domingo, 31 de janeiro de 2010

SÉQÜITO

Moveu-se diante dele, não discernira as palavras que ele pronunciara e pensou, naquele instante, que por um segundo estivera distraída. Jorge falara, como ela queria, apesar dela não saber o quê. Ele agora se mostrava pensativo. Consegui captar-lhe algumas expressões curiosas, era como se quisesse compreender algo naquela situação. Havia uma inquietude, mas não demonstrada, não explícita... eu percebia isso, quanto mais me demorava a dizer algo, sentia uma postura diferente nele, uma estranheza. Não se encontravam um frente ao outro, os olhares não se trocavam de forma direta, eram oblíquos, alternados e a conversa não se delineava. Muita coisa deixara de acontecer e eles pareciam - e não deveriam parecer assim - como se não tivessem uma meta, como se não tivessem planejado algo. Desde as palavras, sim, as palavras estavam escolhidas e agora, no mesmo ambiente, estavam perdidos. Longe um do outro por não saberem o que lhes ocorria, o que o outro pensava ou por que agia de maneira diferente. Jorge suspira. Nessa hora Circe o fita, perscruta-lhe sobre a causa daquele suspiro. Jorge silencia, de maneira tangente, fala algo sem coisa com coisa. No fim, diz que está cansado, precisa de um banho. Essa noite não fora fácil.
É verdade que os casais não precisam ter tudo em comum para que as coisas se encaixem - mesmo que isso ocorra numa percentagem irrisória, até sem representação. E esses milagres, quando ocorrem, partem de uma harmonia inerente a relação. Algo até mesmo sem lógica. Muitos dizem: nem sei por que estamos juntos. E os motivos parecem não serem suficientes, mas continuam. Jorge aproxima-se, senta-se ao lado dela. Segura aquelas mãos ainda frias do banho. Desenrola-lhe os cabelos, liberta-lhe a cintura da toalha. Sente o aroma da pele, fresca ainda e macia que era. Circe entrega-se aos braços dele, quer se entregar e já nem lembrava por que tudo aquilo, nem precisava, nem queria saber o que ocasionara aquele mal-estar entre ambos. E estavam como um, ela ao colo dele. E abraçava-a como se fosse carregar uma criança nos braços. Tudo se apagava, só eles restavam, abraçados. E parecia ser noite. O dia transcorrera assim, parado.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

FILHO PRÓDIGO

Após aquela noite, que papai fora me buscar no cabaré, lá no meio das quengas, depois da surra que ele me dera, juntei minhas coisas no silêncio da madrugada e parti. Não sabia para onde, mas sábia que devia ir. Fora necessário uma semana para me recuperar direito. Imagine: uma semana entre a vida e a morte. Digo isso não por ter ficado hospitalizado, mas por que até as raízes do cabelo me doíam, os ossos me doíam. Camarada, aqui pra nós, para os ossos doerem... foi daquelas que o sujeito que a leva nem morre nem fica vivo, ao término, fica arfando.
Cimon fora em direção ao extremo norte. Ouvira dizer que trabalho para aquelas bandas não faltava. Serviço duro, mas o sujeito tinha como se manter. Papai sempre dizia que onde tem trabalho se vive. Agora ele estava por conta própria e isso começava a ficar claro. O dinheiro pareceu contado. Só dera para custear a passagem e a alimentação. Seis dias de viagem, minhas pernas já estavam entrevadas. A sorte parecia estar mudando: ao chegar ao destino, ouviu alguns homens comentarem que uma fazenda estava contratando. Os homens informaram-lhe o local onde o recrutamento estava sendo feito. Ao chegar lá, Cimon nem quisera ouvir as condições, deu logo o nome para a lista. Aqueles que estão dispostos a começar o trabalho o quanto antes, tem um pau-de-arara saindo em dez minutos! Começar o quanto antes seria garantia de sustento. O caminhão saiu lotado de homens com uma única afinidade: conseguir sobreviver.
Mesmo tendo nascido numa família de classe média, poderia considerar-se rico. Idalino nunca deixara faltar nada. Agora arrancaria da terra o sustento com as próprias mãos. De finas que eram quase não suportaram os primeiros dias. Ia agora aprender a escrever com enxada, facão, machado... e o aprendizado se firmaria nos calos das mãos. Trabalhou a primeira semana, mais uma e outra sem receber um centavo. As jornadas eram de quinze horas, no mínimo. A alimentação era como a lavagem dos porcos. A surra do pai era um carinho agora. Fim de um dia de trabalho: homens armados mandavam que os trabalhadores se organizassem em fila. E seguiam em direção ao alojamento sob a mira, sem direitos, apenas o de morrer agora, pois o de nascer já havia sido usado. Barracos de folhas de compensado, colchões ao chão e o medo constante era a última coisa de que se lembrava antes de dormir, quando conseguia.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

ÚLTIMO

Segurou a barra da saia puxando-a, com voz ritmada olhava para ela e dizia “Mainha! ‘Cocoito’, mainha!”. Todos eram “mainha” para ele. O menino perambulava pela casa inseparável de seu velocípede. Esbarrava nas pernas da mãe e da avó o dia inteiro. Cendira metia-o num macacão quadriculado com um bolso na frente e a inscrição “Buaa”, embora não fosse criança de chorar. Era ativo. Nunca vira um menino andar tão rápido num treco desses: um rastro amarelo e vermelho, indo e vindo sem parar. Filho do primeiro casamento. Cendira não tinha relacionamentos duradouros. Não fazia idéia de qual seria o problema, se é que teria um. Casou-se nova, como a mãe. Só uma coisa livrava-a do sofrimento das desilusões, de maneira aparente ao menos: era mulher prática. Sempre pôs o raciocínio a frente dos sentimentos. O primeiro marido a deixou. Ainda grávida, viu-se sozinha e tendo que trabalhar para se manter. Apesar de ver seu pai como um homem bruto - não que o fosse com ela, especificamente, mas a maneira com que tratava a mãe: severo e controlador. Não via necessidade disso, não conseguia entender. A mãe diversas vezes se abrira com ela, que não imaginava até quando suportaria. Marta vivia de rotinas. Por que controlá-la? Que males teria feito para ele suprimir-lhe a liberdade? -, após o disquite - ainda não havia o divórcio - voltou a morar com eles. Tentou outras vezes. Por um tempo viveu sossegada com um homem trabalhador, mas só por um tempo. Era guerreira, mas a motivação parecia estar esgotada.

Lembro que Miriam dizia que Cendira era fraca: voltar à casa dos pais, depois de tudo que vivera... é humilhante! Nunca achei isso. Cendira é uma mulher marcada. Merece que acreditemos nela. Não sei qual a tensão entre as duas, mas se bem conheço Miriam, com aquela ligação, ela deve estar vindo. Abgail acabara de chegar. As vestes ainda molhadas, as impressões daquelas ruas... Após trocar-se, especulou por que a condição da irmã viera-lhe ao pensamento. Lembrava de quando as duas se pegavam: a mais velha e a mais nova. Sobrava para ela, a do meio. Essa vinda de Miriam - se é que ela vem - não vai dar em boa coisa! Como é possível cinco irmãos serem tão diferentes?

