domingo, 21 de março de 2010

LONGÍNQUO REMANSO

“Ele estava sentado, a sua frente, ampla e aberta, a janela permitia a entrada de uma luz alva. Dia claro perfeito para a leitura. A janela dava para a rua. Ele a via. Não era movimentada como as dos subúrbios onde crescera, mas uma vez ou outra passavam pessoas: conhecidas; desconhecidas; indiferentes. Sabia o nome da moça. Aquela ninfeta passava em frente àquela casa todos os dias. Olhar evasivo. Ela tinha um olhar que fugia tortuoso, apressado. Numa ocasião passou de namoradinho, só para provocar. Escolhia o banco da margem oposta da rua, e olhava-me. Gisele não me tirava o olho. Falava ao ouvido dele e por trás da nuca do menino me fitava.
Ela estudava em uma escola próxima, ao fim da rua. Certa vez, eu me encontrava na padaria e - percebi de relance - uma das amiguinhas dela viu-me pela vitrine: ele está lá dentro. Logo entrou. Dirigiu-se ao balcão e pediu alguma coisa. Os olhos vivos de Gisele podem virar a cabeça de qualquer um. A minha não. A estrada já era extensa. Pensei que...” Silêncio. Percebera que estava sozinha. Jorge! Você está aí, Jorge? Quando escreve, Circe se abstrai do mundo. Entra no mundo da ficção. E que, saibam vocês, não é um mundo de mentira, de faz-de-conta! A ficção não trata do que foi, mas sim do que poderia ter sido. Indaguei de novo, refiz-me a mesma pergunta de antes, dos primeiros anos de casamento: viveria sem escrever? Poderia passar sem a escrita? Não obtive resposta. Não da primeira vez. No começo da manhã, bem cedo, acho que fora Jorge ou talvez Abgail, não sei, mas alguém falou comigo e eu distante, como antes. À janela, como meu personagem, eu não via a paisagem à minha frente. Na verdade eu via o que o meu personagem via. Eu era ele. Olhando Gisele. Vendo-a passar com o namoradinho: ele de boné, olhos claros. Mas ela olhava pra mim. Não digo eu, Circe. Digo eu, o-homem-que-lia-à-janela. Então não poderia ter ouvido Jorge ou Abgail. Eu, e acredito nisto, não estava aqui. Os dois se foram. Mas tudo estava bem. Nós estávamos bem.

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