domingo, 31 de janeiro de 2010

SÉQÜITO

Moveu-se diante dele, não discernira as palavras que ele pronunciara e pensou, naquele instante, que por um segundo estivera distraída. Jorge falara, como ela queria, apesar dela não saber o quê. Ele agora se mostrava pensativo. Consegui captar-lhe algumas expressões curiosas, era como se quisesse compreender algo naquela situação. Havia uma inquietude, mas não demonstrada, não explícita... eu percebia isso, quanto mais me demorava a dizer algo, sentia uma postura diferente nele, uma estranheza. Não se encontravam um frente ao outro, os olhares não se trocavam de forma direta, eram oblíquos, alternados e a conversa não se delineava. Muita coisa deixara de acontecer e eles pareciam - e não deveriam parecer assim - como se não tivessem uma meta, como se não tivessem planejado algo. Desde as palavras, sim, as palavras estavam escolhidas e agora, no mesmo ambiente, estavam perdidos. Longe um do outro por não saberem o que lhes ocorria, o que o outro pensava ou por que agia de maneira diferente. Jorge suspira. Nessa hora Circe o fita, perscruta-lhe sobre a causa daquele suspiro. Jorge silencia, de maneira tangente, fala algo sem coisa com coisa. No fim, diz que está cansado, precisa de um banho. Essa noite não fora fácil.
É verdade que os casais não precisam ter tudo em comum para que as coisas se encaixem - mesmo que isso ocorra numa percentagem irrisória, até sem representação. E esses milagres, quando ocorrem, partem de uma harmonia inerente a relação. Algo até mesmo sem lógica. Muitos dizem: nem sei por que estamos juntos. E os motivos parecem não serem suficientes, mas continuam. Jorge aproxima-se, senta-se ao lado dela. Segura aquelas mãos ainda frias do banho. Desenrola-lhe os cabelos, liberta-lhe a cintura da toalha. Sente o aroma da pele, fresca ainda e macia que era. Circe entrega-se aos braços dele, quer se entregar e já nem lembrava por que tudo aquilo, nem precisava, nem queria saber o que ocasionara aquele mal-estar entre ambos. E estavam como um, ela ao colo dele. E abraçava-a como se fosse carregar uma criança nos braços. Tudo se apagava, só eles restavam, abraçados. E parecia ser noite. O dia transcorrera assim, parado.

3 comentários:

  1. A citação do nome Cendira na 17a. linha precisa ser revista.

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  2. Revisada e ok! Confundi com cendira.

    Obrigado, Mário.

    Erick Camilo

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  3. Ai, adorei a reconciliação!
    Joyce

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