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

OUTROS LUGARES

O peso do ar sobre os ombros. A força para manter-se ali, estática. A pele fria. Ela - prendendo a respiração; cerrando os lábios - apelava no íntimo para que Jorge falasse, pois a boca estava num indo de sublevação, num levante contra seu próprio ser. E falar, assim, sem controle, seria uma batalha perdida!
Chegara com Jorge um cheiro que o acompanhava nestas ocasiões, um cheiro de indiferença. Os sons, também característicos, eram leves, distantes, como se não quisesse ser ouvido. Se olhasse para ele, e nem precisava, veria uma expressão natural, tranqüila. Seu olhar poderia ver através de mim, me perpassar. Não meu íntimo, isso não! Mas como se eu não estivesse ali. Ela nunca conseguira mantê-lo num lugar, ou encerrá-lo numa conversa. Sempre escapa! “Impreciso” definiria Jorge assim, com esta palavra. Se pedisse para papai retratá-lo, o resultado seria uma mancha, sem contornos definidos. Acredito. Em qualquer quadro que fosse Jorge seria a única coisa indefinida na composição da tela: uma mancha sobre as árvores; uma mancha pescando no lago... Não parece que saiba quem Jorge seja ao certo. Mesmo juntos é como se não estivessem. Vago, distante, impreciso.

Suas expectativas eram de realmente nada acontecer. Sua espontaneidade era a estética de sua vida. Apenas aparente. Nela os pontos chegavam premeditados: o que fazer; como olhar; o que dizer, ou não dizer. O olhar desviado, como se procurasse por algo, desencontrava-se com o de Circe. A aparente imprecisão fora à custa de muita experiência. Jorge sabia desses modos. Dominava-os. Conduzia as situações sem se impor.

O desejo de chegar ao objetivo, de pensar que os fins justificariam os meios, seriam motivações necessárias a um pré-julgamento de personalidade? Poderíamos limitar um ser humano ao aspecto observável que seria a ponta do iceberg de experiências possíveis num oceano que tende a reprimi-las, mantendo-as submersas? Ao que parece, e isto tem sido claro ao longo dos tempos, a maioria acha que sim. Então Jorge fala. Diz alguma coisa que Circe não consegue discernir. Premeditado! A via de comunicação fora aberta. O plano segue. Logo ela nem lembrará por que devemos ter esta conversa.

sábado, 23 de janeiro de 2010

ESCUTE

“Pare. Olhe. Escute” o museu do trem - que eu uma vez visitara - trazia esta inscrição à entrada. Uma alusão aos cuidados que se devem ter na travessia de uma linha férrea. Escute.

Não suportaria mudar mais. Nem tenho saúde para isso, estou cansado. Não ligo se os males se repetirem, não mais.
O café era preparado cedo, ainda sobre o céu escuro: cuscuz; leite; ovos; pães e manteiga... comia pausado, mastigava bem. Era um momento importante. Fizera dele um ritual. Sentado à mesa, antes de todos, sozinho, Marta apenas lhe servia, ausente.
E a rotina, enfim, chegara. Dirigia-se ao trabalho - o mesmo; no mesmo lugar; todos os dias -, fora alocado numa fábrica de peças automotivas, pertencente ao grupo de empresas das quais faziam parte as usinas em que prestara serviço por tanto tempo. Idalino saia cedo. Os ombros encurvados, o olhar no caminho... Fazia sua caminhada compenetrado em si, abstraído do mundo.

Marta tinha seus segredos, Idalino sabia. Coisas que mexiam com a cabeça dele. Depois que a família voltou para o litoral, Marta se convertera ao protestantismo. Crente! Disse que a vontade viera em casa mesmo, ao preparar-se para ir a um culto. No espelho de seu quarto, viu seu reflexo retorcido. A imagem tornou-se repugnante: vestia uma calça pantalona, blusa de mangas curtas... De repente, apossou-se de uma tesoura e cortou uma após outra. Apenas vestidos e saias agora! Depois falou de um sonho que tivera: as calças manchadas de sangue, as blusas de mangas curtas mofadas... Era um aviso de Deus, só poderia! Ir a igreja era compromisso, o único local que Idalino permitia que ela visitasse sem sua companhia. Uma saída! E eram assim, algumas noites e certas tardes da semana: ir à igreja.
Parecia real, tudo aquilo, olhá-la naquelas vestes, como nunca a vira: o cabelo preso, os vestidos longos. Tranqüilidade?

Sempre, em suas manhãs, caminhava absorto como um cego em sua própria casa, já não precisava tatear: as ruas estariam ali, as mesmas esquinas, o viaduto antigo no qual se via o metrô por baixo, o novo mercado público, o largo da igreja católica... passou por esse trajeto tantas vezes e mesmo assim não saberia descrever nenhum detalhe. Distante em pensamentos. Lembrara, depois, de duas placas sobrepostas, como um “x”: “cruzamento” e “via férrea”. Eu sei que olhara, sei! Antes de cruzar a linha, olhei para os dois lados, mas não escutei. Uma coisa salvou minha vida, na verdade um paradoxo: a locomotiva diesel-elétrica, fabricada pela English Eletric da Inglaterra - pesquisara muitas possibilidades para aquele milagre. A locomotiva é revestida com chapas de quatro milímetros, o que lhe dá certa aerodinâmica, e este contorno - ao que parece - teria sido crucial para apenas me arremessar a aproximados vinte e cinco metros. Devo salientar que o choque não fora frontal, outro ponto ao meu favor. Não havia sons, nenhum. Não escutara nada. Não havia plataforma, nem porteiras que avisassem do trem. Não havia ninguém: eu e o caminho, por todos aqueles dias, até aquele momento. Segundos depois, fui segurado pelos baços: ainda estava caído nos trilhos. Não estava só!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

