sábado, 9 de janeiro de 2010

COMEDIDA FRIALDADE

A manhã fora fria. Desde ontem não prego o olho. Não sei dormir sozinha, não consigo. Os pés fazem falta: ele os junta aos meus; de vez em quando roça o dedão na planta do meu pé, sinto cócegas, é verdade, mas sem isso não durmo. A coxa pesa sobre minha anca. Ele agarra-me por trás, o braço passa pela cintura e a mão vai encher-se do meu seio, completa, em movimentos de contração como um bebê a segurar o seio da mãe, adormecendo. Quando queria provocar, sabia como fazer: resvalava, lentamente, o ombro naquele queixo - a barba por fazer - e as nádegas em movimentos circulares. Ele sabia. Agora só dormíamos, acostumados que estávamos com a proximidade de nossos corpos. Desde a noite de núpcias Jorge nunca dormira fora de casa. Na noite passada, depois de entrar e perceber a casa vazia, quis ficar sozinha, por isso não telefonei. Pensava em como ter uma conversa decisiva, uma conversa que esclarecesse o que está se passando entre nós. Não podemos continuar dessa forma - talvez não consiga sem ele. Será que colocarei os pensamentos em ordem, só em algumas horas sozinha? Venho protelando esta conversa a um bom tempo. Sinto-me, apesar de tudo, tranqüila. Acredito que ele me ame e não vá me deixar, assim, sem mais nem menos. Sei que nosso casamento está frio, mas nos separarmos... é demais.
Ligou-me cedo. Pensara que eu acabara de chegar. Quando lhe falei que precisávamos conversar, agiu naturalmente como se o tom da minha voz não denunciasse a importância da conversa. Preciso conter-me. Estes dias, na casa de papai, permitiram que refletisse. Importo-me com meu casamento e papai me aconselhara bastante. Lute, se isso importa. Mas só isso importa?

7 comentários:

  1. Ela ainda ama ele?essa é uma pergunta que muitos fazem a si mesmos todos os dias.

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  2. Erick, essa construção me dixou um pouco de dúvida: "Agora só dormíamos acostumados que estávamos com a proximidade de nossos corpos."

    Até agora, Jorge tem um comportamento plausível; as mulheres não gostam de "bons meninos"? Sinto um vácuo que beira Jorge e a protagonista, pois ela não procuraria o pai sem mais nem menos, mas ele... pobre. O que fez? Será que ele é gay?
    Seguindo a leitura (...). Ta legal, Erick.

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  3. Coloquei uma vírgula, após o dormíamos, fica melhor, eu acho.

    Erick Camilo

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  4. A voz de Circe é sempre interessante, eu apenas repensaria a palavra "anca".

    Valeu.

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  5. Vou repensá-la na revisão (a palavra "anca"), Mário. Procurar uma palavra que seja, talvez, mais suave, de maneira a combinar mais com a voz de Circ

    Erick Camilo

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  6. Eu adoro a voz de Circe. É delicada como a personagem e sutil.

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  7. Eu adorei, é como se estivessemos vivendo a personagem na história, me sentir a tal rsss.

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