segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

OUTROS LUGARES

O peso do ar sobre os ombros. A força para manter-se ali, estática. A pele fria. Ela - prendendo a respiração; cerrando os lábios - apelava no íntimo para que Jorge falasse, pois a boca estava num indo de sublevação, num levante contra seu próprio ser. E falar, assim, sem controle, seria uma batalha perdida!
Chegara com Jorge um cheiro que o acompanhava nestas ocasiões, um cheiro de indiferença. Os sons, também característicos, eram leves, distantes, como se não quisesse ser ouvido. Se olhasse para ele, e nem precisava, veria uma expressão natural, tranqüila. Seu olhar poderia ver através de mim, me perpassar. Não meu íntimo, isso não! Mas como se eu não estivesse ali. Ela nunca conseguira mantê-lo num lugar, ou encerrá-lo numa conversa. Sempre escapa! “Impreciso” definiria Jorge assim, com esta palavra. Se pedisse para papai retratá-lo, o resultado seria uma mancha, sem contornos definidos. Acredito. Em qualquer quadro que fosse Jorge seria a única coisa indefinida na composição da tela: uma mancha sobre as árvores; uma mancha pescando no lago... Não parece que saiba quem Jorge seja ao certo. Mesmo juntos é como se não estivessem. Vago, distante, impreciso.

Suas expectativas eram de realmente nada acontecer. Sua espontaneidade era a estética de sua vida. Apenas aparente. Nela os pontos chegavam premeditados: o que fazer; como olhar; o que dizer, ou não dizer. O olhar desviado, como se procurasse por algo, desencontrava-se com o de Circe. A aparente imprecisão fora à custa de muita experiência. Jorge sabia desses modos. Dominava-os. Conduzia as situações sem se impor.

O desejo de chegar ao objetivo, de pensar que os fins justificariam os meios, seriam motivações necessárias a um pré-julgamento de personalidade? Poderíamos limitar um ser humano ao aspecto observável que seria a ponta do iceberg de experiências possíveis num oceano que tende a reprimi-las, mantendo-as submersas? Ao que parece, e isto tem sido claro ao longo dos tempos, a maioria acha que sim. Então Jorge fala. Diz alguma coisa que Circe não consegue discernir. Premeditado! A via de comunicação fora aberta. O plano segue. Logo ela nem lembrará por que devemos ter esta conversa.

2 comentários:

  1. Parecem dois boxeadores se estudando num ringue, depois do décimo assalto. O noucaute está próximo. Quem cairá é o dilema.

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  2. Quanta estratégia para ter uma DR!!! Tadinhos...Ou não né...

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