SEM CONTRAPOR

Quando entrei, percebi a figura de Circe muito quieta, ao sofá. Ela estava de costas. O cabelo, ainda molhado, escapava-lhe de uma toalha azul, enrolada à cabeça. Nas costas nuas, notava-se sua tez recém-enxugada: os poros se abriam; os pêlos eriçavam... Nelas, o vinco sumia-lhe dentro de outra toalha, à cintura... Circe era mulher desejável. Não sabia. Respirava com dificuldade, como se suas narinas estivessem obstruídas. Entrei em silêncio, não pretendia ter a conversa para qual fora intimado. Não se moveu. A combinação da textura das toalhas - aveludadas - com a suavidade mármore de sua pele, o tom de sua pele, tornavam-na uma escultura, como aquelas que tantas vezes ela planejara ir vê-las em algum museu. Quando me ouviu, um movimento de constrição foi iniciado, como se contraísse o ventre, preenchendo os pulmões. Com este ato, tudo parecia ter parado. O próprio tempo, com este quase imperceptível movimento, já não transcorria. Fiquei paralisado, imóvel de olhar aquela imutabilidade. Nem a brisa, que entrava pela porta que eu deixara semi-aberta, era capaz de mover-lhe um fio sequer. Senti-me combalido. Sua constância sólida me afetou. Não imaginava que mudanças haviam sido operadas nessa mulher, nem poderia dizer ser a mesma.
É verdade que esta atitude parecia ser algo novo em Circe. E é verdade que o ser humano também é um animal que responde a estímulos, e assim - é possível pensar nestes termos -, as novas atitudes de Circe seriam uma resposta as causas que Jorge lhe impusera. Qualquer observador - desde que imparcial - poderia chegar a esta conclusão. Cabe-nos aqui perscrutar sobre um ponto: por que agora, se estavam casados a tanto? Qual teria sido o gatilho, o estopim para o desencadeamento desta transformação?
Ao instante, deu-se seguimento, o tempo recobrara sua força. Com precisão, Circe volvera o rosto para próximo de seu ombro direito, em direção a Jorge, num movimento de oposição ao seu próprio corpo. Pesava-lhe, na respiração, certa ansiedade. Não acredito que tenha algo a ver com insegurança, diria que desejo. Sim. Desejo de livrar-se daquela obrigação - e era isso que sentia - da inevitável conversa. Aqueles dizeres guardados, prontos e esperando para serem descarregados, todos, de uma única vez. Os lábios vacilavam - loucos para desobedecerem - e ela continha-os.

Seria difícil. Sem um plano de contenção seria difícil. Na maioria das vezes, quase sempre, antes de uma cena como esta, já teria mentalizado o andamento, o esboço das palavras a proferir. Só teria que adequá-las na situação, isso se surgisse algum imprevisto. Sentei-me no sofá, oposto à Circe, ainda calado e compenetrado no que diria. A deixa seria dela.
Jorge sentara. Circe a sua frente, insistia em permanecer virada para o outro lado. Por maior que fosse, o elefante estava presente, mas sem ser molestado por ninguém. Permanecia, permaneceria ali, naquele clima pesado. O ar congelável surgia nas faces mediante expirações, branco, quase palpável. O lugar mais sem vida deste mundo era, sem dúvida, esta sala.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

COMPASSO

Pedi que o táxi parasse. A chuva cedera um pouco. Desci do carro, armei a sombrinha e me coloquei a andar. Tinha o costume de vagar nessas imediações: casarões velhos, paredes sujas, até mesmos alguns edifícios antigos - de no máximo dois andares - encontrávamos por ali, poucos que ainda restavam de pé. Os edifícios antigos se mesclavam com as construções irregulares - barracos de tijolos, cobertos por telhas de amianto -, as paredes salpicadas de cimento maltratavam os desavisados. Era um mundo que evocava uma harmonia diferente, não premeditada. Não gostava das coisas preconcebidas e isso influenciava na visão futura, da carreira que escolhera: designer. Estas caminhadas ajudavam. O que não ocorrera com a conversa que tivera com a mãe. Não aliviara minha tensão.
A morte de Idalino deixara um vazio. Abgail parecia suprir esta ausência e a desorganização familiar com os estudos, com o trabalho para se manter. A procura de uma harmonia no caos dos becos e vielas era como uma representação da busca pela harmonia na sua própria vida: serviria de justificativa, que mesmo no seio daquela família dissipada, iria levá-la a entender e aceitar sua história como igual à de tantas outras famílias. A felicidade não era a regra, mas sim a exceção.
Caminhou. Desnorteou-se, um pouco à frente, depois de passar por dúzias de ruas, ora pequenas, bem pequenas, e estreitas. Ora labirínticas e irreconhecíveis, mesmo que tivesse passado por elas outras vezes. Num certo ponto, parou. Um homem a olhava, aparado por um guarda-chuva de hastes empenadas. Sempre vejo você por aqui, está procurando algum parente? Negou de aceno. Ela procurava ordem naquela desordem. Ordem que daria sentido aos seus descaminhos.
Abgail continuou. Seguira até um ponto externo, uma das vias principais que contornavam a localidade. Sentou-se numa parada de ônibus. Juntou as sobrancelhas e, observando uma das entradas do bairro pobre, alongou a vista como se estivesse hipnotizada. Das telhas formavam-se cortinas, à frente dos barracos, de “cordas” d’água. Pequenas luzes vermelhas adornavam a estreita rua de acesso. Um emaranhado de fios - de energia; cordões; linhas - formavam uma teia sobre a rua. Á direita da entrada via-se um daqueles edifícios: dois andares; paredes amarelas. Um limo, já engrossado pelo tempo, encobrira a maior parte das paredes deixando-as com aspecto de velhas, abandonadas. Pela fresta de uma das janelas - do térreo -, era possível ver a quina de uma geladeira, e acima dela encontrava-se uma caixa de bebida alcoólica. A chuva engrossava. Ao volver os olhos para a rua, fixou-os numa figura que percorria a viela. Os ombros contraídos, os lábios trêmulos, eram sinal de frio. Enquanto andava, dejetos eram arrastados à sua margem, pelas águas. Aquilo não era nada. Normal seria um sistema de esgotos, seria? Daqui, agora, todas as entradas pareciam iguais. Se olhasse em todas veria as luzes, os fios, as telhas, o sangue dos arranhões nos ombros. Não ouvia choro, nunca ouvira choro por ali.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

ÓBICE À LUZ

Receosa, Cendira dirigiu-se pelo corredor nos deixando a sós. A cada dois passos, olhava-nos, um pouco desconfiada, sondando-nos como se achasse que temos algo a esconder. Mamãe silencia e, após segurar minhas mãos, aproxima-se, lentamente. Depois, ela escorrega os olhos pelo corredor, numa última constatação de que estaríamos mesmo sozinhas, para ao final, fitar-me, talvez na espera da primeira palavra. Como mostrar os limites em que me encontrava? Abgail não poderia - nem se quisesse - mostrar-se decidida. Nunca chegara a uma decisão. Nem sabia por que deveria tomar uma. Sua mãe achava que a definição era necessária, que não se poderia viver em dois mundos. Mas cabe a Abgail, somente a ela. É dificultoso até pensar nisso.
As mulheres protelam as sentenças, restringem as perguntas à curiosidade sobre o cotidiano de cada uma, dos afazeres, da loucura do tempo: de como está quente no inverno e mais quente ainda no verão. Marta percebe que o assunto - a verdadeira conversa - terminara no limiar, no nascedouro dos pensamentos, quem sabe nem fosse ainda um pensamento e aquela conversa que teriam, morrera. Sabia que esse momento iria chegar, ou que nem fosse uma conversa, mas, talvez, um desabafo, mas chegaria.
Toda a vida, Abgail procurara atender as expectativas do pai. Quando descobriu que não poderia correspondê-las - não como ele esperava, não como a natureza mandava -, ou talvez não. Fechou-se num casulo. Mais tarde, a crisálida pareceu romper-se, quando dissera que sairia de casa. Mas era um ensaio, a borboleta forçando, tentando eclodir, criando a energia necessária para um dia voar, liberta em suas cores. Esse dia ainda não chegara e o amor que sentira, transfigurou-se em mágoa, remoída até hoje. E é possível que de uma forma mais intensa agora, após a morte de Idalino. Que assim, sem possibilidade de reconciliação, as coisas se tornassem eternas. Um veredicto final fora tomado, e nem toda a sorte do mundo seria suficiente para dar-lhe uma chance de voltar atrás, de remendar os cacos - se sobraram algum - daquela relação entre filha e pai.
De novo a troca de olhares, agora como um asserto de fim de conversa. Abgail dissera que não poderia ficar, precisava retornar ao trabalho, aos estudos. Neste instante Cendira adentra a sala: Mãe, Miriam ligou. Como uma nuvem, um quadro se compunha, aos poucos, na mente de Marta, um quadro de uma única cor, que ao entornar seu frasco ao chão - dessa cor que prevalecia -, agora um matiz se mostrava, de cores cada qual com suas peculiaridades, nuanças. Assim, a paleta - que outrora fora seu ventre - recompunha-se, de maneira paulatina, realizada nas cores que tinham os nomes de seus filhos. E sabia - diferentemente das pessoas que declaravam o contrário - que não tinham equivalência, que não se tratava de uma relação qualitativa: cada amor era diferente.

