quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

HÍGIDOS ARES

Sentou-se sobre a cama. Os lençóis não estavam com o perfume dele, a muito nada aqui cheirava bem. Afagou os travesseiros, despedira-se desta cama já algum tempo. Não agüentava mais! Dormia no quarto ao lado. Abaixo da cama, por necessidade, ele mantinha um penico, pois não chegava ao banheiro em tempo hábil se não estivesse próximo a ele. O peso da perna e a falta de controle no braço, ambos esquerdos, dificultavam a locomoção. O odor impregnara o quarto, os móveis, o ar, aqui dentro tudo exalava urina. Mesmo agora, uma semana após sua morte, só consigo entrar com um lenço encharcado de perfume. A bíblia pousada sobre uma prateleira era a consulta mais freqüente. A sandália, ao pé da cama, que ele arrastara pelos cômodos da casa, era como um sinal de seu retorno, como se ele não morrera, tivera apenas ido visitar um parente distante. E isso me dava calafrios. A sensação de liberdade, mesmo com a idade, trazia leveza ao espírito, ao corpo também. Não desejava sua morte, mas não podia negar que ela trouxera uma perspectiva nova, de sossego. Cendira adentra o quarto, avisa da irmã: Abgail veio ver a senhora. A meia luz só permitira enxergar a silhueta da mãe. Supôs que ela estivesse chorando: mesmo não dividindo a cama, era uma vida em comum. Ao sair, aparentava melancólica, o cabelo um pouco desgrenhado, vestes caseiras, simples que estava. Sempre fora mulher vaidosa e mostrando-se assim, pensavam: ela sofre. Abgail acomodou-se na sala, não sabia qual seria a reação da mãe por ela não ter vindo ao enterro, ainda mais, ter dito que não viria. Mas a mãe sempre a acolhera, em todas as decisões. Ao se olharem, mãe e filha sabiam o que se passava uma com a outra. Eram as únicas pessoas da família que, no íntimo, guardavam um sentimento de rebelião contra Idalino, a diferença é que Abgail externou suas queixas. A distância foi mantida como um diálogo. As duas mulheres, em aparência, eram resultados opostos da incursão dele. Tomara suas vidas e as separara. Sem lágrima, abraçaram-se. Cendira deixe-nos a sós.

3 comentários:

  1. Gostei da ambientação na primeira parte; a tensão entre Abgail e a mãe foi real, há mais a tirar daí...

    Valeu.

    ResponderExcluir
  2. Muito boa a descrição do ambiente: o quarto fétido com odor de urina. Pior que consegui imaginar o aroma...Este capítulo deixou um gostinho de quero mais.

    ResponderExcluir