segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

ÓBICE À LUZ

Receosa, Cendira dirigiu-se pelo corredor nos deixando a sós. A cada dois passos, olhava-nos, um pouco desconfiada, sondando-nos como se achasse que temos algo a esconder. Mamãe silencia e, após segurar minhas mãos, aproxima-se, lentamente. Depois, ela escorrega os olhos pelo corredor, numa última constatação de que estaríamos mesmo sozinhas, para ao final, fitar-me, talvez na espera da primeira palavra. Como mostrar os limites em que me encontrava? Abgail não poderia - nem se quisesse - mostrar-se decidida. Nunca chegara a uma decisão. Nem sabia por que deveria tomar uma. Sua mãe achava que a definição era necessária, que não se poderia viver em dois mundos. Mas cabe a Abgail, somente a ela. É dificultoso até pensar nisso.
As mulheres protelam as sentenças, restringem as perguntas à curiosidade sobre o cotidiano de cada uma, dos afazeres, da loucura do tempo: de como está quente no inverno e mais quente ainda no verão. Marta percebe que o assunto - a verdadeira conversa - terminara no limiar, no nascedouro dos pensamentos, quem sabe nem fosse ainda um pensamento e aquela conversa que teriam, morrera. Sabia que esse momento iria chegar, ou que nem fosse uma conversa, mas, talvez, um desabafo, mas chegaria.
Toda a vida, Abgail procurara atender as expectativas do pai. Quando descobriu que não poderia correspondê-las - não como ele esperava, não como a natureza mandava -, ou talvez não. Fechou-se num casulo. Mais tarde, a crisálida pareceu romper-se, quando dissera que sairia de casa. Mas era um ensaio, a borboleta forçando, tentando eclodir, criando a energia necessária para um dia voar, liberta em suas cores. Esse dia ainda não chegara e o amor que sentira, transfigurou-se em mágoa, remoída até hoje. E é possível que de uma forma mais intensa agora, após a morte de Idalino. Que assim, sem possibilidade de reconciliação, as coisas se tornassem eternas. Um veredicto final fora tomado, e nem toda a sorte do mundo seria suficiente para dar-lhe uma chance de voltar atrás, de remendar os cacos - se sobraram algum - daquela relação entre filha e pai.
De novo a troca de olhares, agora como um asserto de fim de conversa. Abgail dissera que não poderia ficar, precisava retornar ao trabalho, aos estudos. Neste instante Cendira adentra a sala: Mãe, Miriam ligou. Como uma nuvem, um quadro se compunha, aos poucos, na mente de Marta, um quadro de uma única cor, que ao entornar seu frasco ao chão - dessa cor que prevalecia -, agora um matiz se mostrava, de cores cada qual com suas peculiaridades, nuanças. Assim, a paleta - que outrora fora seu ventre - recompunha-se, de maneira paulatina, realizada nas cores que tinham os nomes de seus filhos. E sabia - diferentemente das pessoas que declaravam o contrário - que não tinham equivalência, que não se tratava de uma relação qualitativa: cada amor era diferente.

2 comentários:

  1. Ah, essas duas...

    Uma sugestão: como nem sempre todos os leitores do blog começaram a acompanhá-lo do princípio, talvez fosse interessante você compor pequenos perfis dos personagens principais e colocá-los aí do lado, para rápidas consultas e associações. É óbvio, claro, lógico, certo, que você não faria isso na obra impressa, mas aqui, no espaço virtual, talvez fosse um recurso interessantes já que tantas personagens são trabalhadas. Pense nisso.

    Valeu.

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  2. Adorei essa descrição do sentimento dela comparado com as cores. Muito bom este capítulo. Como Mário falou, é uma ótima ideia você colocar ao lado os perfis das personagens. Adorei a dica.

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