quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

ANÍMICO

E estávamos lá. Eu não dormira aquela noite. Não mesmo! A mulher azulada na beira do mar... e inclinava o rosto para trás. Os cabelos que cobriam em parte os seios, intensificavam a sinuosidade de seu corpo. Podia falar em mais de uma, pois a cada movimento ela se fazia outra: mais intensa; exuberante... Olhar era como sentir o gosto dela na ponta da língua, doce. Por mais longe que eu estivesse, seu cheiro me encontrava, envolvendo-me, poderia ficar em transe. Os movimentos copiosos pareciam querer dar ritmo ao próprio mar, tinham uma força imanente que sobrepujava a imensidão marítima, vinda do próprio vento. Jorge levantara durante a noite, não conseguira dormir, por isso resolvera ir ver o mar. Estavam a dois dias na casa de praia: Jorge, Circe e Abgail. Não esqueceria aquela primeira impressão, lá quando vira Abgail pela na rua: olhos que prometiam sofrimento. Aquela dança duraria a noite. Circe dormiria até tarde, parecia morta, ou numa preparação para ressuscitar. Voltei para a cama. Ela não percebera minha ausência.
Uma postura - diria ser mais como um código - permitiu-me viver muitas aventuras sem maiores contratempos, ou mesmo aborrecimentos: as conquistas sempre foram em terras longínquas. E agora eu estava à beira do precipício, diria mesmo que ele estaria a me envolver. Comemos já no início da tarde: frutas. E quando estávamos os três dispersos, vi Circe na escrivaninha, próxima à janela, como nos tempos em que ainda escrevia. Parecia ser ela novamente. Pessoas sozinhas, não solitárias.

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