sábado, 16 de janeiro de 2010

ANTE-SALA

Discutiremos a relação. Ele me contrariará. A isso, seguirá um silêncio. Ele passará a mão pelo rosto num movimento que se encerrará no queixo, comprimindo-o. Os olhos fechados, não contraídos; as sobrancelhas elevadas; as extremidades da boca decaídas; tudo harmonizará com outro movimento, no qual ele penderá a cabeça em minha direção e completará, assim, um gesto de condescendência. E encerrará a discussão. Dirá “tubo bem”, que eu estou certa. Sentará no sofá - que ele escolhera - e ligará para a ótica, perguntará a Teresa - a líder de vendas - sobre o andamento das coisas, ela o deixará a par de tudo. Irá até a cozinha. Servir-se-á do feijão tropeiro, cozinhado por ele próprio no dia anterior, a única comida que faz na minha ausência. Encherá sua caneca, que ele comprara na OktoberFest, de Coca-cola, pois não gosta de bebidas alcoólicas em casa. Sentará à mesa, sem minha companhia. Costuma comer sozinho quando discutimos. Ao término, levantará e lavará toda a louça, que ele mesmo sujara durante minha viagem. Acreditará que esse gesto me confortará de alguma maneira. Chamará a mim- talvez - para guardar a louça. Se não, fará isso ele mesmo mediante choque entre panelas e, quem sabe, alguma louça quebrada. Entrará no chuveiro e tomará um banho de mais de meia hora. Deitará na cama, no lado esquerdo por que acha que o colchão cedeu no direito. Eu me deitarei. Ele ficará de costas para mim. Ficarei calada. Perguntará se não daremos um beijo de boa noite. Tocaremos levemente os lábios. E dormiremos, sem que nada tenha mudado.

2 comentários:

  1. Cara, tinha que falar do detergente Ypê, daquele monte de espuma produzido por uma gotinha viscosa... mas foi bom acompanhar, com uma lupa, a condescendência do casal.

    Valeu.

    ResponderExcluir
  2. Poxa, foi bem a coisa típica que acontece com casais que brigam. Aquele ar de complacência e de ternura que há muito não se via. Gostei bastante deste capítulo.

    ResponderExcluir