domingo, 28 de março de 2010

LIMBO OU PARAÍSO?

Tateei ao meu lado e, após algumas passadas de mão, percebi que estava sozinho. E era cedo, bem cedo, e Circe já levantara, acho que nem dormira, de tão cedo que era. Hora de ir para o trabalho. Não gostava de acordar sozinho. Mesmo em casa, lá na cidade, Circe levantava primeiro, mas eu sempre percebia, despertava com ela, embora ficasse na cama até mais tarde, esperando que ela preparasse o café, assim eu cochilava um pouco mais. Não tomaremos o café da manhã juntos, eu sei. Ela está escrevendo. Não iremos para casa juntos, também. É! No começo era assim: éramos independentes, os dois: juntos, mas separados. Quero dizer, casamos e - acredito - nós nos amávamos, eu acho. Cada um tinha seu lugar. Seus afazeres: ela escrevia, muito, sempre, compulsivamente. Morreria se parasse. Não morreu. E cuidava da casa: contas; refeições; limpeza; minhas roupas. Eu, bem, eu cuidava da ótica. Provia o sustento da família. E estávamos juntos, sempre. Depois que ela parou de escrever, sempre estávamos juntos. Veio a lembrança de uma namorada que teve. Ela perguntou, certa vez, se eu a achava “grudinho”. Um pouco. Você não gosta de ficar comigo? Não disse isso. Mas eu perguntei se você me achava um grude e você respondeu que sim. Mas você me perguntou se eu a achava um grude ou afirmou que era? Eu perguntei. Pensei que você tinha afirmado por isso eu disse um pouco. Circe e eu estávamos sempre juntos, mas agora era como antes: ver Circe de novo escrevendo me dava a certeza de que teríamos espaços separados de novo. Esta nossa reconciliação me soa mais como uma trégua. Não que estivéssemos em guerra, e talvez fosse. Circe estava se armando novamente: palavras.
Jorge chamou por Circe: não vem comigo, meu amor? O silêncio era a resposta que ele esperava, sabia que ela o pronunciaria. Não entendia como conseguia aquilo: longe, parecia doente. Distante. Perdida. É, Circe parecia perdida. E ele, nada perderia! Quando chegou à varanda, Abgail estava dormindo. Neste momento parou, à frente da casa, um taxi. Tocou-a no ombro: Abgail! Queria despertá-la. Ela estava ali, linda, azul. Lindamente azulada como a duas noites, na praia. Olhou para Abgail e era como se a visse, deitada. Como se a visse nua, bem a sua frente, de novo: os seios à mostra, firmes que eram, pareciam, queriam afrontar, afrontavam. Ela, após ele perguntar por que não iria acompanhá-lo, disse que não queria incomodar. Não incomodaria! Fica para a próxima!

A sedução é um jogo: o melhor dos jogos. Envolve. Há uma satisfação neste processo, o caminho até a conquista é o que parece dar mais prazer. É possível que mais do que os finalmente. Num filme - não lembro ao certo qual - chamavam isto de retardo de prazer: os amantes nunca chegavam as vias de fato, não até próximo ao término do filme. Retardo, essa é a palavra. E Jorge retardará, ao máximo. Na busca da plenitude do orgasmo. Na busca do sublime. Já havia se esquecido de como era bom, isso, essa busca desenfreada pelo prazer. Prazer que Circe nunca o promovera de fato. Não era triste, tudo isso. Pelo contrário, entendia que tinha muito ainda para viver. Não pôde observar, ver os olhos de Abgail, virando a cabeça para o lado, para vê-lo, sumindo na neblina. Olhou, olharia para ele, assim, ela partindo? Ele observou o carro até bem distante, até sumir na névoa densa. Apenas o começo! A casa ficaria para trás, não para sempre. Voltariam ali os três. Viveriam momentos bons. Uma casa ao pé da colina, às margens do mar. A neblina que estirava uma lerdeza desde o pico até as águas quietas. As ondas cadenciadas embalavam a quem se dispusesse a olhá-las, por um breve tempo que fosse e seria capaz de dormir. Um sono tão profundo. O sono dos justos. Era o paraíso!

