domingo, 22 de agosto de 2010

FULCRO DE QUÊ?

Aquele pranto se estendia. As lágrimas vertidas pelos olhos da irmã eram como as chuvas no mês de agosto. Os dias mais frios. O período mais melancólico. A indagação é inevitável: por que tantas lágrimas? E a obstinação pelo silêncio? Não vira tristeza maior desde A enchente. De uma brevidade, o silencio irrompe num fio de voz: as palavras não encontram coragem. Para Cendira o vórtice de pensamentos tilinta em sua mente como um sino de igreja, num aviso de calamidade. Abgail inclina-se na busca de melhor ouvir. Outra vez as palavras rompem o momento limítrofe entre o instante que separa o silêncio – nascedouro – e a palavra proferida. Tais palavras são como lenha para fornalha: irradiam ira para o coração de Abgail.

Acredito naquelas pessoas que dizem possuir o controle de suas emoções. No entanto, acredito também num limite. Na tênue divisória que faz (a todos) externar a ira capaz do assassínio. Até os monges tibetanos já transpuseram este controle em direção à pancadaria. Sempre existe um limite.
Com a ira veio também a perplexidade como resíduo dos motivos que ela supôs que pudessem ter acometido Miriam para realizar tais atos. Nunca serviriam de desculpa. Desvencilha-se e segue em direção à varanda, Abgail. Busca, ela, ar. Quer límpida as decisões. Desanuviar os pensamentos! A lembrança: nós mudávamos, tanto. E sempre parecia tudo bem e a mudança - de novo - acontecia. As discussões abafadas. Os motivos que pareciam fúteis. Nosso pai, esmagado pela face obscura. Não fera, ferido! A precisão das palavras. O silêncio marcado. Sou forçada a ser corajosa, mesmo se não quisesse, não poderia fazer outra coisa!

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

INQUIETAÇÕES

Ao chegar à frente daquele restaurante, Circe lembrara que ali se encontrara pela primeira vez com Abgail, após retornarem da casa de praia. Lembrou-se até de antes: de quando recebera o convite. Não nos esquecíamos daquilo. À mesa, chegara cedo. Torradas, patê, água e uma taça de vinho. O tempo passaria. Havia escolhido uma cadeira virada para o sentido oposto à entrada. Um musicista, ao fundo, soava uma melodia delicada de seu violoncelo, com movimentos vigorosos que se contrapunham à suavidade da música. Parecia esforçar-se.

Assim que entrou, percebera em Circe certa inquietação, como se esperasse há algum tempo. Abgail consulta as horas: não estava atrasada. Conversaremos muito, como se nunca tivéssemos nos falado. Alguém para ouvir nossas frustrações.
O ser humano tem essa necessidade de compartilhar, de confessar. Mesmo que mantenhamos nossa face mais obscura às escondidas, é imperativo dizer algo, mesmo que não seja toda verdade. Não precisa ser. Nós camuflamos. Maquia-se o acontecido ou sentimento e dá-se ao outro, com desdém e tudo. Sem a importância que realmente enxergamos. Circe enxergara naquela amizade uma cúmplice, alguém para dividir o íntimo. À porta, o cheiro inebriante que ficara marcado na memória. Ao fundo o violoncelo, incessante. Ao pulso, o relógio marcava a hora exata: nem antes, nem depois.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

CLARIVIDÊNCIA

Prostrei-me ao colo de Abgail. Não era simples tristeza o que me acometia. Havia um medo. Gostaria de saber agir naquela situação. Agir de maneira enérgica, decidida, decidida como em outras horas de minha vida. Ou explodir. Mas isso não resolveria, ou talvez resolvesse. Trocaria um problema com o qual não tenho o menor tato por outro. Outro com o qual eu poderia usar toda a aspereza que é possível a um ser humano. Mas vendo minha mãe, nossa mãe, esquálida, passando por maus tratos. Sendo privada de cuidados. Como tratar uma situação como esta? Mataria Miriam com minhas próprias mãos se possuísse a coragem necessária! Enquanto isso, choro. Espero soerguer-me dessas lágrimas e contar a Abgail. O lençol encobria ambas em ondas, como o mar a abarcar os náufragos. O ar frio no quarto era como a própria chuva. A chuva era como as lágrimas que caíam incessantes. As tragédias chegam, sempre.

Nem sempre o laço consangüíneo é condição suficiente a uma aproximação fraternal entre irmãos, o que – dito desta forma – resultaria em redundância. Mas desde nossa literatura mais sagrada, bem como na literatura mais universal, encontramos casos de desentendimentos extremos entre irmãos. E, no entanto, existem fatos conhecidos, ocorrências com as quais temos maior proximidade – um vizinho, pode ser – e que nos mostram que tais desavenças, após um olhar, um, apenas, e apagam-se mágoas, profundas mágoas.

Clarividência, assunto que alguns tratam com certa desconfiança. Mamãe, porém, cria nessas sensações, Cendira afirmava ter. E surpreendia, às vezes. Essa coisa de pressentir a chegada de pessoas, como agora a pouco, não assustava. Bem, não a maioria das vezes. Entramos. Providenciei uma roupa seca, cobertor. Fomos para o meu quarto. Os lábios já roxos. Queria morrer, e na minha porta?! As lágrimas que escorriam nas faces de Cendira, o olhar comiserativo, eram como grande fornalha, derretiam as calotas de gelo que o tempo formara, à duras penas, no coração da irmã. Que aflição seria capaz de causar tamanha angústia à Cendira? Um verdadeiro aperto no coração. Minha irmãzinha! Apesar de ser esta mulher, a quem admiro tanto, nessas horas, não passa de minha menininha, a quem eu protegi tanto!

Quando a viu, parada à porta, os ombros molhados do chuvisco que caíra, Cendira tremia de frio. De chofre, ao descer do taxi, Abgail perguntou-lhe o que ocorrera. A irmã ali, sem aviso, não era coisa boa.