domingo, 17 de janeiro de 2010

DESREGRAMENTO

Antes de retornarmos, como dissera que iria fazer - eu, Marta e as crianças -, cometi um excesso. Havia montado uma mercearia, uma atividade para Marta e um encaminhamento na responsabilidade para Cimon - meu primogênito -, prestes a completar dezessete anos. Após a semana de trabalho, retorno e o que encontro? Um desfalque na mercearia, tanto em mercadorias como em dinheiro! Um pai de família sai para o trabalho em plena segunda-feira, ainda de madrugada, passa os dias naquele calor infernal das caldeiras, deixa a mulher e o filho mais velho, ambos cuidando dos negócios em casa e para quê? Diga-me você, para quê? Para quê um vagabundo pegue os maços de dinheiro no caixa e torre num prostíbulo? Por que foi isso o que aconteceu. Quando cheguei do trabalho e fui conferir o livro-caixa: nada bateu; as prateleiras quase vazias; e a mulher: mil e uma desculpas. Onde ele está, diga que eu vou buscá-lo? Bem, essas palavras foram num momento de cólera, raiva tamanha que descobri onde ele estava: estava mesmo num prostíbulo, ao final da rua, já um pouco afastado dos limites do bairro. Ele no meio das quengas, pagando bebida pra qualquer um, desfazendo-se dos frutos do meu trabalho. Cimon! Levante-se e passe direto para casa. Não abra o bico. Pai “vamo” tomar uma, aqui pai ó, com as meninas. Segurei-me nesta hora. Primeiro: cristão devoto que sou não poderia me demorar mais em meio àqueles restolhos de gente; segundo: mesmo sendo um lugar sem respeito, não teria o direito de fazer confusão ali. Na saída, enquanto endireitava os passos desse filho irresponsável, ele sugeriu que voltássemos e “quem sabe a gente se diverte um pouco com as meninas”. Meu excesso começou aí.
Na manhã seguinte acordei cedo, como de costume, para fazer a feira semanal de horti-fruti-granjeiros. Fui ao quarto de Cimon, bati na porta, estava entreaberta, a cama não fora nem desforrada. Nunca mais o vira, desde então.

sábado, 16 de janeiro de 2010

ANTE-SALA

Discutiremos a relação. Ele me contrariará. A isso, seguirá um silêncio. Ele passará a mão pelo rosto num movimento que se encerrará no queixo, comprimindo-o. Os olhos fechados, não contraídos; as sobrancelhas elevadas; as extremidades da boca decaídas; tudo harmonizará com outro movimento, no qual ele penderá a cabeça em minha direção e completará, assim, um gesto de condescendência. E encerrará a discussão. Dirá “tubo bem”, que eu estou certa. Sentará no sofá - que ele escolhera - e ligará para a ótica, perguntará a Teresa - a líder de vendas - sobre o andamento das coisas, ela o deixará a par de tudo. Irá até a cozinha. Servir-se-á do feijão tropeiro, cozinhado por ele próprio no dia anterior, a única comida que faz na minha ausência. Encherá sua caneca, que ele comprara na OktoberFest, de Coca-cola, pois não gosta de bebidas alcoólicas em casa. Sentará à mesa, sem minha companhia. Costuma comer sozinho quando discutimos. Ao término, levantará e lavará toda a louça, que ele mesmo sujara durante minha viagem. Acreditará que esse gesto me confortará de alguma maneira. Chamará a mim- talvez - para guardar a louça. Se não, fará isso ele mesmo mediante choque entre panelas e, quem sabe, alguma louça quebrada. Entrará no chuveiro e tomará um banho de mais de meia hora. Deitará na cama, no lado esquerdo por que acha que o colchão cedeu no direito. Eu me deitarei. Ele ficará de costas para mim. Ficarei calada. Perguntará se não daremos um beijo de boa noite. Tocaremos levemente os lábios. E dormiremos, sem que nada tenha mudado.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

HÍGIDOS ARES

Sentou-se sobre a cama. Os lençóis não estavam com o perfume dele, a muito nada aqui cheirava bem. Afagou os travesseiros, despedira-se desta cama já algum tempo. Não agüentava mais! Dormia no quarto ao lado. Abaixo da cama, por necessidade, ele mantinha um penico, pois não chegava ao banheiro em tempo hábil se não estivesse próximo a ele. O peso da perna e a falta de controle no braço, ambos esquerdos, dificultavam a locomoção. O odor impregnara o quarto, os móveis, o ar, aqui dentro tudo exalava urina. Mesmo agora, uma semana após sua morte, só consigo entrar com um lenço encharcado de perfume. A bíblia pousada sobre uma prateleira era a consulta mais freqüente. A sandália, ao pé da cama, que ele arrastara pelos cômodos da casa, era como um sinal de seu retorno, como se ele não morrera, tivera apenas ido visitar um parente distante. E isso me dava calafrios. A sensação de liberdade, mesmo com a idade, trazia leveza ao espírito, ao corpo também. Não desejava sua morte, mas não podia negar que ela trouxera uma perspectiva nova, de sossego. Cendira adentra o quarto, avisa da irmã: Abgail veio ver a senhora. A meia luz só permitira enxergar a silhueta da mãe. Supôs que ela estivesse chorando: mesmo não dividindo a cama, era uma vida em comum. Ao sair, aparentava melancólica, o cabelo um pouco desgrenhado, vestes caseiras, simples que estava. Sempre fora mulher vaidosa e mostrando-se assim, pensavam: ela sofre. Abgail acomodou-se na sala, não sabia qual seria a reação da mãe por ela não ter vindo ao enterro, ainda mais, ter dito que não viria. Mas a mãe sempre a acolhera, em todas as decisões. Ao se olharem, mãe e filha sabiam o que se passava uma com a outra. Eram as únicas pessoas da família que, no íntimo, guardavam um sentimento de rebelião contra Idalino, a diferença é que Abgail externou suas queixas. A distância foi mantida como um diálogo. As duas mulheres, em aparência, eram resultados opostos da incursão dele. Tomara suas vidas e as separara. Sem lágrima, abraçaram-se. Cendira deixe-nos a sós.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