sábado, 27 de março de 2010

SUAVÍSSIMO

Quando a vi, ali, próxima à janela, sentada naquela escrivaninha de mogno, a luz irradiava sobre Circe como uma seda, como se essa seda - fina que era - lhe tocasse a pele. Pensei em despedir-me, mas não. Senti como se ela não estivesse ali, de tão compenetrada no que escrevia Circe não estava ali. Ela parecia frágil, mas ao mesmo tempo sentia-lhe uma força interior imensurável. Mexia comigo, ela mexia comigo! Ela me atraía de um jeito... Circe, naquela sua determinação, impressionava. Parecia que ressuscitara. Buscava o ar como quem não respirava há muito. Como quem, de volta de um mergulho, puxa o ar com vontade, força que vem de dentro para se agarrar à vida. Preferi assim, sem palavras. Melhor seria preservá-la, em toda força. Chamei um taxi. Enquanto esperava sentei-me na varanda. Estou pronta para retornar aos problemas cotidianos? A vontade que eu tenho é de jogar tudo para o alto!
A manhã estava um pouco fria. Abgail recostara-se na cadeira da varanda pensando se voltaria àquela casa. Lançou a mão na bolsa e retirou fones de ouvido. Imaginou que, por conta da localização da casa, o taxi demoraria um pouco para chegar e a música faria o tempo passar mais depressa. É curioso como o tempo varia de acordo com nosso estado de espírito. Eu digo que o estado psicológico de uma pessoa afeta sua percepção de tempo: num instante estava tudo bem, e os anos passavam, aos bocados, e só nos damos conta quando a carga da idade começa a pesar sobre as costas.
A cadência da música envolveu-me e logo ressonei. Não me vinham pensamentos, ou eles eram mesmo como as águas do oceano, as mais profundas, pois tudo estava escuro e eu nada conseguia distinguir. Foi quando submergi, despertada por uma leve pressão em meu ombro. Abgail, seu taxi chegou! Era Jorge. Nunca havia sentido seu toque, e confesso, ele tinha firmeza na mão! Por que não vai comigo, eu poderia levá-la, não era preciso chamar o taxi? Não queria incomodar. Não incomodaria, mas tudo bem fica para a próxima! Ele olhou-me, era como se me enxergasse por dentro, como se quisesse algo. Esse Jorge! Não o conheço muito bem, ainda, mas... deixa para lá. Melhor esquecer, não? Bem, não sei. Vou deixar as coisas acontecerem. Parti. Para trás, a casa, e era mais que isso. E duas pessoas que eu veria em minha vida sempre, de agora em diante.
O carro, de maneira que logo Jorge perdeu-o de vista, devido à neblina, seguiu pela serra numa velocidade moderada. Nesse instante, Jorge pensava além. E de volta, se perguntaria: hum, será que dá?

