sexta-feira, 13 de agosto de 2010

CLARIVIDÊNCIA

Prostrei-me ao colo de Abgail. Não era simples tristeza o que me acometia. Havia um medo. Gostaria de saber agir naquela situação. Agir de maneira enérgica, decidida, decidida como em outras horas de minha vida. Ou explodir. Mas isso não resolveria, ou talvez resolvesse. Trocaria um problema com o qual não tenho o menor tato por outro. Outro com o qual eu poderia usar toda a aspereza que é possível a um ser humano. Mas vendo minha mãe, nossa mãe, esquálida, passando por maus tratos. Sendo privada de cuidados. Como tratar uma situação como esta? Mataria Miriam com minhas próprias mãos se possuísse a coragem necessária! Enquanto isso, choro. Espero soerguer-me dessas lágrimas e contar a Abgail. O lençol encobria ambas em ondas, como o mar a abarcar os náufragos. O ar frio no quarto era como a própria chuva. A chuva era como as lágrimas que caíam incessantes. As tragédias chegam, sempre.

Nem sempre o laço consangüíneo é condição suficiente a uma aproximação fraternal entre irmãos, o que – dito desta forma – resultaria em redundância. Mas desde nossa literatura mais sagrada, bem como na literatura mais universal, encontramos casos de desentendimentos extremos entre irmãos. E, no entanto, existem fatos conhecidos, ocorrências com as quais temos maior proximidade – um vizinho, pode ser – e que nos mostram que tais desavenças, após um olhar, um, apenas, e apagam-se mágoas, profundas mágoas.

Clarividência, assunto que alguns tratam com certa desconfiança. Mamãe, porém, cria nessas sensações, Cendira afirmava ter. E surpreendia, às vezes. Essa coisa de pressentir a chegada de pessoas, como agora a pouco, não assustava. Bem, não a maioria das vezes. Entramos. Providenciei uma roupa seca, cobertor. Fomos para o meu quarto. Os lábios já roxos. Queria morrer, e na minha porta?! As lágrimas que escorriam nas faces de Cendira, o olhar comiserativo, eram como grande fornalha, derretiam as calotas de gelo que o tempo formara, à duras penas, no coração da irmã. Que aflição seria capaz de causar tamanha angústia à Cendira? Um verdadeiro aperto no coração. Minha irmãzinha! Apesar de ser esta mulher, a quem admiro tanto, nessas horas, não passa de minha menininha, a quem eu protegi tanto!

Quando a viu, parada à porta, os ombros molhados do chuvisco que caíra, Cendira tremia de frio. De chofre, ao descer do taxi, Abgail perguntou-lhe o que ocorrera. A irmã ali, sem aviso, não era coisa boa.

Um comentário:

  1. Nada é "inventado", o novo é apenas uma leitura diferente de algo que já foi escrito, falo também em relação à estruturas. Hoje descobri que um autor americano, Muriel Spark, em seu "Matadouro 5", também escreveu uma passagem de trás para frente. O meu trecho é apenas maior! Kkkkkk

    ResponderExcluir