TESTEMUNHO

E se quando eu chegar ela estiver chorando? Pôs as mãos nos bolsos ao descer do carro. Estacionara devagar, evitando o alarde da chegada. Indagou-se, uma vez mais, sobre como deveria agir em tal situação. Sabia como Circe era de prantos, de lágrimas muitas, sempre o comovera daí esta prolongação na vida conjugal, apesar de - e era convicto disto - saber que nunca cederia à separação, motivado pelo dinheiro. Acreditava que seria lesado, que seu esforço na estruturação da ótica lhe daria o direito pleno sobre ela. Não a dividiria! Estes pensamentos voltaram a sua cabeça. Sonhava com o dia que Circe imploraria pela separação, rejeitando qualquer percentagem no negócio, frente ao orgulho de voltar a ser uma mulher auto-suficiente, ela acreditava nisso e ele sabia. Poderia usar, bastaria prolongar o casamento até ele exaurir-se, até não restar nada. Mas o que ela pensaria de mim, naquele momento, na consumação de minha astúcia? De certo ela compreenderia, teria a claridade no pensamento do que eu fizera. Seria deslealdade minha, salvaguardar o fruto de meu trabalho? Amor houvera. Nem lembro mais - às vezes. Nunca pensei que fosse eterno. O amor, para mim, sempre fora uma coisa a se buscar.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

TERRA AGUADA

Se ele ainda vivesse, talvez este dia nunca chegasse! Atravessar estas portas, só em pesadelos! O batente da casa ainda era o mesmo, elevado, desde a última enchente, A enchente. Acontecimento triste. Acordei durante a noite, bem no meio da noite, e o piso estava espelhado, e depois, tremeluziu. A cor mudara. A sonolência havia afetado minha percepção, até o momento em que ele me chamou: Abgail, venha, coloque a bota e me ajude a suspender os móveis. Nunca chovera tanto, desde minha lembrança mais remota. Elevamos os móveis, todos. A água estava bem próxima ao lastro da cama. O bairro - a maior parte - era abaixo do nível do mar, um facilitador para tamanha catástrofe. E depois? Depois viera a falta. Terra de extremos! Depois viera a falta d’água. Os caminhões-pipa chegavam a intervalos de três dias: Abgail vá buscar os baldes. Os dedos avermelhavam, chegavam a ficar roxos. Um balde em cada mão e viagens infindas, torturantes como um ínfimo lapso de estadia no purgatório. E depois? Bem depois. Luzes, de variadas cores, no céu, como se viessem do espaço. Algo tão belo como a própria Aurora Boreal - que eu vira, num vídeo na escola -, essa serpentina não variaria em tão belas cores. A bela imagem parecia viva, e precedida de um estrondo, muitos acreditaram ser o fim do mundo. Ele pensara nisso, cogitara tal desfecho. Mas encostou-se na varanda da casa e observou. Perguntei: é o fim do mundo, papai? Com a seriedade consoante a gravidade que o acontecimento exigia: por que o alvoroço? Não teríamos aonde ir. Não me lembro do estrondo, só das luzes. Saíra na televisão que as luzes eram resultado de uma explosão na pedreira, que uma grande quantidade de explosivos fora detonada acidentalmente. Uma pessoa vitimada. Quando lembro, as lágrimas me vêm aos olhos. Poderia chorar por qualquer pessoa que morresse. Conhecida ou não. Mas não poderia chorar pela morte de meu pai. E não chorei.
Cendira estava à sala. Ao ver-me descaiu os olhos, murchou como um girassol ao anoitecer, e chorou. Buscamos os braços uma da outra, mas as minhas lágrimas, nesse momento, saiam pela tristeza de vê-la chorar. Onde está mamãe?

domingo, 10 de janeiro de 2010

ÂMAGO

Preferia a época em que viajava. Sei que os problemas tomavam feições novas, mas, em essência, eram os mesmos. É! Eles só mudam de R.G., se repetem. A princípio, percorremos o Estado, mudamos de cidade três vezes, em direção ao interior, a trabalho, fugindo das repetições. O Estado parecia... era como um lugar amaldiçoado. Por Deus, eu sempre fui um homem religioso e os votos de meu casamento são o que tenho de mais sagrado! Por isso mudar, conhecer pessoas novas. Rostos desconhecidos são como portas que nunca foram abertas, cheios de possibilidades. Mudar dava-me a chance de recomeçar, mas ali, até onde chegara, e sempre em direção ao oeste, ao centro do país, encontrara apenas mais daquilo que me acometera moral e espiritualmente. Era como se meu espírito estivesse assaltado por uma languidez crônica, tornando-o mais fraco do que eu acreditara ser, do que eu encobrira por décadas, mudando, mudando e recomeçando de novo, de novo e de novo. Os anos vinham como os filhos: um atrás do outro. Já eram três. E seguia: precisamos ir para algum lugar sagrado, voltarmos às origens. Via que precisava livrar-me dessa máscara, posta por mim e reforçada pelos outros. E fomos para terras novas: um Estado ao sul, o seguinte na divisa, na seqüência litorânea. E Marta veria sua família. Essa volta às raízes poderia reestruturá-la. Banhar-se nas águas de seus ancestrais. Reviver rituais antigos seja quais forem: desde uma simples reunião familiar a um sarau, ou uma conversa ao pé da cama, com um dos mais velhos.
Veio mais uma criança. Forte, assim diziam. A mais parecida comigo, ao menos em personalidade. Abgail crescera muito próxima a mim. Interessava-se por tudo que eu fizesse. A minha dureza não a afastou, por um tempo.
E a vida não estava como eu queria: precisamos mudar. Deslocamo-nos de mala e cuia, para o norte. Já que o estado ao sul estava carregado com as mesmas infâmias, iremos para o norte, ao próximo estado.
Como profissional o meu nome era reconhecido. “Artífice do ferro” Marta dizia. Trabalho não me faltava. Estabelecemo-nos. Então nascera nossa quinta criança, a quem batizamos de Cendira, sugestão de uma vizinha. Nunca fui chegado à vizinhança, levam aos maus costumes, o que sempre se repetia. Mesmo com o espírito fraco, me sentido fraco por dentro, tinha seis razões para seguir sem desistência, de acordo com meus preceitos religiosos, não importava o que achassem: coração de pedra; bruto. O que eu queria é que estivessem resguardados, de tudo. E eles eram: Cimon; Miriam; Abgail; Benoni; Cendira e Marta. A qualquer lugar que eu fosse, eles estariam comigo.
Por fim, voltei ao litoral de onde saíra: eu, Marta e nossa primeira criança. Enfrentar os fantasmas parecia melhor que criar outros. E minha saúde já não era a mesma.

