sábado, 17 de abril de 2010

NO ÂMAGO

Olhar fixo para ele, meu casamento, eu tento, mas não consigo. Do mesmo jeito de quando criança: fixava os olhos no sol, bem no sol, tentando ver os contornos. Talvez, por um mísero instante, breve, o mais breve possível, pudesse enxergar aquela bola brilhante.

O senhor Dagoberto me fala de como Circe está, do quanto ela precisa de mim, e não parece estar se referindo ao meu casamento. Ouço. Olho e não é o meu casamento. Não quero que seja. Não quero porque não quero estar casado! Todo aquele sentimento de querer tirar um peso das costas, o maior deles, como se estivesse prestes a morrer esmagado por tal peso, é o que sinto! Os lábios do senhor Dagoberto não param. Ele fala, fala e fala. O que ele está falando! Do que ele está falando mesmo? Ah, meu casamento. É melhor não pensar. Nós estamos bem, não precisa se preocupar! Conversamos e estamos bem. Ela está em casa? Não, ficou na casa de praia, escrevendo. Parece que começou um livro novo. Assim que ela chegar, peça para me ligar. Está bem! Ele se foi e eu fiquei com uma gastura na boca, como se tivesse comido ferro, como se alguém me fizesse tomar um remédio à força, amargo, o gosto amargo descendo pela boca, a ânsia de vômito...

Na vida encontramos, basicamente, três tipos de pessoas: as que tomam decisões; as que não tomam decisão alguma; e uma terceira, que provavelmente regurgitaria, pois não me desce à goela, a que coloca suas decisões nas mãos dos outros - isso é diferente de não tomar decisão nenhuma. Este terceiro tipo tem medo de arrepender-se futuramente de algum posicionamento que tome, por isso, quase sempre responde: você é quem sabe, é você quem está dizendo isso! Parece que o simples fato de saber que o erro não partiu de sua decisão, livra-lhe do fardo das conseqüências. Era isso que deixava Jorge doente: ver Circe ali, sempre ao seu lado, sem tomar pulso de nada. Pensou que não casara com a mesma mulher que conhecera. A verdade é que Jorge não sabe - ou finge para si próprio não saber - o que sente por Circe. Às vezes ele, em seu íntimo, repudia a figura de Circe. Em outras a acolhe em seus braços, ela feito criança, ele se culpando de não dar-lhe apoio. Mas sua constância só reside num ponto: dinheiro. Não, Jorge não seria assim. Seria? Eu não faço tudo por dinheiro, não. O que eu me tornaria agindo assim? Meu problema seria - já refleti muito sobre isso - essa busca incessante por coisas novas, mulheres, principalmente. Não sei, é como se cada uma tivesse algo que faltasse à mulher que eu consideraria perfeita, e continuo buscando. Quando me envolvo com alguém, num relacionamento novo, gostaria de remover dessa pessoa o que me atraiu e colocar na Circe que um dia conheci. Ou talvez quisesse retirar até algo de Circe e colocar em outra pessoa. Quem sabe em Abgail... preciso conhecê-la a fundo. Abgail com aqueles oceanos na face, os lábios que pedem não sei o quê. Ela fala olhando nos olhos, no fundo deles, e de repente, num desvio rápido, olha para minha boca e contrai os próprios lábios. Eu a quero, disso eu sei!

Um comentário:

  1. Menino tu vais longe em?????/tudo bem?fico besta cada vez que leio.....olha tens noticia de Mario? DE VEZ EM QUANDO EU LEIO OS SEUS,LEIO OS DELE,mas faz tempo que ele não posta,será que esta ocupado com o bebê?abraço erick........

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