sábado, 10 de abril de 2010

ÍMPETO

De tanto que pensei nestes últimos dias, nem dei conta da distância que percorri! E mal me situei, já me encontrava à frente da ótica. Um percurso de um segundo. Circe, Abgail, amor e sexo! Amor?. Sexo. Estou subindo para o escritório. Não estou para ninguém! Tenho funcionários competentes, no mais, delego os afazeres e me reservo a tratar dos problemas maiores, quando surgem. Nos primeiros anos não foi fácil manter os negócios. Eu me desdobrava, eu era muitos. Administrar um negócio no topo, estruturado, é mais fácil. Depois de estabelecido, nunca enfrentei crise. As áreas de saúde e alimentação nunca enfrentam crise! Eu preciso mesmo é voltar à ativa. Na vida pessoal. Desopilar, palavra mais feia! Agora é como se não vivera os últimos dias. Último é quando a gente morre. Até lá, é sempre penúltimo. Um amigo falava assim e complementava: vira essa boca prá lá! Não acredito em superstição, nenhuma. Nem em Deus. Religião é para ganhar dinheiro. Eu até me converti, uma vez, numa igreja protestante: interessara-me uma jovem, Flarbela. Flor, para mim. Existia um pretendente, isso. Não sei com o quê trabalhava, lembro-me que dirigia uma Kombi. Ela não o quer, deseja o bonitão, não é? - o pastor dizia - E era mesmo. É, eu! Ela me queria e eu era duro nessa época. Meus pais insistiam que era necessário dar valor ao dinheiro, que através do meu trabalho, o faria valer, suado que era. Mas que tostão, que nada. Tudo residia na ponta da língua. Matéria trabalhada. Aqueles modos de que já falei. Era como se antes de tudo se consumar, eu sentiSSE a confirmação na ponta da língua, o sabor já ali, na ponta, onde fica o doce. E era certo, sempre, como o dia que nascerá. Mas, voltando aos negócios, acho que a demora maior em me estruturar, fora decorrente de minha honestidade: impostos, contas, tudo sempre pago, certo. Poderia me utilizar das palavras de meu pai: não quero nada dos outros - não subentenda mulher -, mas o que é meu eu quero feito tapioca: dobrado. Findo o pensamento, batem à porta. Teresa, eu não estou! É o senhor Dagoberto. Por que não disse logo, mande que entre, vai deixar meu sogro esperando?

Quando se casa, não é apenas uma união entre duas pessoas, unem-se as famílias, somam-se as riquezas e dividem-se os problemas, não antes de multiplicá-los. Mas o casamento de Circe e Jorge fora algo diferente: ele quase sem passado, família ausente, distante; ela apenas com o pai e o peso da tristeza da perda da mãe, dividido entre os dois, apenas. Problemas familiares mínimos para serem multiplicados. Na divisão restaria nada, quase. Nenhum dos dois, nem pai nem filha, vivia choramingando. Jorge sabia que a dor era profunda, mas só. É aquele tipo de dor que nos faz lembrar que estamos vivos, e que a vida é um caminho de sofrimento até a paz. Uns querem a tranqüilidade última de maneira urgente. Nunca quis. Viver é transcender a dor. É ter essa dor como amante. É dançar com ela da maneira mais íntima: agonizando até o instante final. E quando beijar a dama fria, ela não terá me privado de sentir, por que a dor nos faz sentir a vida. Como vocês estão, Jorge? Preocupei-me, não tive notícias.

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