domingo, 21 de março de 2010

LONGÍNQUO REMANSO

“Ele estava sentado, a sua frente, ampla e aberta, a janela permitia a entrada de uma luz alva. Dia claro perfeito para a leitura. A janela dava para a rua. Ele a via. Não era movimentada como as dos subúrbios onde crescera, mas uma vez ou outra passavam pessoas: conhecidas; desconhecidas; indiferentes. Sabia o nome da moça. Aquela ninfeta passava em frente àquela casa todos os dias. Olhar evasivo. Ela tinha um olhar que fugia tortuoso, apressado. Numa ocasião passou de namoradinho, só para provocar. Escolhia o banco da margem oposta da rua, e olhava-me. Gisele não me tirava o olho. Falava ao ouvido dele e por trás da nuca do menino me fitava.
Ela estudava em uma escola próxima, ao fim da rua. Certa vez, eu me encontrava na padaria e - percebi de relance - uma das amiguinhas dela viu-me pela vitrine: ele está lá dentro. Logo entrou. Dirigiu-se ao balcão e pediu alguma coisa. Os olhos vivos de Gisele podem virar a cabeça de qualquer um. A minha não. A estrada já era extensa. Pensei que...” Silêncio. Percebera que estava sozinha. Jorge! Você está aí, Jorge? Quando escreve, Circe se abstrai do mundo. Entra no mundo da ficção. E que, saibam vocês, não é um mundo de mentira, de faz-de-conta! A ficção não trata do que foi, mas sim do que poderia ter sido. Indaguei de novo, refiz-me a mesma pergunta de antes, dos primeiros anos de casamento: viveria sem escrever? Poderia passar sem a escrita? Não obtive resposta. Não da primeira vez. No começo da manhã, bem cedo, acho que fora Jorge ou talvez Abgail, não sei, mas alguém falou comigo e eu distante, como antes. À janela, como meu personagem, eu não via a paisagem à minha frente. Na verdade eu via o que o meu personagem via. Eu era ele. Olhando Gisele. Vendo-a passar com o namoradinho: ele de boné, olhos claros. Mas ela olhava pra mim. Não digo eu, Circe. Digo eu, o-homem-que-lia-à-janela. Então não poderia ter ouvido Jorge ou Abgail. Eu, e acredito nisto, não estava aqui. Os dois se foram. Mas tudo estava bem. Nós estávamos bem.

sábado, 6 de março de 2010

VIDA

É melhor que você reúna a família, não terão muito tempo! O senhor tem certeza? O médico não hesita: ele está com falência múltipla... não foi a esclerose, o problema maior está por conta do diabetes... receio que sim, só mais algumas horas. Cendira sai da sala de espera, segue por um corredor que a leva para fora do hospital e chora. Era o turno dela, pois Marta passara toda a noite ao lado do marido, não apenas esta última como também as três anteriores. Necessitava dormir, um descanso para seguir a jornada de destino certo. Nesses momentos as pessoas tendem a antecipar as dores que se seguirão, antecipar o sentimento de perda que perdurará - quem sabe - os próximos anos, ou talvez nem chegue a ser superado. Dessa forma, a carga emocional parece insuportável. Não vá!

Nós o velamos em casa. O caixão aberto... ele nem parecia estar morto, suas feições estavam serenas e o que mais parecia atestar sua morte era o aroma das flores de jasmim, eu as colhi do nosso próprio jardim, sabia que ele gostava, em nossa vida em comum ele dissera muitas vezes. Era como se estivesse me fazendo um pedido, quase que explícito: Marta! Coloque-as em meu caixão. Ele nunca pronunciara estas palavras. As pessoas vinham, poucas. Elas vestidas de preto e eu me perguntava se por respeito a ele ou compadecidas por mim. Não queria aquele enternecimento, não precisava daquela tristeza.

Todos imaginavam que Idalino teria uma morte agonizante, que urraria em seus últimos momentos, como se estivesse sendo arrastado para o fogo. Quem não se desesperaria? A fase de doença pareceu destruir os últimos resquícios de nervos de Marta e Cendira, eram as únicas a tratarem dele e com o passar dos anos, ele só piorava: perda de memória; difícil locomoção. Abgail tratou logo de ir embora, em seguida Benoni. Parece que não se tratava do mesmo pai, quando Cendira ligou para Abgail não pareciam serem filhas do mesmo pai. Calei-me ao ouvir as palavras de Abgail, ela fora muito dura com ele, eu não conseguia ver papai daquela forma, era como se estivesse falando de outra pessoa e eu preferia não ouvir. A noite estava fria e o velório duraria até o amanhecer, ninguém mais ficara e nossa família se reduzira a mamãe e eu. E eu me reduzira em dor, era uma falta não apenas dele, mas de tudo que vivera, ele realmente fora um pai para mim.