sábado, 9 de janeiro de 2010

COMEDIDA FRIALDADE

A manhã fora fria. Desde ontem não prego o olho. Não sei dormir sozinha, não consigo. Os pés fazem falta: ele os junta aos meus; de vez em quando roça o dedão na planta do meu pé, sinto cócegas, é verdade, mas sem isso não durmo. A coxa pesa sobre minha anca. Ele agarra-me por trás, o braço passa pela cintura e a mão vai encher-se do meu seio, completa, em movimentos de contração como um bebê a segurar o seio da mãe, adormecendo. Quando queria provocar, sabia como fazer: resvalava, lentamente, o ombro naquele queixo - a barba por fazer - e as nádegas em movimentos circulares. Ele sabia. Agora só dormíamos, acostumados que estávamos com a proximidade de nossos corpos. Desde a noite de núpcias Jorge nunca dormira fora de casa. Na noite passada, depois de entrar e perceber a casa vazia, quis ficar sozinha, por isso não telefonei. Pensava em como ter uma conversa decisiva, uma conversa que esclarecesse o que está se passando entre nós. Não podemos continuar dessa forma - talvez não consiga sem ele. Será que colocarei os pensamentos em ordem, só em algumas horas sozinha? Venho protelando esta conversa a um bom tempo. Sinto-me, apesar de tudo, tranqüila. Acredito que ele me ame e não vá me deixar, assim, sem mais nem menos. Sei que nosso casamento está frio, mas nos separarmos... é demais.
Ligou-me cedo. Pensara que eu acabara de chegar. Quando lhe falei que precisávamos conversar, agiu naturalmente como se o tom da minha voz não denunciasse a importância da conversa. Preciso conter-me. Estes dias, na casa de papai, permitiram que refletisse. Importo-me com meu casamento e papai me aconselhara bastante. Lute, se isso importa. Mas só isso importa?

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

MOTIVOS

“Alzira” foi assim até o último instante, chamando-me pelo nome da irmã. A vira pela última vez aos... não sei ao certo, bem pequeno, criancinha.
O médico diagnosticara: esclerose. Então, foram embora as forças; as memórias; as pessoas não nos visitavam e agora nem notícias me indagavam para ter. Idalino não estava nas preces de ninguém. Se me ausentasse, mesmo por segundos, chamava-me - aos gritos - “Alzira!”. Os olhos ficavam irrequietos como se nada enxergassem, tateando no ar. Enquanto ainda andava, deslocava-se pela casa, perseguindo minha sombra. A perna esquerda era um peso, arrastada a amplo esforço. Não apenas a perna, mas o braço esquerdo também, esse, num movimento de pêndulo, expunha a falta de domínio. Seqüelas do acidente, na via férrea. Idalino fora chefe de caldeira, artífice do ferro. Viajávamos muito. A mudança de residência era constante, conseqüência das muitas usinas nas quais prestava serviço. Poderia - se desejasse - manter vínculo empregatício com qualquer delas, fincar raízes em qualquer desses lugares. Mas também havia outro motivo, que nunca confirmei para Idalino: ele apenas dizia que mudaríamos e calava-se. Nossos filhos choravam - inconsoláveis - por longas tardes e relembravam amiguinhos deixados ou as professora-andas, as mais meigas: as meninas as tinham como irmãs; os meninos se derretiam em paixões encantadas. Eu apenas recomeçava: lugares novos, hábitos antigos. Nossa união era de longa data. Casou-se comigo eu nem completara doze anos ainda. Contava aos filhos - posteriormente aos netos - que em algumas ocasiões precisei ser dura, valente, pois fui buscar o pai deles dentro da casa de algumas lambisgóias. Eu cuspindo bazófias: não estou aqui de brincadeira, cale-se senão quebro sua cara. O argumento funcionava, não havia contra-senso da parte delas.
De tantas mudanças, as crianças vieram a nascer em estados diferentes. Eu sei que ares sempre novos não faziam bem as crianças e a ausência do pai durante a semana, também. Até me afetava. Idalino acusava-me com o olhar, nunca com palavras. Não me fazia concessões: não passeava; não conversava com ninguém, durante os dias em que ele estava em casa; não opinava, nunca, em nada. E eu obedecia, na presença.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

SONHO DE PASSADO

Jorge dirigiu. Conduzido pelo subconsciente, trafegou em voltas tantas que, depois de certo tempo, teve uma sensação de “déjà vu”. Não àquela impressão que - normalmente - se tem de um lugar acolhedor, a outra, a que o forçava a franzir a testa, causando-lhe uma dúvida angustiante sobre para qual lugar estaria se dirigindo, e com isso mantinha-se a circunvagar. Em intervalos, as buzinas de outros condutores despertavam-no. Verdadeiros estampidos recebiam seus ouvidos. Essa espécie de transe durou um tempo. Ele mesmo não saberia precisar. Conseguira, apenas, a percepção de algo destoante nele mesmo. Despertado, estacionou. Foi quando se surpreendeu com o destino de sua viagem interna: o mar, bem à frente. Para Jorge o casamento era o mar, e trazia a dúvida consigo desde muito, nas palavras dos mais velhos “menino, o mar não tem cabelo!”. Sentou na areia; pés descalços; calça arregaçada; a água a tocar-lhe a ponta dos dedos dos pés: não passo daqui.

O mar estava agitado. Você não me sai daqui. Está vendo estes rochedos? Preciso atravessá-los, seu avô precisa de ajuda, lá ao fim. As pedras eram cortantes, mas com agilidade, a mesma de quando nova, conseguira passar para o outro lado. Via-se uma casa de máquinas que nunca soubera de que, mas algo chamava a atenção. O olhar fixava-se nas engrenagens e elas rodavam e o perigo parecia rondar. O avô já estava a salvo. Agora só via verde, a cor esmeralda tomava o campo de visão; o ar faltava; não havia nada em que se agarrar. Lembrara dos cabelos da irmã: ela nunca escapava. Disse pra não sair de onde lhe deixei. E era eu, contava como se eu tivesse feito àquilo. Como se estivesse sumindo em mar revolto, hipnotizado pelas engrenagens que, em aparência, deixavam o perigo lá, longe. E isso me pesava.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

MOEDAS

Deveria chorar, ou ficar abatida? Quem sabe tenho um daqueles passamentos, daqueles, típicos em pessoas que recebem notícias como a recebida por mim, hoje no final da tarde. Minha irmã caçula, Cendira, ligou-me: papai faleceu. A reação que tive? Bem, acho que não tive reação alguma. O senhor Idalino era como um estranho, pior: alguém para esquecer, sem o menor receio. Nosso laço de sangue, teria significado? O homem que me tratava com dureza, acre em todas as ações dirigidas a mim, seria merecedor de uma lágrima sequer - por menor que fosse - a rolar em minha face, ou mesmo ameaçar nascer e findar, ainda nos cílios? Chorem, não tenho lágrima, não para ele. Quis matá-lo, muitas vezes. Matá-lo muitas vezes! Com o tempo, nem isso. Despendera muita energia odiando. Estou compelida a entristecer-me, mas por minha mãe. Sofreu - calada - mais que os cinco filhos que teve.
Cendira calou-se ao ouvir que dissera a mamãe que só a visitaria depois da morte dele, e que não iria ao enterro. Pronto: ele morreu. No entanto seu corpo ainda está lá, só após o enterro ponho meus pés de volta àquela casa. E que ninguém se admire se, por esses dias, eu quiser por a casa a abaixo e reconstruí-la, não antes de queimar o solo com sal.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

