sábado, 6 de março de 2010

VIDA

É melhor que você reúna a família, não terão muito tempo! O senhor tem certeza? O médico não hesita: ele está com falência múltipla... não foi a esclerose, o problema maior está por conta do diabetes... receio que sim, só mais algumas horas. Cendira sai da sala de espera, segue por um corredor que a leva para fora do hospital e chora. Era o turno dela, pois Marta passara toda a noite ao lado do marido, não apenas esta última como também as três anteriores. Necessitava dormir, um descanso para seguir a jornada de destino certo. Nesses momentos as pessoas tendem a antecipar as dores que se seguirão, antecipar o sentimento de perda que perdurará - quem sabe - os próximos anos, ou talvez nem chegue a ser superado. Dessa forma, a carga emocional parece insuportável. Não vá!

Nós o velamos em casa. O caixão aberto... ele nem parecia estar morto, suas feições estavam serenas e o que mais parecia atestar sua morte era o aroma das flores de jasmim, eu as colhi do nosso próprio jardim, sabia que ele gostava, em nossa vida em comum ele dissera muitas vezes. Era como se estivesse me fazendo um pedido, quase que explícito: Marta! Coloque-as em meu caixão. Ele nunca pronunciara estas palavras. As pessoas vinham, poucas. Elas vestidas de preto e eu me perguntava se por respeito a ele ou compadecidas por mim. Não queria aquele enternecimento, não precisava daquela tristeza.

Todos imaginavam que Idalino teria uma morte agonizante, que urraria em seus últimos momentos, como se estivesse sendo arrastado para o fogo. Quem não se desesperaria? A fase de doença pareceu destruir os últimos resquícios de nervos de Marta e Cendira, eram as únicas a tratarem dele e com o passar dos anos, ele só piorava: perda de memória; difícil locomoção. Abgail tratou logo de ir embora, em seguida Benoni. Parece que não se tratava do mesmo pai, quando Cendira ligou para Abgail não pareciam serem filhas do mesmo pai. Calei-me ao ouvir as palavras de Abgail, ela fora muito dura com ele, eu não conseguia ver papai daquela forma, era como se estivesse falando de outra pessoa e eu preferia não ouvir. A noite estava fria e o velório duraria até o amanhecer, ninguém mais ficara e nossa família se reduzira a mamãe e eu. E eu me reduzira em dor, era uma falta não apenas dele, mas de tudo que vivera, ele realmente fora um pai para mim.

2 comentários:

  1. Uma coisa está me doendo nos ouvido: no terceiro parágrafo temos: tratarem/tratou/tratava. vou modificar.

    Erick Camilo

    ResponderExcluir
  2. Gostei de + da maneira como você escreve *-*
    Continue escrevendo \o/
    Eu continuarei lendo... Beijos (Patrícia)
    Estou me atrevendo a escrever uma coisa que ainda não sei no que vai dar:
    http://damadojogo.blogspot.com/
    Caso você possa passar lá e comentar... *-*

    ResponderExcluir