sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

CÂNTICOS DE CHORO

Rua tranqüila. Estava caminhando em direção a si mesma. Crescera aqui. Lugar de contrastes. Era onde se sentia melhor, mas as tristezas que passara com a perda de entes queridos - a mãe, principalmente -, embrulhavam-lhe o estomago. Mesmo assim, a alegria surgiu em sua face, logo que avistou o sobrado. Vieram boas lembranças, aqui elas também foram geradas e tornavam-se como remendos em sua alma de farrapos, puída das durezas que vivera na cidade grande. Andar por esse pavimento... via suas brincadeiras, as correrias. Fora menina ativa. O pai, cuidadoso que era, ficava a observar, ao longe, com ares de proteção. Só nunca conseguiu protegê-la da saudade da mãe. Eis um dos motivos de ir morar em outra cidade. Não que esta saudade fosse algo de ruim. O problema surgia na consternação profunda que este sentimento provocara nela, beirando a depressão. Circe, ao ver seu pai à porta, chora. Um misto de emoção por reencontrá-lo e descarga das dores que acumulava. Meu sol! E o rosto dele respondia ficando radiante. Não chore, você está aqui, então? Mate a saudade. Após um longo abraço, entraram. A sala continuava a mesma, a diferença estava nas paredes, revestimento de cerâmica. Aliás, na casa por completa. As madeiras do sótão também eram novas. Lá mantinha uma vida à parte, de fantasia. O seu quarto continua do mesmo jeito. É seu se precisar e pelo tempo que quiser. Instalou-se e por um tempo manteve-se isolada. O isolamento fez recrudescer a crise. Repensou, incessante, as angustias, num inventário que a ajudasse na valorização das coisas que seriam mais importantes. Foi assim seu primeiro dia. Enclausurada, chorando as dores. O pai entendeu. Circe precisava externar seus fantasmas. No tempo certo ela o procuraria.
O senhor Dagoberto era viúvo. Circe, sua única filha, era a pessoa mais amada por ele. Cogitou vender o sobrado por diversas vezes. Refazer a vida, casar novamente, poderiam ser planos razoáveis. Mas hesitou, ainda hesita. Gastava o tempo entre as pinturas e o cuidar do sobrado. Tinha o segundo como uma memória viva das alegrias que teve, como uma extensão de seu casamento com Calina. A pintura preenchia a maior parte do tempo. Começou o ofício tarde, logo que se aposentou. Era funcionário da prefeitura da cidade e grande parte desses anos de trabalho foi prestada na Secretaria de Direitos Humanos, como assessor. Desse trabalho colheu muitas amizades. A solidariedade une as pessoas. Aposentara-se por idade a quatro anos, mas nuca se exonerando de estender a mão a quem precisasse.
Ao terceiro dia, após o jantar - que ela não comera - chamou o pai, para conversar. O que tanto te aflige? A complacência no olhar do pai fez com que chorasse mais. As lágrimas ajudam a nos livrarmos das dores. Aconchegou-se nos braços dele. Frágil, em busca de socorro - lugar certo para encontrar. O pai aconselhou-a. Era preciso lutar pelo casamento. Não se perde anos de convivência, assim, como quem joga lixo fora, sem preocupação. Mas para Jorge é com isso que se parece o nosso casamento: lixo.

Um comentário:

  1. O narrador domina toda a ação, coloca as palavras na boca dos personagens, conhecemos estes através do narrador - e só. Narrar é andar em corda bamba.

    Valeu.

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