sábado, 6 de fevereiro de 2010

SANGRAR PELO DECÁLOGO

A dor que sentia agora... Era melhor ter morrido. A vida esvaindo-se de mim. Então ele viria e me levaria em seus braços, salvando-me. Para trás, os touros vermelhos que me feriram. Por trás deles o homem que os dominava, que queria me dominar. A mulher ao seu lado, calava. Sentia uma ligação com ela, sentia-me parte dela. Pequenas folhas caíam como neve, mas rosa. Folhas de cerejeira. Tudo quente como um bafo de dragão. Eu - desfalecida - ia me apagando, sumindo e já distante, percebia, por trás daquela luz fina, uma névoa surgir. Quando se dissipou, eu estava ao chão, tocando a terra. Abri mais os olhos e era como se acordasse naquele instante, um momento de sonho. A morte de meu pai mexera comigo. Não sei mais o que fazer com o ódio que tenho guardado. As cicatrizes eram profundas. Não queria esquecê-las. E minha mãe as permitira. Idalino não estava mais no controle. Não em pessoa. Em seu lugar restava a dor. Na verdade resquícios psíquicos da dor que impusera. Agora, Abgail parecia refletir essa negatividade para a mãe: permitiu. Marta anuíra Idalino por todos os pisos. Talvez em troca de algo, não saberia. Não tinha como saber. E olhando para o passado, Abgail surpreendera-se com o contentamento de Marta: todos àqueles anos; sem voz; sem vontades; sem direitos... Abgail conhecia a mãe. Conhecia? Sondou a si mesma se deixara algo escapar. Se o rompimento daquela relação simbiótica poria um dos dois em desgraça. Enquanto o outro seguiria, indiferente. O telefone toca. Abgail mal esboça uma reação para atendê-lo. Não quer. Ele insiste. Deveria ser o fim do mundo para tanta insistência. É tarde de sábado. O tempo frio só contribui para a vontade de continuar na cama. Não. Não vou atender.
Mergulhar na cama. Inundar-se nos lençóis até sempre. Isso não trará respostas. A dúvida parece preencher a mente de Abgail. Um corte na alma! Prescindir do que nos é ensinado - a santidade da mãe e pai - o real caráter deles. Afastar dos pensamentos a mão pesada da religião: honre pai e mãe. Eles são falhos, são como nós. Mas teriam direito a fazer tudo? Teriam a supremacia de arrasar as vidas de seus filhos? E perceber essa igualdade parece doer. Corri. Com as forças que tinha, eu corri. Quando passei pelo portão, de relance olhei para trás e ela me perseguia. A menina era enorme, dava duas de mim. Provocara-me atirando minha sandália à lama. Partiu para me agredir. Apenas me defendi. Quando entrei, ela esbarrou na porta de casa. Como um cão raivoso esbaforia meu nome: Abgail, mato-lhe! Apanhei neste dia, mas de minha mãe. Culpou-me, acho, por me defender. Pensava que ela estava certa. As nuvens não são feitas de algodão. Ela teria alguma culpa, em tudo? Não apenas neste episódio, em tudo. Meu pai tem, teve. Largada na cama, pela noite, sem dormir. Que venha o domingo.

Um comentário:

  1. Depois de duas semanas difíceis (quase sem postar e sem comentar), voltamos.

    É natural o cansaço e a desconfiança ("o que eu estou fazendo?, o que é esta história?"). Mas seu romance está indo bem, só não o abandone. Lembre-se de que esta é a primeira redação. Uma vez escrito, haverá ainda vários tratamentos onde você poderá polir exageros, acrescentar coisas agora despercebidas, até acelerar a história ou brecá-la. É assim mesmo... trabalho...trabalho... trabalho...

    Para colocar os perfis dos personagens aí do lado: layout> elementos da página> adiconar um gadget> imagem, aqui é possível colocar um desenho, por exemplo, e uma legenda onde um pequeno perfil dos personagens cairia bem.

    Valeu.

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