terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

SIMILITUDES

Olhava aquela família e era como se olhasse mesmo a esfinge, a que propunha enigmas para, se não respondidos, devorar os viajantes. Abgail seria uma viajante frente a sua própria família. Sua esfinge. Seu mostro particular que lhe propunha enigmas. Ou quem sabe um mundo. Um mundo! Sim, isso mesmo: aquele grupo de pessoas que ela chamava de família seria um mundo. Talvez Abgail fosse um satélite desse planeta que, com a força característica de seu movimento, poderia desprender-se dessa órbita e vagar pelo vazio do espaço. Mas ao contrário, por mais energia que gerasse - com seu movimento - apenas se afastaria o mínimo possível e sua existência não seria tão duradoura para totalizar o tempo necessário para desvencilhar-se. E então, passar pelos percalços dessa convivência seria um trajeto inevitável. Mas Abgail não se sentia... não se sente confortável nesta situação. Os problemas familiares parecem sugá-la para esse turbilhão. E mesmo morando em outra cidade, os laços consangüíneos são amarras impossíveis de serem desatadas: o pai inacessível; a mãe permissiva; o irmão fugido de casa... Resolvera caminhar na orla. A água deveria estar fria. Acreditava que sim. Um banho naquelas águas congelaria o sangue. Caminhar. As pessoas vinham de encontro a ela e passavam, desconhecidas que eram: amigos; solitários e seus cães; ciclistas... a vida que não cessava.

Não se pode fugir. Criar um mundo próprio para se abstrair da realidade não é a resposta. A força interior de Abgail seria suficiente para que ela siga sem tropeços. A vida que leva parece-se com um trem nos trilhos: estuda o que gosta e já está, digamos, inserida no ramo, pois o estágio na empresa de publicidade e designer lhe pouparia metade do percurso. Continuou a caminhar contra aquela onda de pessoas, não queria ir com a correnteza, nunca se achou como os outros. Era diferente. Pensava diferente, ao menos em algumas coisas. E olhava para cada rosto incógnito que surgia. Reconheceu, um pouco à frente, um semblante que a interessara há algum tempo. Lembrou, claro. Buscara saber dele: casado. Parecia algo contra a natureza, como morrer antes de um filho, essa minha busca fazia-me sentir assim, contra eu mesma, e sobre o filho, não saberia, ainda não tivera um. A mulher ao seu lado era bonita. Conversaria com ela, saberia mais dele assim. Cumprimentou-os. Elogiaria Circe: bela. Beleza incomum, diria, mas não, conteve-se. Pararam os três, ali, bem no meio da onda e se viram forçados à margem. Muita afinidade. Jantariam, quem sabe. Conversariam naquela sala de mesa quadrada, cadeiras de modelos diferentes, próximas à janela. As persianas seriam levantadas, a luz que entraria. O piso de taco e a lareira que nunca fora acesa, tudo contrastaria com o abajur que Circe trouxera como lembrança da mãe. Uma casa que compramos numa praia de pouco movimento. Tranqüila. Uma amizade em comum, talvez.

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