terça-feira, 5 de janeiro de 2010

AIS DA INFELIZ

Acordo e me pergunto onde devo estar. As costas me doem, acho que dormi neste tapete. O corpo cheio de marcas. Devo ter me coçado pouco durante a noite, felpudo o tapete. De quem deve ser o apartamento? Não é da minha última conquista, é muito sofisticado e tem um “quê” de quem gosta de arte. Procuro meu sapato, aliás, minha roupa. Como cheguei aqui? Rezo pra não ter sido carregado por nenhuma coroa metida, enfiada numa cinta-liga até o pescoço e levado - em coma alcoólico - ao seu antro de predição, onde ela papa os anjinhos loucos pra botarem a mão no dinheiro dela, e usufruírem de um apartamento decorado por alguém que ela nem lembra o nome. Merda! Cadê o sapato? A sala estava arrumada demais para alguém ter feito sexo. Eu acho que não fiz. Que porre! Merda, cadê meu sapato? Essa deve ser tarada, tem a escultura de um pênis na mesinha da sala. Onde eu me enfiei!? Ei, estante legal, tem o estilo de Circe: muitos livros; réplicas de esculturas gregas; borboletas empalhadas. Circe adora colecionar borboletas, acho que mariposas também. Que se dane, vou embora, que merda de sapato! Sair evitará outra decepção, e duas em menos de uma semana... ninguém merece. Chamo o elevador, ele demora muito. O problema é minha cabeça, está do tamanho do mundo. Vomitar, não. Dou um sorriso forte - contrair a musculatura do pescoço ajuda, aprende-se alguma coisa nas noites de bebedeira. Desço as escadas. A chave do carro está no bolso, mas onde está o carro? Só me falta perder o juízo. Não me lembro de conversar com nenhuma mulher; nem de dirigir; muito menos onde estacionei, se estacionei. Ativo o alarme, para minha sorte o carro estava na garagem do prédio. Sigo pra casa. Quantos dias, Circe ficará com o pai? Estou cansado de comer fora. Ligo pra casa, pra verificar se ela chegou, hoje já é domingo, cinco dias... Alô, Circe, chegou agora pela manhã? Chegou ontem, mas por que não me ligou, não teria ficado até tarde na ótica, dormi no sofá, estou todo quebrado. Daqui a pouco eu chego. O quê? Quer conversar comigo? Certo, assim que eu chegar em casa, falamos. Desligo o telefone. É agora que suspiro: lá vem bronca!

2 comentários:

  1. Bem verossímil a voz de Jorge, um pouco mais nítida que a de Circe. A troca de discurso também ficou bacana, envolvente.

    Valeu.

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  2. Menino, estais botando pra quebrar com a pobre da Dirce. Que cafageste! O texto em si está ficando mais bem elaborado! Gostei muito da hora em que ele lembra de Circe, apesar de a ter traído né...

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