sábado, 27 de março de 2010

SUAVÍSSIMO

Quando a vi, ali, próxima à janela, sentada naquela escrivaninha de mogno, a luz irradiava sobre Circe como uma seda, como se essa seda - fina que era - lhe tocasse a pele. Pensei em despedir-me, mas não. Senti como se ela não estivesse ali, de tão compenetrada no que escrevia Circe não estava ali. Ela parecia frágil, mas ao mesmo tempo sentia-lhe uma força interior imensurável. Mexia comigo, ela mexia comigo! Ela me atraía de um jeito... Circe, naquela sua determinação, impressionava. Parecia que ressuscitara. Buscava o ar como quem não respirava há muito. Como quem, de volta de um mergulho, puxa o ar com vontade, força que vem de dentro para se agarrar à vida. Preferi assim, sem palavras. Melhor seria preservá-la, em toda força. Chamei um taxi. Enquanto esperava sentei-me na varanda. Estou pronta para retornar aos problemas cotidianos? A vontade que eu tenho é de jogar tudo para o alto!
A manhã estava um pouco fria. Abgail recostara-se na cadeira da varanda pensando se voltaria àquela casa. Lançou a mão na bolsa e retirou fones de ouvido. Imaginou que, por conta da localização da casa, o taxi demoraria um pouco para chegar e a música faria o tempo passar mais depressa. É curioso como o tempo varia de acordo com nosso estado de espírito. Eu digo que o estado psicológico de uma pessoa afeta sua percepção de tempo: num instante estava tudo bem, e os anos passavam, aos bocados, e só nos damos conta quando a carga da idade começa a pesar sobre as costas.
A cadência da música envolveu-me e logo ressonei. Não me vinham pensamentos, ou eles eram mesmo como as águas do oceano, as mais profundas, pois tudo estava escuro e eu nada conseguia distinguir. Foi quando submergi, despertada por uma leve pressão em meu ombro. Abgail, seu taxi chegou! Era Jorge. Nunca havia sentido seu toque, e confesso, ele tinha firmeza na mão! Por que não vai comigo, eu poderia levá-la, não era preciso chamar o taxi? Não queria incomodar. Não incomodaria, mas tudo bem fica para a próxima! Ele olhou-me, era como se me enxergasse por dentro, como se quisesse algo. Esse Jorge! Não o conheço muito bem, ainda, mas... deixa para lá. Melhor esquecer, não? Bem, não sei. Vou deixar as coisas acontecerem. Parti. Para trás, a casa, e era mais que isso. E duas pessoas que eu veria em minha vida sempre, de agora em diante.
O carro, de maneira que logo Jorge perdeu-o de vista, devido à neblina, seguiu pela serra numa velocidade moderada. Nesse instante, Jorge pensava além. E de volta, se perguntaria: hum, será que dá?

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