sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

MOTIVOS

“Alzira” foi assim até o último instante, chamando-me pelo nome da irmã. A vira pela última vez aos... não sei ao certo, bem pequeno, criancinha.
O médico diagnosticara: esclerose. Então, foram embora as forças; as memórias; as pessoas não nos visitavam e agora nem notícias me indagavam para ter. Idalino não estava nas preces de ninguém. Se me ausentasse, mesmo por segundos, chamava-me - aos gritos - “Alzira!”. Os olhos ficavam irrequietos como se nada enxergassem, tateando no ar. Enquanto ainda andava, deslocava-se pela casa, perseguindo minha sombra. A perna esquerda era um peso, arrastada a amplo esforço. Não apenas a perna, mas o braço esquerdo também, esse, num movimento de pêndulo, expunha a falta de domínio. Seqüelas do acidente, na via férrea. Idalino fora chefe de caldeira, artífice do ferro. Viajávamos muito. A mudança de residência era constante, conseqüência das muitas usinas nas quais prestava serviço. Poderia - se desejasse - manter vínculo empregatício com qualquer delas, fincar raízes em qualquer desses lugares. Mas também havia outro motivo, que nunca confirmei para Idalino: ele apenas dizia que mudaríamos e calava-se. Nossos filhos choravam - inconsoláveis - por longas tardes e relembravam amiguinhos deixados ou as professora-andas, as mais meigas: as meninas as tinham como irmãs; os meninos se derretiam em paixões encantadas. Eu apenas recomeçava: lugares novos, hábitos antigos. Nossa união era de longa data. Casou-se comigo eu nem completara doze anos ainda. Contava aos filhos - posteriormente aos netos - que em algumas ocasiões precisei ser dura, valente, pois fui buscar o pai deles dentro da casa de algumas lambisgóias. Eu cuspindo bazófias: não estou aqui de brincadeira, cale-se senão quebro sua cara. O argumento funcionava, não havia contra-senso da parte delas.
De tantas mudanças, as crianças vieram a nascer em estados diferentes. Eu sei que ares sempre novos não faziam bem as crianças e a ausência do pai durante a semana, também. Até me afetava. Idalino acusava-me com o olhar, nunca com palavras. Não me fazia concessões: não passeava; não conversava com ninguém, durante os dias em que ele estava em casa; não opinava, nunca, em nada. E eu obedecia, na presença.

Um comentário:

  1. Quanto às citações: se para a psicologia do personagem for essencial, ou se a narrativa pede por elas, então citações podem ser usadas;
    de outra forma, serão meros penduricalhos.

    Exemplo: N'O amor é cego, um dos personagens faz em cada uma de suas aparições, praticamente, uma citação. É que o concebi assim, pedante, autossuficiente, e o próprio enredo, logo logo, precisará de um personagem com tal característica. Mas note que nenhum outro personagem tem tal hábito.

    Valeu.

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