sábado, 20 de novembro de 2010

JOGOS DE ESPELHOS

Aquela frieza não saía de mim. Após dirigir noite adentro, chego em casa e à porta dou de frente com Jorge. Sonolento, quase não repara que estou a sua frente. Buzino para despertá-lo de seu limbo, para livrar-nos do choque quase inevitável. Ele não estava ali. Entramos. Vou para um dos quartos de hospedes, preciso estar só. Parece-me, às vezes, que sempre estou sozinha ao final do dia, ou quando a manhã aponta, no final da noite. O espelho reflete minha imagem. A toalha escorre entre minhas mãos. Sou eu? Reconheço minha tez; minhas sobrancelhas delineadas; meus olhos, que outrora ele dissera oceânicos, não brilhavam; minha boca se fechava e renunciava toda palavra. Coloquei brincos como se fosse sair. Os cabelos, após enxugá-los, eu os prendi de maneira a deixarem meu rosto à mostra. Queria me ver. Queria me reconhecer no reflexo que já não parecia comigo. De tanto olhar para fora, para os outros, eu agora não sabia quem me tornara. Tudo poderia ser tão simples. Enxergar-me por completa me faz indagar quais limites ultrapassei. Se eu olhar para dentro do espelho verei que realmente não sou eu. É o inverso, meu inverso. Sigo na contramão de mim mesma. Devolvo o colar à gaveta, mantenho o colo limpo. Não irei sair.

ETIAM TEMPUS

Fora um início. Era como se não tivesse dormido: ele apenas abriu os olhos. Seria como um relacionamento já de tempos. Deitada ao lado, ela não se movera. Tomada por um sono mortal, de pecado. As mãos de Jorge margeiam os cabelos da adormecida. Não acordará. Um beijo de brisa, quase sem toque. Veste-se e sai sem dizer uma palavra. À porta, vira-se e contempla o corpo delgado. Não o vê realmente. É o relevo formado pela tenra pele que o aquecera durante a noite. O corpo, agora sozinho, apoderava-se da cama, da coberta que lhe delimitava as formas, contido em si mesmo. A porta é trancada da forma mais sutil. Jorge vai embora.

Poderia chegar em casa e contar tudo. Jorge poderia fazer isso. No entanto, lembra-se das palavras da mãe, de como dizia que as mulheres não perdoam. Se o acaso vier e assim te encontrares sobre uma cama, doente, o olhar dela será de reprovação. Lembrar-te-á que fora traída. Que tu a traíste. E em teus instantes finais fincará o olhar em ti, agora de um teor repulsivo, condenando-te e relembrando, para tua tortura final, que estivera ao teu lado sempre, que te apoiara em tudo, nos cuidados, na dor, e que tal benevolência seria tua passagem para o inferno. Meu filho, que nunca admitas traição a uma mulher, mesmo que em evidente delito. Negas às últimas!

Durante o caminho de retorno, Jorge esvaziara-se de pensamentos, absorto em nada, despertado já à frente de sua casa. Circe o desperta. Dormindo ao volante! Ambos retornando ao raiar do dia, de caminhos opostos. Demoraram-se na decisão de quem estacionaria primeiro. Nas feições de ambos não era possível notar indagação alguma. Pareciam até tranqüilos. Uma paz estranha. Nesta hora, nem o vento soprava. As árvores testemunhavam mudas, imóveis.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

CALINA

Poderia fazer um balanço de minha história. Analisar minhas escolhas ao longo de um percurso tão conturbado. Quando penso que tudo está resolvido, sou tragada por problemas recorrentes e sentimentos que me deixam atordoada, ainda mais: surpresa comigo mesma. O meu casamento com Jorge, por exemplo, parece ser uma daquelas coisas que não eram para ser. O meu casamento é como uma pessoa bipolar. É como um monstro que me devora. É mais. Pior! É o mesmo que ter feito um pacto com o demônio: primeiro o deleite, depois o estipêndio. Estou prestes à pagar. Estas idas e vindas, ora entre beijos, ora entre discussões, olhares vazios, indiferença. Tudo me faz desejar o colo de minha mãe. Lugar único! Então, sigo de carro até o cemitério querendo estar perto dela.
Queria um mausoléu. Papai reclamara: para quê tanto? Pediu-me um bloco de granito. Esculpiria o que viera a ser, para mim, uma verdadeira madona. Os cabelos longos, pouco ondulados, caíam-lhe aos ombros. A cabeça e o olhar baixos. As mãos ajuntavam-se sobre o colo. Era saudade. A madona que se assentava sobre o túmulo de minha mãe era legítima saudade. E mesmo que em puro granito, era a saudade mais encarnada que já vira. Queria... Quis muitas vezes tocá-la e pedi-la que levantasse, a dor passa. Diminui. Àquela hora, já fria, a escuridão apontava. Ficaria ali por mais um tempo assentada ao lado da “pessoa” que simbolizava toda a falta de minha mãe.

