domingo, 3 de janeiro de 2010

LIRA DO PASSADO

Ele não confiava no “profissional” que contratara para ornar a igreja. O casamento estava marcado para as vinte horas e a noiva não se atrasaria, disso tinha certeza. Pegou o carro e dirigiu-se ao local da cerimônia e ao chegar confirmou seu pressentimento: a ornamentação estava diferente. Não foi o que combinamos. Não, mas eu sei o que estou fazendo. Jorge franziu a testa e retrucou reafirmando que não foi aquilo o combinado com a noiva. Nunca, nos meus anos de trabalho, nenhuma noiva ficou insatisfeita com minhas alterações. Nesse momento Jorge tornou-se ríspido, não havia tempo para discussões, já se passavam das dezenove horas e ele ainda precisava se trocar, não iria deixar a noiva esperando no altar. Mas você não está tratando com a noiva, eu sou o noivo e estou dizendo que não gostei. Quero que você faça do jeito que pedimos. Olhe, eu sou um profissional e jamais fui tão humilhado, nunca fizeram tão pouco do meu trabalho. O noivo respirou fundo. Muito obrigado pelos serviços prestados e, por gentileza, pode se retirar. Não se preocupe, eu cuido de tudo. Vá embora, já disse. Jorge olhou o ambiente, lembrou-se - não poderia esquecer - dos por menores, frisados por Circe, cada posicionamento dos arranjos; as pétalas de rosa aos pés das colunas; as fitas no corredor da igreja; cada detalhe. O celular toca: Circe. O que você está fazendo aí? Já são dezenove e trinta. Não vás me deixar esperanto, te mato, juro!
A marcha nupcial, aos ouvidos de quem casa, é a mais bela música. Linda! Apertou-lhe as mãos. O senhor Dagoberto consentira e aprovara a escolha do genro. Homem educado. Sabia entrar e sair de qualquer ambiente. A filha estaria em boas mãos. Ouviram as palavras do Monsenhor. Jorge fez a leitura das Sagradas Escrituras - como manda o ritual. Leram os votos, as promessas que deveriam ser cumpridas durante a união. E enfim o “sim”, tão esperado. Marido e mulher. Pode beijar a noiva.
Após o término da cerimônia, os convidados se dirigiram à recepção, aos comes e bebes. A festa. O casal demorou-se um pouco para algumas fotos. Ao seguirem para a recepção veio a notícia: quase que o bolo veio à baixo. Jorge juntou os dedos entre os olhos, cerrou o outro punho. Bicha dos infernos, tenho certeza que foi ele.

2 comentários:

  1. Flashback, sempre é uma onda, sempre envolve o leitor...

    valeu.

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  2. Adorei!!! Este retorno foi muito bom. No início, logo de cara imaginei: pronto, ele contou que a traiu e casou-se com a meretriz!!! Mas, não! Era o início de tudo!! Amei

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