sábado, 13 de fevereiro de 2010

PROGRESSÃO

Por um longo tempo me mantive reclusa nesta casa. Naquela época eu escrevia bastante, meus romances tomavam minha vida. Não tinha uma vida social, nem conjugal também. Para Schopenhauer ou você prioriza o individual, que seria a busca da felicidade, ou você opta pelo bem da espécie - perpetuação dela -, que seria uma vida para a procriação, alimentando o desejo de viver. É errôneo achar que tal desejo de ter filhos caminha junto, faz parte, da busca pela felicidade: ou se é feliz ou de outro modo tornamo-nos pais. Nosso casamento tem sido assim, uma busca incessante pela satisfação pessoal. Jorge nunca falou em filhos. Mas chega um tempo em que não se pode lutar contra a natureza. Passo à escrivaninha, quero pensar num tema para um novo livro, uma história, algo que se passasse numa cidade do interior, montesina. Quem sabe um romance policial... mas acho que uma história assim já fora contada, deve-se ter cuidado para não se ser acusado de plágio!
A definição, a construção do arco narrativo e assim estruturar a planta baixa, o alicerce daquilo que se vai contar: esse é o momento da escrita mais demorado para mim, é onde a dor é mais aguda. O dia arrasta-se. Lembrei-me de uma expressão que traduziria tal efeito sentido, meu pai a usava: o dia está demorando a passar, parece estar de duas gemas. Era como se tivessem dois sóis e ao término da passagem do primeiro seguisse-se outro. Para Circe a escrita era terrificante. Seria como a dor dum parto, cada livro seria um filho e as dores viriam com eles, uma compensação pelos que não tivera em carne. Talvez não devesse dar ouvidos às palavras de Schopenhauer, uma criança poderia nos unir. Como pensar nisso?
Abrir mão da arte, da liberdade e tornar-se mãe, dona-de-casa. Sentir - logo pela manhã - o calor ao preparar a comida. Depois viria o frio através da água respingada do tanque... já passara por tais momentos, não voltaria a eles. Jorge aproxima-se. Seria mais um livro? É nisso que pensava? Não, pensava se terei um filho algum dia, uma semente para esse mundo de Deus. Silêncio. O silêncio pronuncia o que as palavras parecem não saber dizer. Fechar os olhos e ir além. Juntar as mãos na face e entrar no escuro profundo, até as luzes começarem a piscar, é quando somos inundados por um rubro intenso e começam a surgir alguns padrões repetitivos... o ser humano não consegue refugiar-se no escuro de seu ser. Lá não é escuro, apenas o túnel de entrada é. E as imagens vêm, vinham, abstraídas da realidade, distorcidas.

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