Por toda minha vida busquei tomar as atitudes mais coerentes. Nunca operei mudanças bruscas. Mas agora, abrindo-me por dentro e refletindo sobre mim mesma... Temo a culpa, a falta de razão ou talvez a realização de vontades outrora inibidas. É um amálgama de rancor e espanto. Mais rancor que espanto. Mais espanto que pranto. Cansei de chorar! À frente o vazio, portal do horror. O esmagador peso do vazio, sobre o peito. Vazio que comprime, sufoca através do silêncio. Silêncio que dilacera, que golpeia. Exacerbadamente golpeia e dilacera. Dilacera a carne ao ponto de, num mesmo golpe, golpear a alma. A minha franqueza comigo mesma é diretamente proporcional à fraqueza com que conduzo minha vida sentimental. Exígua vontade de mudar. Levanto–me da saudade, da autocomiseração. Volto à vida. A madona me dá as costas, continua em saudade eterna. Jurei ter visto uma lágrima, escutado um choro engolido. Também baixo a vista. Fixo o olhar na alameda de pequenas pedras retangulares. Uma poça d’água reflete a capela de abóbada dourada. Na saída, o frio me abraça.

domingo, 22 de agosto de 2010

FULCRO DE QUÊ?

Aquele pranto se estendia. As lágrimas vertidas pelos olhos da irmã eram como as chuvas no mês de agosto. Os dias mais frios. O período mais melancólico. A indagação é inevitável: por que tantas lágrimas? E a obstinação pelo silêncio? Não vira tristeza maior desde A enchente. De uma brevidade, o silencio irrompe num fio de voz: as palavras não encontram coragem. Para Cendira o vórtice de pensamentos tilinta em sua mente como um sino de igreja, num aviso de calamidade. Abgail inclina-se na busca de melhor ouvir. Outra vez as palavras rompem o momento limítrofe entre o instante que separa o silêncio – nascedouro – e a palavra proferida. Tais palavras são como lenha para fornalha: irradiam ira para o coração de Abgail.

Acredito naquelas pessoas que dizem possuir o controle de suas emoções. No entanto, acredito também num limite. Na tênue divisória que faz (a todos) externar a ira capaz do assassínio. Até os monges tibetanos já transpuseram este controle em direção à pancadaria. Sempre existe um limite.
Com a ira veio também a perplexidade como resíduo dos motivos que ela supôs que pudessem ter acometido Miriam para realizar tais atos. Nunca serviriam de desculpa. Desvencilha-se e segue em direção à varanda, Abgail. Busca, ela, ar. Quer límpida as decisões. Desanuviar os pensamentos! A lembrança: nós mudávamos, tanto. E sempre parecia tudo bem e a mudança - de novo - acontecia. As discussões abafadas. Os motivos que pareciam fúteis. Nosso pai, esmagado pela face obscura. Não fera, ferido! A precisão das palavras. O silêncio marcado. Sou forçada a ser corajosa, mesmo se não quisesse, não poderia fazer outra coisa!

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

INQUIETAÇÕES

Ao chegar à frente daquele restaurante, Circe lembrara que ali se encontrara pela primeira vez com Abgail, após retornarem da casa de praia. Lembrou-se até de antes: de quando recebera o convite. Não nos esquecíamos daquilo. À mesa, chegara cedo. Torradas, patê, água e uma taça de vinho. O tempo passaria. Havia escolhido uma cadeira virada para o sentido oposto à entrada. Um musicista, ao fundo, soava uma melodia delicada de seu violoncelo, com movimentos vigorosos que se contrapunham à suavidade da música. Parecia esforçar-se.

