quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

SONHO DE PASSADO

Jorge dirigiu. Conduzido pelo subconsciente, trafegou em voltas tantas que, depois de certo tempo, teve uma sensação de “déjà vu”. Não àquela impressão que - normalmente - se tem de um lugar acolhedor, a outra, a que o forçava a franzir a testa, causando-lhe uma dúvida angustiante sobre para qual lugar estaria se dirigindo, e com isso mantinha-se a circunvagar. Em intervalos, as buzinas de outros condutores despertavam-no. Verdadeiros estampidos recebiam seus ouvidos. Essa espécie de transe durou um tempo. Ele mesmo não saberia precisar. Conseguira, apenas, a percepção de algo destoante nele mesmo. Despertado, estacionou. Foi quando se surpreendeu com o destino de sua viagem interna: o mar, bem à frente. Para Jorge o casamento era o mar, e trazia a dúvida consigo desde muito, nas palavras dos mais velhos “menino, o mar não tem cabelo!”. Sentou na areia; pés descalços; calça arregaçada; a água a tocar-lhe a ponta dos dedos dos pés: não passo daqui.

O mar estava agitado. Você não me sai daqui. Está vendo estes rochedos? Preciso atravessá-los, seu avô precisa de ajuda, lá ao fim. As pedras eram cortantes, mas com agilidade, a mesma de quando nova, conseguira passar para o outro lado. Via-se uma casa de máquinas que nunca soubera de que, mas algo chamava a atenção. O olhar fixava-se nas engrenagens e elas rodavam e o perigo parecia rondar. O avô já estava a salvo. Agora só via verde, a cor esmeralda tomava o campo de visão; o ar faltava; não havia nada em que se agarrar. Lembrara dos cabelos da irmã: ela nunca escapava. Disse pra não sair de onde lhe deixei. E era eu, contava como se eu tivesse feito àquilo. Como se estivesse sumindo em mar revolto, hipnotizado pelas engrenagens que, em aparência, deixavam o perigo lá, longe. E isso me pesava.

Um comentário:

  1. Se o seu romance tiver cento e poucas páginas, 10% dele já está escrito, é o que digo: um romance é uma maratona - deve-se correr, mas nãose deve ter pressa...

    Há um livro - Sinuca embaixo d'água, de Carol Bensimon - onde é usada a técnica da 'protagonista ausente', ou seja, o livro é um mosaico, a história é contada a partir da ótica de vários narradores-personagens. Acho que seria um leitura interessante neste momento.

    Valeu.

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