quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

SEM CONTRAPOR

Quando entrei, percebi a figura de Circe muito quieta, ao sofá. Ela estava de costas. O cabelo, ainda molhado, escapava-lhe de uma toalha azul, enrolada à cabeça. Nas costas nuas, notava-se sua tez recém-enxugada: os poros se abriam; os pêlos eriçavam... Nelas, o vinco sumia-lhe dentro de outra toalha, à cintura... Circe era mulher desejável. Não sabia. Respirava com dificuldade, como se suas narinas estivessem obstruídas. Entrei em silêncio, não pretendia ter a conversa para qual fora intimado. Não se moveu. A combinação da textura das toalhas - aveludadas - com a suavidade mármore de sua pele, o tom de sua pele, tornavam-na uma escultura, como aquelas que tantas vezes ela planejara ir vê-las em algum museu. Quando me ouviu, um movimento de constrição foi iniciado, como se contraísse o ventre, preenchendo os pulmões. Com este ato, tudo parecia ter parado. O próprio tempo, com este quase imperceptível movimento, já não transcorria. Fiquei paralisado, imóvel de olhar aquela imutabilidade. Nem a brisa, que entrava pela porta que eu deixara semi-aberta, era capaz de mover-lhe um fio sequer. Senti-me combalido. Sua constância sólida me afetou. Não imaginava que mudanças haviam sido operadas nessa mulher, nem poderia dizer ser a mesma.
É verdade que esta atitude parecia ser algo novo em Circe. E é verdade que o ser humano também é um animal que responde a estímulos, e assim - é possível pensar nestes termos -, as novas atitudes de Circe seriam uma resposta as causas que Jorge lhe impusera. Qualquer observador - desde que imparcial - poderia chegar a esta conclusão. Cabe-nos aqui perscrutar sobre um ponto: por que agora, se estavam casados a tanto? Qual teria sido o gatilho, o estopim para o desencadeamento desta transformação?
Ao instante, deu-se seguimento, o tempo recobrara sua força. Com precisão, Circe volvera o rosto para próximo de seu ombro direito, em direção a Jorge, num movimento de oposição ao seu próprio corpo. Pesava-lhe, na respiração, certa ansiedade. Não acredito que tenha algo a ver com insegurança, diria que desejo. Sim. Desejo de livrar-se daquela obrigação - e era isso que sentia - da inevitável conversa. Aqueles dizeres guardados, prontos e esperando para serem descarregados, todos, de uma única vez. Os lábios vacilavam - loucos para desobedecerem - e ela continha-os.

Seria difícil. Sem um plano de contenção seria difícil. Na maioria das vezes, quase sempre, antes de uma cena como esta, já teria mentalizado o andamento, o esboço das palavras a proferir. Só teria que adequá-las na situação, isso se surgisse algum imprevisto. Sentei-me no sofá, oposto à Circe, ainda calado e compenetrado no que diria. A deixa seria dela.
Jorge sentara. Circe a sua frente, insistia em permanecer virada para o outro lado. Por maior que fosse, o elefante estava presente, mas sem ser molestado por ninguém. Permanecia, permaneceria ali, naquele clima pesado. O ar congelável surgia nas faces mediante expirações, branco, quase palpável. O lugar mais sem vida deste mundo era, sem dúvida, esta sala.

2 comentários:

  1. "Um elefante na sala de jantar", boa sacada...

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  2. Muito bom. Clima pesado, suspense, isso é bom para a narrativa. Muito bem escrito este capítulo.

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