terça-feira, 12 de janeiro de 2010

TERRA AGUADA

Se ele ainda vivesse, talvez este dia nunca chegasse! Atravessar estas portas, só em pesadelos! O batente da casa ainda era o mesmo, elevado, desde a última enchente, A enchente. Acontecimento triste. Acordei durante a noite, bem no meio da noite, e o piso estava espelhado, e depois, tremeluziu. A cor mudara. A sonolência havia afetado minha percepção, até o momento em que ele me chamou: Abgail, venha, coloque a bota e me ajude a suspender os móveis. Nunca chovera tanto, desde minha lembrança mais remota. Elevamos os móveis, todos. A água estava bem próxima ao lastro da cama. O bairro - a maior parte - era abaixo do nível do mar, um facilitador para tamanha catástrofe. E depois? Depois viera a falta. Terra de extremos! Depois viera a falta d’água. Os caminhões-pipa chegavam a intervalos de três dias: Abgail vá buscar os baldes. Os dedos avermelhavam, chegavam a ficar roxos. Um balde em cada mão e viagens infindas, torturantes como um ínfimo lapso de estadia no purgatório. E depois? Bem depois. Luzes, de variadas cores, no céu, como se viessem do espaço. Algo tão belo como a própria Aurora Boreal - que eu vira, num vídeo na escola -, essa serpentina não variaria em tão belas cores. A bela imagem parecia viva, e precedida de um estrondo, muitos acreditaram ser o fim do mundo. Ele pensara nisso, cogitara tal desfecho. Mas encostou-se na varanda da casa e observou. Perguntei: é o fim do mundo, papai? Com a seriedade consoante a gravidade que o acontecimento exigia: por que o alvoroço? Não teríamos aonde ir. Não me lembro do estrondo, só das luzes. Saíra na televisão que as luzes eram resultado de uma explosão na pedreira, que uma grande quantidade de explosivos fora detonada acidentalmente. Uma pessoa vitimada. Quando lembro, as lágrimas me vêm aos olhos. Poderia chorar por qualquer pessoa que morresse. Conhecida ou não. Mas não poderia chorar pela morte de meu pai. E não chorei.
Cendira estava à sala. Ao ver-me descaiu os olhos, murchou como um girassol ao anoitecer, e chorou. Buscamos os braços uma da outra, mas as minhas lágrimas, nesse momento, saiam pela tristeza de vê-la chorar. Onde está mamãe?

2 comentários:

  1. Essa mágoa vai longe, vamos trabalhá-la.

    Valeu.

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  2. Este capítulo foi muito bem escrito. Deu para acompanhar com clareza o desenrolar da luta para conter a água que invadia a casa. Foi bem real.

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