgama de rancor e espanto. Mais rancor que espanto. Mais espanto que pranto. Cansei de chorar! À frente o vazio, portal do horror. O esmagador peso do vazio, sobre o peito. Vazio que comprime, sufoca através do silêncio. Silêncio que dilacera, que golpeia. Exacerbadamente golpeia e dilacera. Dilacera a carne ao ponto de, num mesmo golpe, golpear a alma. A minha franqueza comigo mesma é diretamente proporcional à fraqueza com que conduzo minha vida sentimental. Exígua vontade de mudar. Levanto–me da saudade, da autocomiseração. Volto à vida. A madona me dá as costas, continua em saudade eterna. Jurei ter visto uma lágrima, escutado um choro engolido. Também baixo a vista. Fixo o olhar na alameda de pequenas pedras retangulares. Uma poça d’água reflete a capela de abóbada dourada. Na saída, o frio me abraça.

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