domingo, 10 de janeiro de 2010

ÂMAGO

Preferia a época em que viajava. Sei que os problemas tomavam feições novas, mas, em essência, eram os mesmos. É! Eles só mudam de R.G., se repetem. A princípio, percorremos o Estado, mudamos de cidade três vezes, em direção ao interior, a trabalho, fugindo das repetições. O Estado parecia... era como um lugar amaldiçoado. Por Deus, eu sempre fui um homem religioso e os votos de meu casamento são o que tenho de mais sagrado! Por isso mudar, conhecer pessoas novas. Rostos desconhecidos são como portas que nunca foram abertas, cheios de possibilidades. Mudar dava-me a chance de recomeçar, mas ali, até onde chegara, e sempre em direção ao oeste, ao centro do país, encontrara apenas mais daquilo que me acometera moral e espiritualmente. Era como se meu espírito estivesse assaltado por uma languidez crônica, tornando-o mais fraco do que eu acreditara ser, do que eu encobrira por décadas, mudando, mudando e recomeçando de novo, de novo e de novo. Os anos vinham como os filhos: um atrás do outro. Já eram três. E seguia: precisamos ir para algum lugar sagrado, voltarmos às origens. Via que precisava livrar-me dessa máscara, posta por mim e reforçada pelos outros. E fomos para terras novas: um Estado ao sul, o seguinte na divisa, na seqüência litorânea. E Marta veria sua família. Essa volta às raízes poderia reestruturá-la. Banhar-se nas águas de seus ancestrais. Reviver rituais antigos seja quais forem: desde uma simples reunião familiar a um sarau, ou uma conversa ao pé da cama, com um dos mais velhos.
Veio mais uma criança. Forte, assim diziam. A mais parecida comigo, ao menos em personalidade. Abgail crescera muito próxima a mim. Interessava-se por tudo que eu fizesse. A minha dureza não a afastou, por um tempo.
E a vida não estava como eu queria: precisamos mudar. Deslocamo-nos de mala e cuia, para o norte. Já que o estado ao sul estava carregado com as mesmas infâmias, iremos para o norte, ao próximo estado.
Como profissional o meu nome era reconhecido. “Artífice do ferro” Marta dizia. Trabalho não me faltava. Estabelecemo-nos. Então nascera nossa quinta criança, a quem batizamos de Cendira, sugestão de uma vizinha. Nunca fui chegado à vizinhança, levam aos maus costumes, o que sempre se repetia. Mesmo com o espírito fraco, me sentido fraco por dentro, tinha seis razões para seguir sem desistência, de acordo com meus preceitos religiosos, não importava o que achassem: coração de pedra; bruto. O que eu queria é que estivessem resguardados, de tudo. E eles eram: Cimon; Miriam; Abgail; Benoni; Cendira e Marta. A qualquer lugar que eu fosse, eles estariam comigo.
Por fim, voltei ao litoral de onde saíra: eu, Marta e nossa primeira criança. Enfrentar os fantasmas parecia melhor que criar outros. E minha saúde já não era a mesma.

3 comentários:

  1. Erick, somente agora comecei a ler o romance, ainda não li todo, o Mário sabe que sinto certa dificuldade em acompanhar as postagens diárias, mas vou me atualizar. No primeiro momento sinto que o romance agrada, a escrita é enxuta e flui com desembaraço.

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  2. A pergunta é: Quando as narrativas se encontrarem ainda haverá ações, desdobramentos?

    Neste caso, compor uma "Última Parte" é uma saída legal. Pois o leitor percebe a fragmentação até o encontro e a coesão após ele.

    Mas essa é uma opinião que somente com o livro montado seria realmente pertinente.

    Valeu.

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  3. Erick, não sou especialista em literatura, mas como leitora posso fazer um comentário: estou sentindo uma certa dificuldade em identificar, logo nos inícios dos capítulos, quem é que está falando. É a voz de qual personagem agora? Sempre fico me perguntando.
    Seria interessante demarcar com mais clareza.

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