quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

COMPASSO

Pedi que o táxi parasse. A chuva cedera um pouco. Desci do carro, armei a sombrinha e me coloquei a andar. Tinha o costume de vagar nessas imediações: casarões velhos, paredes sujas, até mesmos alguns edifícios antigos - de no máximo dois andares - encontrávamos por ali, poucos que ainda restavam de pé. Os edifícios antigos se mesclavam com as construções irregulares - barracos de tijolos, cobertos por telhas de amianto -, as paredes salpicadas de cimento maltratavam os desavisados. Era um mundo que evocava uma harmonia diferente, não premeditada. Não gostava das coisas preconcebidas e isso influenciava na visão futura, da carreira que escolhera: designer. Estas caminhadas ajudavam. O que não ocorrera com a conversa que tivera com a mãe. Não aliviara minha tensão.
A morte de Idalino deixara um vazio. Abgail parecia suprir esta ausência e a desorganização familiar com os estudos, com o trabalho para se manter. A procura de uma harmonia no caos dos becos e vielas era como uma representação da busca pela harmonia na sua própria vida: serviria de justificativa, que mesmo no seio daquela família dissipada, iria levá-la a entender e aceitar sua história como igual à de tantas outras famílias. A felicidade não era a regra, mas sim a exceção.
Caminhou. Desnorteou-se, um pouco à frente, depois de passar por dúzias de ruas, ora pequenas, bem pequenas, e estreitas. Ora labirínticas e irreconhecíveis, mesmo que tivesse passado por elas outras vezes. Num certo ponto, parou. Um homem a olhava, aparado por um guarda-chuva de hastes empenadas. Sempre vejo você por aqui, está procurando algum parente? Negou de aceno. Ela procurava ordem naquela desordem. Ordem que daria sentido aos seus descaminhos.
Abgail continuou. Seguira até um ponto externo, uma das vias principais que contornavam a localidade. Sentou-se numa parada de ônibus. Juntou as sobrancelhas e, observando uma das entradas do bairro pobre, alongou a vista como se estivesse hipnotizada. Das telhas formavam-se cortinas, à frente dos barracos, de “cordas” d’água. Pequenas luzes vermelhas adornavam a estreita rua de acesso. Um emaranhado de fios - de energia; cordões; linhas - formavam uma teia sobre a rua. Á direita da entrada via-se um daqueles edifícios: dois andares; paredes amarelas. Um limo, já engrossado pelo tempo, encobrira a maior parte das paredes deixando-as com aspecto de velhas, abandonadas. Pela fresta de uma das janelas - do térreo -, era possível ver a quina de uma geladeira, e acima dela encontrava-se uma caixa de bebida alcoólica. A chuva engrossava. Ao volver os olhos para a rua, fixou-os numa figura que percorria a viela. Os ombros contraídos, os lábios trêmulos, eram sinal de frio. Enquanto andava, dejetos eram arrastados à sua margem, pelas águas. Aquilo não era nada. Normal seria um sistema de esgotos, seria? Daqui, agora, todas as entradas pareciam iguais. Se olhasse em todas veria as luzes, os fios, as telhas, o sangue dos arranhões nos ombros. Não ouvia choro, nunca ouvira choro por ali.

2 comentários:

  1. Não tenho certeza, mas esses momentos em que você acompanha os personagens - como fizera há pouco com Jorge - é uma das forças da narrativa.

    Valeu.

    ResponderExcluir
  2. Senti um impacto ao imaginar esse lugar que ela percorrera. Mas, "caixa de bebida alcoólica" foi um tanto suavizador. Sugestão: "e acima dela encontrava-se uma caixa de bebida barata". Espero que goste!

    ResponderExcluir