terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

BATISMO NAS ÁGUAS

A vida recomeçara. Ao levantarem cedo, na fria manhã daquele domingo, o calor parecia vir de seus corpos. Estavam dispostos a recomeçarem e isso estava a olhos vistos. O cheiro de terra denunciava a chuva prévia. Cheiro gostoso de terra. Circe lembrou-se dos passeios matinais com sua mãe. Iria à orla caminhar com Jorge. Juntos por que a vida também recomeçava assim: corpo e alma. E precisava acreditar naquela possibilidade da reconciliação, da renovação dos votos. Não sabia se Jorge teria sido infiel. Não importava. Precisávamos nos movimentar. O corpo tende a parar, com o passar dos anos, se não nos damos às tarefas: a morte fica mais próxima; o raciocínio lento. No pouco que me lembro de minha avó, consigo constatar isso: perdida no tempo, numa contemplação em nada, apenas ver o tempo passar. Prontos que estávamos, fomos caminhar. Era como se todas as pessoas tivessem decidido pela mesma renovação de vida: unir corpo e alma. E íamos a favor daquela correnteza de pessoas, cada uma delas imersa em suas realidades que facilmente seriam conflitantes se não estivessem restringidas ao nível pessoal. De repente, recebo um impacto, vindo em sentido oposto a maré, uma mulher me pede desculpa, ela parece conhecer-nos, ao menos de vista, e ao olhá-la por uma segunda vez, também acho o mesmo. Bastante simpática, elogiou-me e como encanto parecíamos conhecermos uma à outra. O interessante é que a conversa entre nós três pareceu-me agradável. Seria a primeira vez em que teríamos uma amizade em comum, eu e Jorge. Seria algo inusitado.
As pessoas constroem barreiras sócias difíceis de transpor: não se cumprimentam como antigamente; não se ouve mais um Bom dia. Os interesses são individuais, competitivos. Não se pode confiar em ninguém. Não numa primeira vez. Acuados que estávamos fomos à margem. Precisávamos conversar: aquela era nossa nova vida e àquela necessidade de fazer o novo, sem planejar, deveria ser fluente como a vida. E a energia estava em equilíbrio, eu sentia. Acompanhava com meus olhos as pessoas que passavam indiferentes e distantes. Tudo o que conseguira em verdade observar, diria resvalar, como a brisa ao final da tarde em nossos rostos, eram indivíduos dormentes em suas vidas inacessíveis, dentro das quais não permitiriam que ninguém se aproximasse. São fantasmas de si mesmos. Eu não era mais.

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