AIS DA INFELIZ

Acordo e me pergunto onde devo estar. As costas me doem, acho que dormi neste tapete. O corpo cheio de marcas. Devo ter me coçado pouco durante a noite, felpudo o tapete. De quem deve ser o apartamento? Não é da minha última conquista, é muito sofisticado e tem um “quê” de quem gosta de arte. Procuro meu sapato, aliás, minha roupa. Como cheguei aqui? Rezo pra não ter sido carregado por nenhuma coroa metida, enfiada numa cinta-liga até o pescoço e levado - em coma alcoólico - ao seu antro de predição, onde ela papa os anjinhos loucos pra botarem a mão no dinheiro dela, e usufruírem de um apartamento decorado por alguém que ela nem lembra o nome. Merda! Cadê o sapato? A sala estava arrumada demais para alguém ter feito sexo. Eu acho que não fiz. Que porre! Merda, cadê meu sapato? Essa deve ser tarada, tem a escultura de um pênis na mesinha da sala. Onde eu me enfiei!? Ei, estante legal, tem o estilo de Circe: muitos livros; réplicas de esculturas gregas; borboletas empalhadas. Circe adora colecionar borboletas, acho que mariposas também. Que se dane, vou embora, que merda de sapato! Sair evitará outra decepção, e duas em menos de uma semana... ninguém merece. Chamo o elevador, ele demora muito. O problema é minha cabeça, está do tamanho do mundo. Vomitar, não. Dou um sorriso forte - contrair a musculatura do pescoço ajuda, aprende-se alguma coisa nas noites de bebedeira. Desço as escadas. A chave do carro está no bolso, mas onde está o carro? Só me falta perder o juízo. Não me lembro de conversar com nenhuma mulher; nem de dirigir; muito menos onde estacionei, se estacionei. Ativo o alarme, para minha sorte o carro estava na garagem do prédio. Sigo pra casa. Quantos dias, Circe ficará com o pai? Estou cansado de comer fora. Ligo pra casa, pra verificar se ela chegou, hoje já é domingo, cinco dias... Alô, Circe, chegou agora pela manhã? Chegou ontem, mas por que não me ligou, não teria ficado até tarde na ótica, dormi no sofá, estou todo quebrado. Daqui a pouco eu chego. O quê? Quer conversar comigo? Certo, assim que eu chegar em casa, falamos. Desligo o telefone. É agora que suspiro: lá vem bronca!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

NORMALIDADE

Moça! Sente-se aqui, eu lhe cedo o lugar. Mal posso acreditar que encontrei um homem cavalheiro, nos dias de hoje é coisa rara!, pensei surpresa. Noutro lugar ficaria cismada, mas aqui, no metrô... realmente deve querer ajudar. A maioria pediria minhas bolsas e sacolas, permanecendo sentada. Quem sabe seja um sinal de esperança. Quase não tenho mais fé em nada, nem em meu casamento. Mas vou tentar, “lutar” como disse papai. Rapaz prestativo ajudou-me a desembarcar as malas e até travou a porta do trem, para dar tempo de descer tudo. Os passageiros ficaram irritadíssimos. Deve ter tido uma boa criação, sua mãe deveria perguntar-lhe - quando criança - “Como é que se diz?” e ele meio acabrunhado respondia, enrolando a bainha da camisa entre os dedos, “Obrigado”. É! Faz tempo que não me pego imaginando a vida de desconhecidos. Me dá vontade de escrever. Horrível é quando vejo aquelas bolas de papel... amontoadas me fazem desistir. Às vezes me apanho em autocríticas tão severas, fico quase paralisada. Problema que não me deixa voltar a trabalhar. Acho que deveria buscar ajuda profissional. Criar novas realidades era meu maior prazer. Desse jeito se matiza a vida com as cores julgadas mais pertinentes, variando a paleta de acordo com o drama. Que cores estariam dispostas na paleta dos meus dramas? Mulher casada; sem filhos; casamento em crise. Minha vida dá um romance.
Quanto deu a corrida? Vinte e três reais. A senhora teria os três trocados, ou uma nota de um? Não, não, fique com o troco, eu estou apressada. Só lhe peço o favor de colocar as malas na entrada da casa. Certo, senhora. Obrigado e tenha um bom dia! Quatro dias longe! Jorge, ajuda com as malas, estão pesadas. Jorge? Onde ele deve estar?

domingo, 3 de janeiro de 2010

LIRA DO PASSADO

Ele não confiava no “profissional” que contratara para ornar a igreja. O casamento estava marcado para as vinte horas e a noiva não se atrasaria, disso tinha certeza. Pegou o carro e dirigiu-se ao local da cerimônia e ao chegar confirmou seu pressentimento: a ornamentação estava diferente. Não foi o que combinamos. Não, mas eu sei o que estou fazendo. Jorge franziu a testa e retrucou reafirmando que não foi aquilo o combinado com a noiva. Nunca, nos meus anos de trabalho, nenhuma noiva ficou insatisfeita com minhas alterações. Nesse momento Jorge tornou-se ríspido, não havia tempo para discussões, já se passavam das dezenove horas e ele ainda precisava se trocar, não iria deixar a noiva esperando no altar. Mas você não está tratando com a noiva, eu sou o noivo e estou dizendo que não gostei. Quero que você faça do jeito que pedimos. Olhe, eu sou um profissional e jamais fui tão humilhado, nunca fizeram tão pouco do meu trabalho. O noivo respirou fundo. Muito obrigado pelos serviços prestados e, por gentileza, pode se retirar. Não se preocupe, eu cuido de tudo. Vá embora, já disse. Jorge olhou o ambiente, lembrou-se - não poderia esquecer - dos por menores, frisados por Circe, cada posicionamento dos arranjos; as pétalas de rosa aos pés das colunas; as fitas no corredor da igreja; cada detalhe. O celular toca: Circe. O que você está fazendo aí? Já são dezenove e trinta. Não vás me deixar esperanto, te mato, juro!
A marcha nupcial, aos ouvidos de quem casa, é a mais bela música. Linda! Apertou-lhe as mãos. O senhor Dagoberto consentira e aprovara a escolha do genro. Homem educado. Sabia entrar e sair de qualquer ambiente. A filha estaria em boas mãos. Ouviram as palavras do Monsenhor. Jorge fez a leitura das Sagradas Escrituras - como manda o ritual. Leram os votos, as promessas que deveriam ser cumpridas durante a união. E enfim o “sim”, tão esperado. Marido e mulher. Pode beijar a noiva.
Após o término da cerimônia, os convidados se dirigiram à recepção, aos comes e bebes. A festa. O casal demorou-se um pouco para algumas fotos. Ao seguirem para a recepção veio a notícia: quase que o bolo veio à baixo. Jorge juntou os dedos entre os olhos, cerrou o outro punho. Bicha dos infernos, tenho certeza que foi ele.

