quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

SEM DELONGAS

Gostava de casa cheia. Quando eles ainda eram crianças, juntava-os no terraço, estendia um tapete ao chão e passávamos a tarde brincando. Engraçado é que uma vizinha trazia seu sobrinho, bebezinho, e nós o colocávamos de um lado a segurar a ponta da fralda e na outra ponta quem segurava era Abgail e estava pronto o cabo-de-guerra: um puxava pra cá, o outro pra lá. E as tardes eram de risos, exceto pelo choro dos bebês quando não conseguiam puxar a fralda por completa. Era mesmo uma diversão. Marta sempre tentou manter a família unida: as refeições eram na mesa e os horários sagrados; o boletim escolar deveria ser impecável; estavam sempre cheirosos e bem apresentáveis; a família deveria ser exemplo. Uma crosta quase intransponível se formara em torno dessa família, de disciplina e aparência. Não seria a única.
Era bom estar de volta, no seio da família. Assim Miriam suspirava no primeiro dia de volta a casa onde crescera. Não estavam todos ali, ainda, mas sua fisionomia era de alívio, já se acomodara, novamente. A mãe à cabeceira da mesa, Cendira à esquerda seguida de Benoni; à direita estava Miriam seguida de sua filha, uma menina doce, Daniela. Abgail ainda não aparecera e Cimon, ninguém sabia dele. As crianças menores estavam brincando na sala de estar: o filho de Cendira e as duas filhas de Benoni, a esposa dele ainda estava por chegar.
A unidade familiar é um preceito importante na sociedade, embora que com a modernidade esta unidade tomou formas diferentes. Marta sempre apregoou esta união, mas viu-se diversas vezes incapaz de consolidá-la. Mesmo tendo ousado em muitos aspectos sociais e transgredido certas convenções que davam direitos a Idalino sobre ela, sentia que aquela era sua família e sendo como fosse, gostaria de vê-la unida. Marta levanta-se e pede um brinde, deseja celebrar a reunião familiar, ainda incompleta é verdade, mas aquele seria o primeiro passo para um novo convívio. Vamos celebrar nossa união e a lembrança do pai de vocês. Miriam crispa a testa e diz que a única coisa que tem para celebrar é estar com a mãe e os irmãos. Meu pai não valia nada, não sei por que devemos isso a ele. Segura, Marta era uma mulher segura de si, mas naquele instante seu rosto se avermelhara de tal forma que ela explodira numa ira não sabida de onde e calou Miriam com uma tapa, esbofeteou o rosto da filha para que daquela boca não saísse mais nenhuma palavra, perdera mesmo a compostura. Miriam engoliu as lágrimas e fez menção de se levantar: sente-se, daqui você não me sai! O silêncio imperou. Era como estar num sepulcro. As conversas, a partir daquele acontecido, nasciam evanescentes, praticamente já findas. E agora era como estar entre estranhos. Ou talvez estivessem tão no íntimo, uns dos outros, que começavam a se desconhecerem. Quem não tem guardado algo que não mostraria em hipótese alguma ao seu próximo? Quem não tem algo de que se envergonhe: uma fantasia, uma opinião, quem sabe? É lá no íntimo, após aquela porta que se mantém selada, que estão os espinhos e as nossas fraquezas.

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