sexta-feira, 9 de abril de 2010

PECADO

Sozinho não é o mesmo que solitário! Olhava para dentro de si, e mesmo olhando não acreditava - não parecia - estar tudo bem. Os diálogos de poucas palavras e respostas monossilábicas pareciam ter voltado, voltariam, se por um instante, talvez, quem sabe? Vamos almoçar? Vamos. Carne com batatas. Bom! Pega o suco na geladeira. Tá! Vai trabalhar até tarde amanhã? Não. Acordei e não estavam lá. Na verdade dormiam, era como se não estivessem. Escreve, escreve, escreve. “Ele se sentia só, mas apenas quando realmente estava. Talvez fossem os anos, pesando, sobre as costas. Caminhava com os ombros um pouco encurvados, para frente, dobrado de peso, muito peso, uma vida que pesava. Queria ter construído algo de importante. Um edifício. Um livro. Nem tive filhos! E os olhos dela estavam lá. Certo dia, de tão próximo que estava, senti seu perfume: jabuticaba. Cerrei os olhos e respirei profundamente. O cheiro me invadia. Sabia, ela sabia. Outra vez pensei que era maldade, pura. O olhar profundo, à procura. Os meus estavam lá, esperando, pedindo uma palavra. Meus lábios pronunciavam, queriam pronunciar uma palavra pros ouvidos dela. Escutou o que eu disse? Fala, diz, você nunca fala, por quê? Jogo demorado. Eu não tenho tempo, não sou apressado é que não tenho tempo e você não diz, nada, queria dizer, eu digo, daqui, distante. Até tivemos uma conversa inteira, longa: eu falava, falava, falava e você não respondia, nunca, parecia que jamais, responderia nunca, ali, só, ou apenas com as amigas. Eu voltava para minha janela. Lia. Leria tantos romances quanto necessário para, enfim, vê-la passar. Soube quem era. Soube o seu nome, você fazia questão que eu soubesse. Não vai falar com ele? Não, falo somente com quem quero! Deixa de ser chata, você vive olhando... Não, já disse!”. Escrevo. Se a linguagem é a criação do mundo, não informação dele, eu vivo tudo isso! As formigas na caixa! Me aceite como sou, Jorge! A outra Circe me faz mal! Não quero mais. Vejo que assim, como estou, respiro, vivo, muito! Deixa, Jorge, vai, deixa? Vou pedir, ele deixa.

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