segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

NORMALIDADE

Moça! Sente-se aqui, eu lhe cedo o lugar. Mal posso acreditar que encontrei um homem cavalheiro, nos dias de hoje é coisa rara!, pensei surpresa. Noutro lugar ficaria cismada, mas aqui, no metrô... realmente deve querer ajudar. A maioria pediria minhas bolsas e sacolas, permanecendo sentada. Quem sabe seja um sinal de esperança. Quase não tenho mais fé em nada, nem em meu casamento. Mas vou tentar, “lutar” como disse papai. Rapaz prestativo ajudou-me a desembarcar as malas e até travou a porta do trem, para dar tempo de descer tudo. Os passageiros ficaram irritadíssimos. Deve ter tido uma boa criação, sua mãe deveria perguntar-lhe - quando criança - “Como é que se diz?” e ele meio acabrunhado respondia, enrolando a bainha da camisa entre os dedos, “Obrigado”. É! Faz tempo que não me pego imaginando a vida de desconhecidos. Me dá vontade de escrever. Horrível é quando vejo aquelas bolas de papel... amontoadas me fazem desistir. Às vezes me apanho em autocríticas tão severas, fico quase paralisada. Problema que não me deixa voltar a trabalhar. Acho que deveria buscar ajuda profissional. Criar novas realidades era meu maior prazer. Desse jeito se matiza a vida com as cores julgadas mais pertinentes, variando a paleta de acordo com o drama. Que cores estariam dispostas na paleta dos meus dramas? Mulher casada; sem filhos; casamento em crise. Minha vida dá um romance.
Quanto deu a corrida? Vinte e três reais. A senhora teria os três trocados, ou uma nota de um? Não, não, fique com o troco, eu estou apressada. Só lhe peço o favor de colocar as malas na entrada da casa. Certo, senhora. Obrigado e tenha um bom dia! Quatro dias longe! Jorge, ajuda com as malas, estão pesadas. Jorge? Onde ele deve estar?

3 comentários:

  1. romance em primeira pessoa certo?acho que vou me tornar critíca e estudiosa de romances.....esta otimo Erick,vou ser sua seguidora,achei até parecido comigo,pois de casamento em crise eu entendo e com 3 filhos.abraço

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  2. Finalmente a voz de Circe de maneira mais longa. Quase sempre o que fica de um personagem é sua voz, sua linguagem, caprichar nisso é o que dá credibilidade à criação.

    Valeu.

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  3. Muito boa a narrativa de Dirce. Dá para notar o afobamento de uma pessoa amontoada de malas querendo chegar logo em casa para ver o marido. Cadê esse marido?? Sei não hein...hahahaha

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