quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

AGONIA

Corria ao levantar-me da cama - bem cedo - para em frente à janela olhar com atenção a casa de nossos vizinhos, à direita da nossa. Nessa época, a cidade estava envolvida numa fina e incomum neblina que me permitia apenas ver ao fundo, quase sumida, a porta lateral por onde Cláudia saía. Era como se viesse ao meu encontro. Entre as duas casas, havia uma árvore que nesse tempo frio perdia todas as folhas. Minhas melhores lembranças são de Cláudia me chamando para alguma brincadeira: Jorge! Vem, Jorge, você demora muito. E assim íamos correr em volta dessa árvore, nossa árvore! Certa vez fomos ver o mar. Apesar das recomendações constantes de vovó, conseguimos aproveitar aquele dia ao máximo: nadar; correr; fazer castelos parecia coisa de criancinha, mas ela gostava. Mesmo nublado, o dia estava bonito. Ficamos, ao final da tarde, observando os raios do sol quase trespassarem as densas nuvens. As pequenas ondas vinham umas sobre as outras e nós - ali atordoados com a beleza chumbo daquela luz tardia - nos perdemos nesta contemplação. É o dia que me recordo mais.
A dor da perda deve ser a maior laceração infligida ao ser humano. Tão intensa que pode ser capaz de matar uma pessoa, de fazê-la definhar após hauri-lhe as forças. Jorge conhecerá está dor nos primeiros fios de vida. Logo no despertar interior das sensações afetuosas. Hoje Cláudia não o procurara. Ele passara a manhã e boa parte da tarde sentado, ao pé da janela. Sentira como se algo ruim estivesse prestes a acontecer. Como se tivesse perdido algo, ou por perder. Não sabia como livrar-se dessa angustia. Os avôs disseram para não ir à casa da amiga, que ela não podia sair... A noite esfriou logo de início, como um pressentimento das tristezas que surgiriam com ela. Com o avanço das horas, o silêncio fora cortado por um grito de desespero. Cláudia, aos berros, pedia para seu pai socorrer-lhe das dores que ela sentia no peito. Pedia para ele livrá-la da pressão que irradiava para a cabeça e deixava, nas têmporas - assim disseram -, suas veias em tempo de romperem-se. Cláudia era portadora de uma doença congênita cardiovascular que fora responsável por sua partida precoce. Cláudia fora minha primeira grande perda.

Um comentário:

  1. É mesmo... o primeiro amor... a gente nunca esqueça... e associadoà primeira dor já viu, né?

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