sábado, 20 de novembro de 2010

JOGOS DE ESPELHOS

Aquela frieza não saía de mim. Após dirigir noite adentro, chego em casa e à porta dou de frente com Jorge. Sonolento, quase não repara que estou a sua frente. Buzino para despertá-lo de seu limbo, para livrar-nos do choque quase inevitável. Ele não estava ali. Entramos. Vou para um dos quartos de hospedes, preciso estar só. Parece-me, às vezes, que sempre estou sozinha ao final do dia, ou quando a manhã aponta, no final da noite. O espelho reflete minha imagem. A toalha escorre entre minhas mãos. Sou eu? Reconheço minha tez; minhas sobrancelhas delineadas; meus olhos, que outrora ele dissera oceânicos, não brilhavam; minha boca se fechava e renunciava toda palavra. Coloquei brincos como se fosse sair. Os cabelos, após enxugá-los, eu os prendi de maneira a deixarem meu rosto à mostra. Queria me ver. Queria me reconhecer no reflexo que já não parecia comigo. De tanto olhar para fora, para os outros, eu agora não sabia quem me tornara. Tudo poderia ser tão simples. Enxergar-me por completa me faz indagar quais limites ultrapassei. Se eu olhar para dentro do espelho verei que realmente não sou eu. É o inverso, meu inverso. Sigo na contramão de mim mesma. Devolvo o colar à gaveta, mantenho o colo limpo. Não irei sair.

ETIAM TEMPUS

Fora um início. Era como se não tivesse dormido: ele apenas abriu os olhos. Seria como um relacionamento já de tempos. Deitada ao lado, ela não se movera. Tomada por um sono mortal, de pecado. As mãos de Jorge margeiam os cabelos da adormecida. Não acordará. Um beijo de brisa, quase sem toque. Veste-se e sai sem dizer uma palavra. À porta, vira-se e contempla o corpo delgado. Não o vê realmente. É o relevo formado pela tenra pele que o aquecera durante a noite. O corpo, agora sozinho, apoderava-se da cama, da coberta que lhe delimitava as formas, contido em si mesmo. A porta é trancada da forma mais sutil. Jorge vai embora.

Poderia chegar em casa e contar tudo. Jorge poderia fazer isso. No entanto, lembra-se das palavras da mãe, de como dizia que as mulheres não perdoam. Se o acaso vier e assim te encontrares sobre uma cama, doente, o olhar dela será de reprovação. Lembrar-te-á que fora traída. Que tu a traíste. E em teus instantes finais fincará o olhar em ti, agora de um teor repulsivo, condenando-te e relembrando, para tua tortura final, que estivera ao teu lado sempre, que te apoiara em tudo, nos cuidados, na dor, e que tal benevolência seria tua passagem para o inferno. Meu filho, que nunca admitas traição a uma mulher, mesmo que em evidente delito. Negas às últimas!

Durante o caminho de retorno, Jorge esvaziara-se de pensamentos, absorto em nada, despertado já à frente de sua casa. Circe o desperta. Dormindo ao volante! Ambos retornando ao raiar do dia, de caminhos opostos. Demoraram-se na decisão de quem estacionaria primeiro. Nas feições de ambos não era possível notar indagação alguma. Pareciam até tranqüilos. Uma paz estranha. Nesta hora, nem o vento soprava. As árvores testemunhavam mudas, imóveis.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

CALINA

Poderia fazer um balanço de minha história. Analisar minhas escolhas ao longo de um percurso tão conturbado. Quando penso que tudo está resolvido, sou tragada por problemas recorrentes e sentimentos que me deixam atordoada, ainda mais: surpresa comigo mesma. O meu casamento com Jorge, por exemplo, parece ser uma daquelas coisas que não eram para ser. O meu casamento é como uma pessoa bipolar. É como um monstro que me devora. É mais. Pior! É o mesmo que ter feito um pacto com o demônio: primeiro o deleite, depois o estipêndio. Estou prestes à pagar. Estas idas e vindas, ora entre beijos, ora entre discussões, olhares vazios, indiferença. Tudo me faz desejar o colo de minha mãe. Lugar único! Então, sigo de carro até o cemitério querendo estar perto dela.
Queria um mausoléu. Papai reclamara: para quê tanto? Pediu-me um bloco de granito. Esculpiria o que viera a ser, para mim, uma verdadeira madona. Os cabelos longos, pouco ondulados, caíam-lhe aos ombros. A cabeça e o olhar baixos. As mãos ajuntavam-se sobre o colo. Era saudade. A madona que se assentava sobre o túmulo de minha mãe era legítima saudade. E mesmo que em puro granito, era a saudade mais encarnada que já vira. Queria... Quis muitas vezes tocá-la e pedi-la que levantasse, a dor passa. Diminui. Àquela hora, já fria, a escuridão apontava. Ficaria ali por mais um tempo assentada ao lado da “pessoa” que simbolizava toda a falta de minha mãe.

Por toda minha vida busquei tomar as atitudes mais coerentes. Nunca operei mudanças bruscas. Mas agora, abrindo-me por dentro e refletindo sobre mim mesma... Temo a culpa, a falta de razão ou talvez a realização de vontades outrora inibidas. É um amálgama de rancor e espanto. Mais rancor que espanto. Mais espanto que pranto. Cansei de chorar! À frente o vazio, portal do horror. O esmagador peso do vazio, sobre o peito. Vazio que comprime, sufoca através do silêncio. Silêncio que dilacera, que golpeia. Exacerbadamente golpeia e dilacera. Dilacera a carne ao ponto de, num mesmo golpe, golpear a alma. A minha franqueza comigo mesma é diretamente proporcional à fraqueza com que conduzo minha vida sentimental. Exígua vontade de mudar. Levanto–me da saudade, da autocomiseração. Volto à vida. A madona me dá as costas, continua em saudade eterna. Jurei ter visto uma lágrima, escutado um choro engolido. Também baixo a vista. Fixo o olhar na alameda de pequenas pedras retangulares. Uma poça d’água reflete a capela de abóbada dourada. Na saída, o frio me abraça.