Assim que entrou, percebera em Circe certa inquietação, como se esperasse há algum tempo. Abgail consulta as horas: não estava atrasada. Conversaremos muito, como se nunca tivéssemos nos falado. Alguém para ouvir nossas frustrações.
O ser humano tem essa necessidade de compartilhar, de confessar. Mesmo que mantenhamos nossa face mais obscura às escondidas, é imperativo dizer algo, mesmo que não seja toda verdade. Não precisa ser. Nós camuflamos. Maquia-se o acontecido ou sentimento e dá-se ao outro, com desdém e tudo. Sem a importância que realmente enxergamos. Circe enxergara naquela amizade uma cúmplice, alguém para dividir o íntimo. À porta, o cheiro inebriante que ficara marcado na memória. Ao fundo o violoncelo, incessante. Ao pulso, o relógio marcava a hora exata: nem antes, nem depois.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

CLARIVIDÊNCIA

Prostrei-me ao colo de Abgail. Não era simples tristeza o que me acometia. Havia um medo. Gostaria de saber agir naquela situação. Agir de maneira enérgica, decidida, decidida como em outras horas de minha vida. Ou explodir. Mas isso não resolveria, ou talvez resolvesse. Trocaria um problema com o qual não tenho o menor tato por outro. Outro com o qual eu poderia usar toda a aspereza que é possível a um ser humano. Mas vendo minha mãe, nossa mãe, esquálida, passando por maus tratos. Sendo privada de cuidados. Como tratar uma situação como esta? Mataria Miriam com minhas próprias mãos se possuísse a coragem necessária! Enquanto isso, choro. Espero soerguer-me dessas lágrimas e contar a Abgail. O lençol encobria ambas em ondas, como o mar a abarcar os náufragos. O ar frio no quarto era como a própria chuva. A chuva era como as lágrimas que caíam incessantes. As tragédias chegam, sempre.

Nem sempre o laço consangüíneo é condição suficiente a uma aproximação fraternal entre irmãos, o que – dito desta forma – resultaria em redundância. Mas desde nossa literatura mais sagrada, bem como na literatura mais universal, encontramos casos de desentendimentos extremos entre irmãos. E, no entanto, existem fatos conhecidos, ocorrências com as quais temos maior proximidade – um vizinho, pode ser – e que nos mostram que tais desavenças, após um olhar, um, apenas, e apagam-se mágoas, profundas mágoas.

Clarividência, assunto que alguns tratam com certa desconfiança. Mamãe, porém, cria nessas sensações, Cendira afirmava ter. E surpreendia, às vezes. Essa coisa de pressentir a chegada de pessoas, como agora a pouco, não assustava. Bem, não a maioria das vezes. Entramos. Providenciei uma roupa seca, cobertor. Fomos para o meu quarto. Os lábios já roxos. Queria morrer, e na minha porta?! As lágrimas que escorriam nas faces de Cendira, o olhar comiserativo, eram como grande fornalha, derretiam as calotas de gelo que o tempo formara, à duras penas, no coração da irmã. Que aflição seria capaz de causar tamanha angústia à Cendira? Um verdadeiro aperto no coração. Minha irmãzinha! Apesar de ser esta mulher, a quem admiro tanto, nessas horas, não passa de minha menininha, a quem eu protegi tanto!

Quando a viu, parada à porta, os ombros molhados do chuvisco que caíra, Cendira tremia de frio. De chofre, ao descer do taxi, Abgail perguntou-lhe o que ocorrera. A irmã ali, sem aviso, não era coisa boa.

domingo, 18 de abril de 2010

AFLUXO

“Sentei-me à janela. Não esperava vê-la. Gisele nunca aparecia essa hora e eu não queria olhar para ela acompanhada de seu namoradinho, grudada nele. Sentei-me. À mão, o livro que ainda não terminara. Desde que Gisele começou a aparecer em frente à minha janela nunca mais consegui sair do capítulo ‘Uma florzinha de mulher’. Gisele tomava minha atenção. Comecei a ler. Eu queria saber da história. Estava disposto a lê-la até o fim, de ver os caminhos daquele drama. Queria me envolver na psicologia daqueles personagens. A literatura envolve, é um mostrar escondendo de que tanto se fala que ao provar disso, ao experimentar esta arte, me vi cativo. As páginas avançavam. Avançava também um aperto no peito. Eu queria Gisele. Vê-la me faria bem. Gisele não me deixaria, estaria ali, sentada, sem o namoradinho. Ele a veria, sozinha, não queria saber mais dele. Raspara a cabeça, sim, o namoradinho de Gisele raspara a cabeça. Ele dizia que agora namorava outra. Mas Gisele não o queria mais, não, não de agora. Muito ciumento! Você desconfia de tudo! E olhava séria, falava sério, com ele. Gisele chega, à janela me olha. Senta no banco de sempre, do outro lado da rua, à minha frente e sozinha. Neste gesto, Gisele libertara o meu...” puxada para a realidade, Circe desperta com o toque do celular: Abgail. Espero não tê-la atrapalhado, Circe. Não, gostei muito de você ter ligado! Queria marcar para almoçarmos juntas, assim que você voltasse, mas não sei, talvez o livro... Não, claro! Almoçaremos, posso escrever em casa, na cidade, sem problema, e gostaria muito de revê-la, de conversarmos. Mesmo? Sim, nos demos tão bem, não foi? É, foi, e então? O almoço? Sim. Está de pé e assim que retornar te ligo para acertarmos hora e local. Combinado. Que bom! É! Então até mais! Beijo! Outro!
Não pensava mais. A ligação de Abgail parecia ter lhe dado um branco, daqueles em hora de prova, final ou vestibular, a tremedeira era a mesma. Não que Circe estivesse tremendo. Apenas o branco, não vinha nada. Sentada à escrivaninha não escrevera mais nada. Uma linha sequer. Ela e a tela, o cursor piscando, a mão sobre o teclado ergométrico, a caneca de café, não puro, com leite, muito leite, diria que leite com café, seria mais apropriado e em pó, o leite. Gostava das bolas que se formavam, elas dissolviam na boca. Leite. Delicioso! Delícia! Tudo organizado para horas, quem sabe dias, ali, ela e a tela. Não precisaria de nada, mais nada: computador; escrivaninha à janela, como o personagem; leite, café, os dois juntos aumentam a concentração. E agora Abgail, em seus pensamentos, chamando-a: volta, Circe, volta! Ela voltará.

