quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

FILHO PRÓDIGO

Após aquela noite, que papai fora me buscar no cabaré, lá no meio das quengas, depois da surra que ele me dera, juntei minhas coisas no silêncio da madrugada e parti. Não sabia para onde, mas sábia que devia ir. Fora necessário uma semana para me recuperar direito. Imagine: uma semana entre a vida e a morte. Digo isso não por ter ficado hospitalizado, mas por que até as raízes do cabelo me doíam, os ossos me doíam. Camarada, aqui pra nós, para os ossos doerem... foi daquelas que o sujeito que a leva nem morre nem fica vivo, ao término, fica arfando.
Cimon fora em direção ao extremo norte. Ouvira dizer que trabalho para aquelas bandas não faltava. Serviço duro, mas o sujeito tinha como se manter. Papai sempre dizia que onde tem trabalho se vive. Agora ele estava por conta própria e isso começava a ficar claro. O dinheiro pareceu contado. Só dera para custear a passagem e a alimentação. Seis dias de viagem, minhas pernas já estavam entrevadas. A sorte parecia estar mudando: ao chegar ao destino, ouviu alguns homens comentarem que uma fazenda estava contratando. Os homens informaram-lhe o local onde o recrutamento estava sendo feito. Ao chegar lá, Cimon nem quisera ouvir as condições, deu logo o nome para a lista. Aqueles que estão dispostos a começar o trabalho o quanto antes, tem um pau-de-arara saindo em dez minutos! Começar o quanto antes seria garantia de sustento. O caminhão saiu lotado de homens com uma única afinidade: conseguir sobreviver.
Mesmo tendo nascido numa família de classe média, poderia considerar-se rico. Idalino nunca deixara faltar nada. Agora arrancaria da terra o sustento com as próprias mãos. De finas que eram quase não suportaram os primeiros dias. Ia agora aprender a escrever com enxada, facão, machado... e o aprendizado se firmaria nos calos das mãos. Trabalhou a primeira semana, mais uma e outra sem receber um centavo. As jornadas eram de quinze horas, no mínimo. A alimentação era como a lavagem dos porcos. A surra do pai era um carinho agora. Fim de um dia de trabalho: homens armados mandavam que os trabalhadores se organizassem em fila. E seguiam em direção ao alojamento sob a mira, sem direitos, apenas o de morrer agora, pois o de nascer já havia sido usado. Barracos de folhas de compensado, colchões ao chão e o medo constante era a última coisa de que se lembrava antes de dormir, quando conseguia.

2 comentários:

  1. Aqui começa a surgir a pergunta: O que Jorge e Circe tem a ver com tudo isso?

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  2. Erick, cuidado para não andar, andar e não chegar a algum lugar específico. As histórias não estão entrelaçadas. Porém, este capítulo me pareceu melhor que o anterior.
    Joyce

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