terça-feira, 26 de janeiro de 2010

ÚLTIMO

Segurou a barra da saia puxando-a, com voz ritmada olhava para ela e dizia “Mainha! ‘Cocoito’, mainha!”. Todos eram “mainha” para ele. O menino perambulava pela casa inseparável de seu velocípede. Esbarrava nas pernas da mãe e da avó o dia inteiro. Cendira metia-o num macacão quadriculado com um bolso na frente e a inscrição “Buaa”, embora não fosse criança de chorar. Era ativo. Nunca vira um menino andar tão rápido num treco desses: um rastro amarelo e vermelho, indo e vindo sem parar. Filho do primeiro casamento. Cendira não tinha relacionamentos duradouros. Não fazia idéia de qual seria o problema, se é que teria um. Casou-se nova, como a mãe. Só uma coisa livrava-a do sofrimento das desilusões, de maneira aparente ao menos: era mulher prática. Sempre pôs o raciocínio a frente dos sentimentos. O primeiro marido a deixou. Ainda grávida, viu-se sozinha e tendo que trabalhar para se manter. Apesar de ver seu pai como um homem bruto - não que o fosse com ela, especificamente, mas a maneira com que tratava a mãe: severo e controlador. Não via necessidade disso, não conseguia entender. A mãe diversas vezes se abrira com ela, que não imaginava até quando suportaria. Marta vivia de rotinas. Por que controlá-la? Que males teria feito para ele suprimir-lhe a liberdade? -, após o disquite - ainda não havia o divórcio - voltou a morar com eles. Tentou outras vezes. Por um tempo viveu sossegada com um homem trabalhador, mas só por um tempo. Era guerreira, mas a motivação parecia estar esgotada.

Lembro que Miriam dizia que Cendira era fraca: voltar à casa dos pais, depois de tudo que vivera... é humilhante! Nunca achei isso. Cendira é uma mulher marcada. Merece que acreditemos nela. Não sei qual a tensão entre as duas, mas se bem conheço Miriam, com aquela ligação, ela deve estar vindo. Abgail acabara de chegar. As vestes ainda molhadas, as impressões daquelas ruas... Após trocar-se, especulou por que a condição da irmã viera-lhe ao pensamento. Lembrava de quando as duas se pegavam: a mais velha e a mais nova. Sobrava para ela, a do meio. Essa vinda de Miriam - se é que ela vem - não vai dar em boa coisa! Como é possível cinco irmãos serem tão diferentes?

2 comentários:

  1. Tolstoi: "Todas as famílias felizes são iguais; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira."

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  2. Irmãos diferentes são mais comuns do que se imagina...Experiência própria! Conflitos familiares aproximam bastante o texto da realidade. Muito bem.
    Joyce

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