sábado, 2 de janeiro de 2010

MORTIÇO

Jorge ainda sente-se jovem. Tenho fôlego de um meninão, desses rapazotes que vivem a correr atrás de uma bola. Nos tempos de moço corria muito, mas atrás das meninas. De mentalidade jovem, trabalha com o que gosta e segue como se fosse viver para sempre. Proprietário de uma respeitada ótica, preste a abrir uma filial. Considera-se um empresário bem sucedido, acredita estar no caminho certo. O comércio é sua vida desde muito cedo. Diziam que tinha tino pros negócios. Dizia ser o sangue português nas veias, do bisavô. Já tentou se dedicar aos estudos - teve boa educação e mostrava aptidão -. Mas, sabe de uma coisa, nada melhor do que trabalhar naquilo que é seu. Acredita que o maior erro de sua vida foi ter casado. Não devia. E agora não dá pra aproveitar nada, a mulher sempre no encalço. Tento... juro. Eu realmente tento agir como um homem casado. No íntimo ouvia uma voz dizer que não tinha nascido pra isso. Cuidava bem da saúde. Era da opinião de estar com tudo em cima. Não vou deixar que me enterrem vivo, só por estar casado. Vou viver de maneira intensa.
A esposa avisara - esta manhã - que iria à casa do pai. Devia ser uma daquelas crises de Circe. Considerava o senhor Dagoberto um ótimo sogro. Nunca se meteu no relacionamento da filha e sempre respeitou as decisões do casal. Mas a Circe é um problema, dizia e dos grandes: nunca esteve satisfeita no casamento. Não era nenhum santo, mas as traições - não usava este termo - eram bem feitas. Não dou motivos pra ela achar que não sou um bom marido. Para ele o casamento estava acabado, desgastado com tantas brigas e discussões - via o reflexo desse mesmo desencanto, que o tomara, nos olhos da esposa. O que tinha convicção de não fazer era pedir o divórcio, não. Ela vai querer metade de tudo; e o trabalho de uma vida pra construir minha ótica? Agora que é um negócio sólido, não, não posso abrir mão de nada.
Quando Circe ia à casa de seu pai, nunca ficava os dias que dissera. Bem que nem me deixou perguntar dessa vez. Serão dias, no mínimo. Hoje planejou sair, espairecer a cabeça. Soube do um show de um cantor famoso. Será esse. O projeto era arrumar uma nova conquista e esquecer-se do casamento, quem sabe por uma noite ao menos. Estar com alguém que não traga o ranço de uma vida estressada, talvez renovar as energias, dando ânimo novo para enfrentar a rotina a partir do dia seguinte.
Abriu os olhos e assustou-se ao acender a luz: uma mulher deitada sobre o peito dele, despida e com insuportável cheiro de vômito. Beijara aquela boca? Percebeu em si que o álcool não surtia mais efeito. É um daqueles encontros que devem acabar antes de se ficar sóbrio, para as lembranças parecerem boas. Levantou-se com cuidado, não era preciso acordá-la. Ela não saberia ao certo quem ele seria e não teria a decepção de descobrir não haver a mínima possibilidade de novo encontro - desde que ele esteja sóbrio -, ou ele seria flagrado acompanhado de tão desafortunada criatura, em atitude suspeita. Pagou o hotel, também de quinta. Dirigiu um pouco, até um posto de gasolina. Bebeu uma tônica, ajuda na ressaca. Não colocarei os pés na ótica hoje, estou um fiasco.
Fico pensando se algum dia eu conhecerei alguém que me faça tremer nas bases, como a Circe um dia fez. Não sei onde perdi aquela mulher.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

CÂNTICOS DE CHORO

Rua tranqüila. Estava caminhando em direção a si mesma. Crescera aqui. Lugar de contrastes. Era onde se sentia melhor, mas as tristezas que passara com a perda de entes queridos - a mãe, principalmente -, embrulhavam-lhe o estomago. Mesmo assim, a alegria surgiu em sua face, logo que avistou o sobrado. Vieram boas lembranças, aqui elas também foram geradas e tornavam-se como remendos em sua alma de farrapos, puída das durezas que vivera na cidade grande. Andar por esse pavimento... via suas brincadeiras, as correrias. Fora menina ativa. O pai, cuidadoso que era, ficava a observar, ao longe, com ares de proteção. Só nunca conseguiu protegê-la da saudade da mãe. Eis um dos motivos de ir morar em outra cidade. Não que esta saudade fosse algo de ruim. O problema surgia na consternação profunda que este sentimento provocara nela, beirando a depressão. Circe, ao ver seu pai à porta, chora. Um misto de emoção por reencontrá-lo e descarga das dores que acumulava. Meu sol! E o rosto dele respondia ficando radiante. Não chore, você está aqui, então? Mate a saudade. Após um longo abraço, entraram. A sala continuava a mesma, a diferença estava nas paredes, revestimento de cerâmica. Aliás, na casa por completa. As madeiras do sótão também eram novas. Lá mantinha uma vida à parte, de fantasia. O seu quarto continua do mesmo jeito. É seu se precisar e pelo tempo que quiser. Instalou-se e por um tempo manteve-se isolada. O isolamento fez recrudescer a crise. Repensou, incessante, as angustias, num inventário que a ajudasse na valorização das coisas que seriam mais importantes. Foi assim seu primeiro dia. Enclausurada, chorando as dores. O pai entendeu. Circe precisava externar seus fantasmas. No tempo certo ela o procuraria.
O senhor Dagoberto era viúvo. Circe, sua única filha, era a pessoa mais amada por ele. Cogitou vender o sobrado por diversas vezes. Refazer a vida, casar novamente, poderiam ser planos razoáveis. Mas hesitou, ainda hesita. Gastava o tempo entre as pinturas e o cuidar do sobrado. Tinha o segundo como uma memória viva das alegrias que teve, como uma extensão de seu casamento com Calina. A pintura preenchia a maior parte do tempo. Começou o ofício tarde, logo que se aposentou. Era funcionário da prefeitura da cidade e grande parte desses anos de trabalho foi prestada na Secretaria de Direitos Humanos, como assessor. Desse trabalho colheu muitas amizades. A solidariedade une as pessoas. Aposentara-se por idade a quatro anos, mas nuca se exonerando de estender a mão a quem precisasse.
Ao terceiro dia, após o jantar - que ela não comera - chamou o pai, para conversar. O que tanto te aflige? A complacência no olhar do pai fez com que chorasse mais. As lágrimas ajudam a nos livrarmos das dores. Aconchegou-se nos braços dele. Frágil, em busca de socorro - lugar certo para encontrar. O pai aconselhou-a. Era preciso lutar pelo casamento. Não se perde anos de convivência, assim, como quem joga lixo fora, sem preocupação. Mas para Jorge é com isso que se parece o nosso casamento: lixo.