quinta-feira, 19 de agosto de 2010

INQUIETAÇÕES

Ao chegar à frente daquele restaurante, Circe lembrara que ali se encontrara pela primeira vez com Abgail, após retornarem da casa de praia. Lembrou-se até de antes: de quando recebera o convite. Não nos esquecíamos daquilo. À mesa, chegara cedo. Torradas, patê, água e uma taça de vinho. O tempo passaria. Havia escolhido uma cadeira virada para o sentido oposto à entrada. Um musicista, ao fundo, soava uma melodia delicada de seu violoncelo, com movimentos vigorosos que se contrapunham à suavidade da música. Parecia esforçar-se.

Assim que entrou, percebera em Circe certa inquietação, como se esperasse há algum tempo. Abgail consulta as horas: não estava atrasada. Conversaremos muito, como se nunca tivéssemos nos falado. Alguém para ouvir nossas frustrações.
O ser humano tem essa necessidade de compartilhar, de confessar. Mesmo que mantenhamos nossa face mais obscura às escondidas, é imperativo dizer algo, mesmo que não seja toda verdade. Não precisa ser. Nós camuflamos. Maquia-se o acontecido ou sentimento e dá-se ao outro, com desdém e tudo. Sem a importância que realmente enxergamos. Circe enxergara naquela amizade uma cúmplice, alguém para dividir o íntimo. À porta, o cheiro inebriante que ficara marcado na memória. Ao fundo o violoncelo, incessante. Ao pulso, o relógio marcava a hora exata: nem antes, nem depois.

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