sábado, 23 de janeiro de 2010

ESCUTE

“Pare. Olhe. Escute” o museu do trem - que eu uma vez visitara - trazia esta inscrição à entrada. Uma alusão aos cuidados que se devem ter na travessia de uma linha férrea. Escute.

Não suportaria mudar mais. Nem tenho saúde para isso, estou cansado. Não ligo se os males se repetirem, não mais.
O café era preparado cedo, ainda sobre o céu escuro: cuscuz; leite; ovos; pães e manteiga... comia pausado, mastigava bem. Era um momento importante. Fizera dele um ritual. Sentado à mesa, antes de todos, sozinho, Marta apenas lhe servia, ausente.
E a rotina, enfim, chegara. Dirigia-se ao trabalho - o mesmo; no mesmo lugar; todos os dias -, fora alocado numa fábrica de peças automotivas, pertencente ao grupo de empresas das quais faziam parte as usinas em que prestara serviço por tanto tempo. Idalino saia cedo. Os ombros encurvados, o olhar no caminho... Fazia sua caminhada compenetrado em si, abstraído do mundo.

Marta tinha seus segredos, Idalino sabia. Coisas que mexiam com a cabeça dele. Depois que a família voltou para o litoral, Marta se convertera ao protestantismo. Crente! Disse que a vontade viera em casa mesmo, ao preparar-se para ir a um culto. No espelho de seu quarto, viu seu reflexo retorcido. A imagem tornou-se repugnante: vestia uma calça pantalona, blusa de mangas curtas... De repente, apossou-se de uma tesoura e cortou uma após outra. Apenas vestidos e saias agora! Depois falou de um sonho que tivera: as calças manchadas de sangue, as blusas de mangas curtas mofadas... Era um aviso de Deus, só poderia! Ir a igreja era compromisso, o único local que Idalino permitia que ela visitasse sem sua companhia. Uma saída! E eram assim, algumas noites e certas tardes da semana: ir à igreja.
Parecia real, tudo aquilo, olhá-la naquelas vestes, como nunca a vira: o cabelo preso, os vestidos longos. Tranqüilidade?

Sempre, em suas manhãs, caminhava absorto como um cego em sua própria casa, já não precisava tatear: as ruas estariam ali, as mesmas esquinas, o viaduto antigo no qual se via o metrô por baixo, o novo mercado público, o largo da igreja católica... passou por esse trajeto tantas vezes e mesmo assim não saberia descrever nenhum detalhe. Distante em pensamentos. Lembrara, depois, de duas placas sobrepostas, como um “x”: “cruzamento” e “via férrea”. Eu sei que olhara, sei! Antes de cruzar a linha, olhei para os dois lados, mas não escutei. Uma coisa salvou minha vida, na verdade um paradoxo: a locomotiva diesel-elétrica, fabricada pela English Eletric da Inglaterra - pesquisara muitas possibilidades para aquele milagre. A locomotiva é revestida com chapas de quatro milímetros, o que lhe dá certa aerodinâmica, e este contorno - ao que parece - teria sido crucial para apenas me arremessar a aproximados vinte e cinco metros. Devo salientar que o choque não fora frontal, outro ponto ao meu favor. Não havia sons, nenhum. Não escutara nada. Não havia plataforma, nem porteiras que avisassem do trem. Não havia ninguém: eu e o caminho, por todos aqueles dias, até aquele momento. Segundos depois, fui segurado pelos baços: ainda estava caído nos trilhos. Não estava só!

2 comentários:

  1. Embora esse vai-e-vem no tempo cronológico e psicológico dos personagens seja perigoso, é também bastante interessante... vamos lá!

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  2. Olha só,como já havia dito em um dos comentários, não sou expert em literatura, mas como leitora eu vejo que sua obra está com altos e baixos. Não é uma coisa que afete muito a construção, mas às vezes você corta as asas da nossa imaginação leitora, quando a gente pensa que vai dar ser um aclive acentuado vem o fim da linha. Não faça essa crueldade conosco.

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