sábado, 17 de abril de 2010

NO ÂMAGO

Olhar fixo para ele, meu casamento, eu tento, mas não consigo. Do mesmo jeito de quando criança: fixava os olhos no sol, bem no sol, tentando ver os contornos. Talvez, por um mísero instante, breve, o mais breve possível, pudesse enxergar aquela bola brilhante.

O senhor Dagoberto me fala de como Circe está, do quanto ela precisa de mim, e não parece estar se referindo ao meu casamento. Ouço. Olho e não é o meu casamento. Não quero que seja. Não quero porque não quero estar casado! Todo aquele sentimento de querer tirar um peso das costas, o maior deles, como se estivesse prestes a morrer esmagado por tal peso, é o que sinto! Os lábios do senhor Dagoberto não param. Ele fala, fala e fala. O que ele está falando! Do que ele está falando mesmo? Ah, meu casamento. É melhor não pensar. Nós estamos bem, não precisa se preocupar! Conversamos e estamos bem. Ela está em casa? Não, ficou na casa de praia, escrevendo. Parece que começou um livro novo. Assim que ela chegar, peça para me ligar. Está bem! Ele se foi e eu fiquei com uma gastura na boca, como se tivesse comido ferro, como se alguém me fizesse tomar um remédio à força, amargo, o gosto amargo descendo pela boca, a ânsia de vômito...

Na vida encontramos, basicamente, três tipos de pessoas: as que tomam decisões; as que não tomam decisão alguma; e uma terceira, que provavelmente regurgitaria, pois não me desce à goela, a que coloca suas decisões nas mãos dos outros - isso é diferente de não tomar decisão nenhuma. Este terceiro tipo tem medo de arrepender-se futuramente de algum posicionamento que tome, por isso, quase sempre responde: você é quem sabe, é você quem está dizendo isso! Parece que o simples fato de saber que o erro não partiu de sua decisão, livra-lhe do fardo das conseqüências. Era isso que deixava Jorge doente: ver Circe ali, sempre ao seu lado, sem tomar pulso de nada. Pensou que não casara com a mesma mulher que conhecera. A verdade é que Jorge não sabe - ou finge para si próprio não saber - o que sente por Circe. Às vezes ele, em seu íntimo, repudia a figura de Circe. Em outras a acolhe em seus braços, ela feito criança, ele se culpando de não dar-lhe apoio. Mas sua constância só reside num ponto: dinheiro. Não, Jorge não seria assim. Seria? Eu não faço tudo por dinheiro, não. O que eu me tornaria agindo assim? Meu problema seria - já refleti muito sobre isso - essa busca incessante por coisas novas, mulheres, principalmente. Não sei, é como se cada uma tivesse algo que faltasse à mulher que eu consideraria perfeita, e continuo buscando. Quando me envolvo com alguém, num relacionamento novo, gostaria de remover dessa pessoa o que me atraiu e colocar na Circe que um dia conheci. Ou talvez quisesse retirar até algo de Circe e colocar em outra pessoa. Quem sabe em Abgail... preciso conhecê-la a fundo. Abgail com aqueles oceanos na face, os lábios que pedem não sei o quê. Ela fala olhando nos olhos, no fundo deles, e de repente, num desvio rápido, olha para minha boca e contrai os próprios lábios. Eu a quero, disso eu sei!

