domingo, 18 de abril de 2010

AFLUXO

“Sentei-me à janela. Não esperava vê-la. Gisele nunca aparecia essa hora e eu não queria olhar para ela acompanhada de seu namoradinho, grudada nele. Sentei-me. À mão, o livro que ainda não terminara. Desde que Gisele começou a aparecer em frente à minha janela nunca mais consegui sair do capítulo ‘Uma florzinha de mulher’. Gisele tomava minha atenção. Comecei a ler. Eu queria saber da história. Estava disposto a lê-la até o fim, de ver os caminhos daquele drama. Queria me envolver na psicologia daqueles personagens. A literatura envolve, é um mostrar escondendo de que tanto se fala que ao provar disso, ao experimentar esta arte, me vi cativo. As páginas avançavam. Avançava também um aperto no peito. Eu queria Gisele. Vê-la me faria bem. Gisele não me deixaria, estaria ali, sentada, sem o namoradinho. Ele a veria, sozinha, não queria saber mais dele. Raspara a cabeça, sim, o namoradinho de Gisele raspara a cabeça. Ele dizia que agora namorava outra. Mas Gisele não o queria mais, não, não de agora. Muito ciumento! Você desconfia de tudo! E olhava séria, falava sério, com ele. Gisele chega, à janela me olha. Senta no banco de sempre, do outro lado da rua, à minha frente e sozinha. Neste gesto, Gisele libertara o meu...” puxada para a realidade, Circe desperta com o toque do celular: Abgail. Espero não tê-la atrapalhado, Circe. Não, gostei muito de você ter ligado! Queria marcar para almoçarmos juntas, assim que você voltasse, mas não sei, talvez o livro... Não, claro! Almoçaremos, posso escrever em casa, na cidade, sem problema, e gostaria muito de revê-la, de conversarmos. Mesmo? Sim, nos demos tão bem, não foi? É, foi, e então? O almoço? Sim. Está de pé e assim que retornar te ligo para acertarmos hora e local. Combinado. Que bom! É! Então até mais! Beijo! Outro!
Não pensava mais. A ligação de Abgail parecia ter lhe dado um branco, daqueles em hora de prova, final ou vestibular, a tremedeira era a mesma. Não que Circe estivesse tremendo. Apenas o branco, não vinha nada. Sentada à escrivaninha não escrevera mais nada. Uma linha sequer. Ela e a tela, o cursor piscando, a mão sobre o teclado ergométrico, a caneca de café, não puro, com leite, muito leite, diria que leite com café, seria mais apropriado e em pó, o leite. Gostava das bolas que se formavam, elas dissolviam na boca. Leite. Delicioso! Delícia! Tudo organizado para horas, quem sabe dias, ali, ela e a tela. Não precisaria de nada, mais nada: computador; escrivaninha à janela, como o personagem; leite, café, os dois juntos aumentam a concentração. E agora Abgail, em seus pensamentos, chamando-a: volta, Circe, volta! Ela voltará.

Um comentário:

  1. Parabéns, Erick! desejo a vc toda sorte do mundo, pois vc merece, pois vc tem o que muitos querem e poucos tem: TALENTO!
    Sorte, felicidades. è tudo o q te desejo. eu simplesmente A-D-O-R-E-I-! ASSINADO: DAYANE

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