domingo, 17 de janeiro de 2010

DESREGRAMENTO

Antes de retornarmos, como dissera que iria fazer - eu, Marta e as crianças -, cometi um excesso. Havia montado uma mercearia, uma atividade para Marta e um encaminhamento na responsabilidade para Cimon - meu primogênito -, prestes a completar dezessete anos. Após a semana de trabalho, retorno e o que encontro? Um desfalque na mercearia, tanto em mercadorias como em dinheiro! Um pai de família sai para o trabalho em plena segunda-feira, ainda de madrugada, passa os dias naquele calor infernal das caldeiras, deixa a mulher e o filho mais velho, ambos cuidando dos negócios em casa e para quê? Diga-me você, para quê? Para quê um vagabundo pegue os maços de dinheiro no caixa e torre num prostíbulo? Por que foi isso o que aconteceu. Quando cheguei do trabalho e fui conferir o livro-caixa: nada bateu; as prateleiras quase vazias; e a mulher: mil e uma desculpas. Onde ele está, diga que eu vou buscá-lo? Bem, essas palavras foram num momento de cólera, raiva tamanha que descobri onde ele estava: estava mesmo num prostíbulo, ao final da rua, já um pouco afastado dos limites do bairro. Ele no meio das quengas, pagando bebida pra qualquer um, desfazendo-se dos frutos do meu trabalho. Cimon! Levante-se e passe direto para casa. Não abra o bico. Pai “vamo” tomar uma, aqui pai ó, com as meninas. Segurei-me nesta hora. Primeiro: cristão devoto que sou não poderia me demorar mais em meio àqueles restolhos de gente; segundo: mesmo sendo um lugar sem respeito, não teria o direito de fazer confusão ali. Na saída, enquanto endireitava os passos desse filho irresponsável, ele sugeriu que voltássemos e “quem sabe a gente se diverte um pouco com as meninas”. Meu excesso começou aí.
Na manhã seguinte acordei cedo, como de costume, para fazer a feira semanal de horti-fruti-granjeiros. Fui ao quarto de Cimon, bati na porta, estava entreaberta, a cama não fora nem desforrada. Nunca mais o vira, desde então.

Um comentário:

  1. À medida que o romance avança, as vozes, as situações e as psicologias vão ficando mais nítidas. Há quem diga que na primeira leitura de um romance não devemos abandoná-lo antes da vigésima página, senão fica difícil voltar a ele, pois não teríamos entrado na história. O mesmo serve para a construção do romance. Sendo assim, o momento crítico, o momento da desistência, está passando. Força, rapaz!

    Valeu.

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