sábado, 2 de janeiro de 2010

MORTIÇO

Jorge ainda sente-se jovem. Tenho fôlego de um meninão, desses rapazotes que vivem a correr atrás de uma bola. Nos tempos de moço corria muito, mas atrás das meninas. De mentalidade jovem, trabalha com o que gosta e segue como se fosse viver para sempre. Proprietário de uma respeitada ótica, preste a abrir uma filial. Considera-se um empresário bem sucedido, acredita estar no caminho certo. O comércio é sua vida desde muito cedo. Diziam que tinha tino pros negócios. Dizia ser o sangue português nas veias, do bisavô. Já tentou se dedicar aos estudos - teve boa educação e mostrava aptidão -. Mas, sabe de uma coisa, nada melhor do que trabalhar naquilo que é seu. Acredita que o maior erro de sua vida foi ter casado. Não devia. E agora não dá pra aproveitar nada, a mulher sempre no encalço. Tento... juro. Eu realmente tento agir como um homem casado. No íntimo ouvia uma voz dizer que não tinha nascido pra isso. Cuidava bem da saúde. Era da opinião de estar com tudo em cima. Não vou deixar que me enterrem vivo, só por estar casado. Vou viver de maneira intensa.
A esposa avisara - esta manhã - que iria à casa do pai. Devia ser uma daquelas crises de Circe. Considerava o senhor Dagoberto um ótimo sogro. Nunca se meteu no relacionamento da filha e sempre respeitou as decisões do casal. Mas a Circe é um problema, dizia e dos grandes: nunca esteve satisfeita no casamento. Não era nenhum santo, mas as traições - não usava este termo - eram bem feitas. Não dou motivos pra ela achar que não sou um bom marido. Para ele o casamento estava acabado, desgastado com tantas brigas e discussões - via o reflexo desse mesmo desencanto, que o tomara, nos olhos da esposa. O que tinha convicção de não fazer era pedir o divórcio, não. Ela vai querer metade de tudo; e o trabalho de uma vida pra construir minha ótica? Agora que é um negócio sólido, não, não posso abrir mão de nada.
Quando Circe ia à casa de seu pai, nunca ficava os dias que dissera. Bem que nem me deixou perguntar dessa vez. Serão dias, no mínimo. Hoje planejou sair, espairecer a cabeça. Soube do um show de um cantor famoso. Será esse. O projeto era arrumar uma nova conquista e esquecer-se do casamento, quem sabe por uma noite ao menos. Estar com alguém que não traga o ranço de uma vida estressada, talvez renovar as energias, dando ânimo novo para enfrentar a rotina a partir do dia seguinte.
Abriu os olhos e assustou-se ao acender a luz: uma mulher deitada sobre o peito dele, despida e com insuportável cheiro de vômito. Beijara aquela boca? Percebeu em si que o álcool não surtia mais efeito. É um daqueles encontros que devem acabar antes de se ficar sóbrio, para as lembranças parecerem boas. Levantou-se com cuidado, não era preciso acordá-la. Ela não saberia ao certo quem ele seria e não teria a decepção de descobrir não haver a mínima possibilidade de novo encontro - desde que ele esteja sóbrio -, ou ele seria flagrado acompanhado de tão desafortunada criatura, em atitude suspeita. Pagou o hotel, também de quinta. Dirigiu um pouco, até um posto de gasolina. Bebeu uma tônica, ajuda na ressaca. Não colocarei os pés na ótica hoje, estou um fiasco.
Fico pensando se algum dia eu conhecerei alguém que me faça tremer nas bases, como a Circe um dia fez. Não sei onde perdi aquela mulher.

3 comentários:

  1. nossa essa foi emocionante.....ja estou muito curiosa....

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  2. Foi tocante mesmo... mas, por outro lado, não foi Jorge exposto demais, "entregue de bandeja" ao leitor?

    Valeu.

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  3. Nossa, que mudança! Antes o cara pensou ao ver aquela figura feminina numa rua dia desses, de repente o cara teve coragem (ainda que bêbado) para trair Circe de fato! O negócio tá esquentando, mas estou com pena da pobre, lamentando na casa do pai, chorando ao ver seu casamento se dissolver. Que crueldade!!!!

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