segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

OBRIGAÇÕES SOCIAIS

Eu nunca quis sair do litoral. Seguir para o interior do Estado foi uma fuga, mas era preciso fechar esse círculo e, assim, retornar ao início, até mesmo como uma maneira de sanar tudo o que me acometera. Benoni era meu quarto filho. Possuidor de uma voz melodiosa e de um dom - disso tinha certeza - musical incrível. Seus dedos pareciam terem sido criados para os instrumentos de corda. Ele tinha um apreço especial pelo violão. Os acordes eram perfeitos e suas dissonâncias, fora do comum. Das vezes que estive internado, ouvira falar de uma moça que sentia os sabores dos sons... se ela alguma vez ouvisse Benoni tocar, diria ter provado o manjar dos deuses. Apto que era. Pensei promover-lhe a carreira. Dar-lhe aquele apoio próprio dos pais. Se bem que não tinha vocação pra mais nada. Trabalho braçal, com aquelas mãos, nunca e eu sabia. Dormia tarde e acordava mais tarde ainda. Vida boêmia. Espero que respeite os limites próprios. Pai, o senhor marcou a data da apresentação? Quatorze de julho, no canal treze. Estou comprando os instrumentos necessários para você montar sua banda. Ele ainda tinha dezessete anos.
É natural que os pais façam esforços pelos filhos, de modo a permitir que esses filhos tenham oportunidades. É da natureza humana. Seria uma maneira de perpetuar os genes, de comprovar que sua seiva seria superior. Marta preste atenção: a esta hora Benoni não entra. O filho possuía as chaves do portão e das grades, o que lhe permitia apenas o acesso até o terraço, mas não tinha as chaves da casa. Ela - angustiada - afastou as cadeiras e pôs um colchão de solteiro ali, alguns travesseiros e uma coberta. Pressentira o frio e não queria que Benoni se resfriasse. Com cuidado, ele adentrou os limites possíveis e aconchegou-se na cama improvisada. Alguns minutos depois, percebera o basculante abrir. Ouvindo o sussurro da mãe “Boa noite, meu filho!”, sentiu-se protegido, não demorando a adormecer. Para Marta, a noite seria longa.

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