sábado, 10 de abril de 2010

ÍMPETO

De tanto que pensei nestes últimos dias, nem dei conta da distância que percorri! E mal me situei, já me encontrava à frente da ótica. Um percurso de um segundo. Circe, Abgail, amor e sexo! Amor?. Sexo. Estou subindo para o escritório. Não estou para ninguém! Tenho funcionários competentes, no mais, delego os afazeres e me reservo a tratar dos problemas maiores, quando surgem. Nos primeiros anos não foi fácil manter os negócios. Eu me desdobrava, eu era muitos. Administrar um negócio no topo, estruturado, é mais fácil. Depois de estabelecido, nunca enfrentei crise. As áreas de saúde e alimentação nunca enfrentam crise! Eu preciso mesmo é voltar à ativa. Na vida pessoal. Desopilar, palavra mais feia! Agora é como se não vivera os últimos dias. Último é quando a gente morre. Até lá, é sempre penúltimo. Um amigo falava assim e complementava: vira essa boca prá lá! Não acredito em superstição, nenhuma. Nem em Deus. Religião é para ganhar dinheiro. Eu até me converti, uma vez, numa igreja protestante: interessara-me uma jovem, Flarbela. Flor, para mim. Existia um pretendente, isso. Não sei com o quê trabalhava, lembro-me que dirigia uma Kombi. Ela não o quer, deseja o bonitão, não é? - o pastor dizia - E era mesmo. É, eu! Ela me queria e eu era duro nessa época. Meus pais insistiam que era necessário dar valor ao dinheiro, que através do meu trabalho, o faria valer, suado que era. Mas que tostão, que nada. Tudo residia na ponta da língua. Matéria trabalhada. Aqueles modos de que já falei. Era como se antes de tudo se consumar, eu sentiSSE a confirmação na ponta da língua, o sabor já ali, na ponta, onde fica o doce. E era certo, sempre, como o dia que nascerá. Mas, voltando aos negócios, acho que a demora maior em me estruturar, fora decorrente de minha honestidade: impostos, contas, tudo sempre pago, certo. Poderia me utilizar das palavras de meu pai: não quero nada dos outros - não subentenda mulher -, mas o que é meu eu quero feito tapioca: dobrado. Findo o pensamento, batem à porta. Teresa, eu não estou! É o senhor Dagoberto. Por que não disse logo, mande que entre, vai deixar meu sogro esperando?

Quando se casa, não é apenas uma união entre duas pessoas, unem-se as famílias, somam-se as riquezas e dividem-se os problemas, não antes de multiplicá-los. Mas o casamento de Circe e Jorge fora algo diferente: ele quase sem passado, família ausente, distante; ela apenas com o pai e o peso da tristeza da perda da mãe, dividido entre os dois, apenas. Problemas familiares mínimos para serem multiplicados. Na divisão restaria nada, quase. Nenhum dos dois, nem pai nem filha, vivia choramingando. Jorge sabia que a dor era profunda, mas só. É aquele tipo de dor que nos faz lembrar que estamos vivos, e que a vida é um caminho de sofrimento até a paz. Uns querem a tranqüilidade última de maneira urgente. Nunca quis. Viver é transcender a dor. É ter essa dor como amante. É dançar com ela da maneira mais íntima: agonizando até o instante final. E quando beijar a dama fria, ela não terá me privado de sentir, por que a dor nos faz sentir a vida. Como vocês estão, Jorge? Preocupei-me, não tive notícias.

LERDEZA DERRAMADA

A essa velocidade... será uma eternidade até chegar em casa! Moço, não dá pra ir mais depressa? Moço? Estou no limite, senhora! No limite da marcha ré, quase parando! Pensou. A vista é bonita, mas também cansativa: belo, belo, belo. O tempo frio, a neblina, aaah, uma vontade de chegar logo. Tudo se arrastando. Fecho e abro os olhos e pareço estar no mesmo lugar. Quando descansamos além da conta, ficamos mais cansados. Uma moleza! Falta coragem, falta tudo! Amanhã ligo para Circe, para ver se almoçamos juntas. Moço? Já disse, senhora, é por segurança! Abgail estava num estado de espírito líqüido. Sua pressa era para fazer nada. Chegar. É o que queria. Descansar do descanso que teve, do longo final-de-semana em que não fizera nada, como se não bastara às horas que tivera deitada, sentada, sempre conversando, quase sempre, mais deitada. Lembrou da moleza de uma amiga que tivera. As duas ali, na cadeira do banco, com a senha na mão, esperando: 113. Alguém vira para a amiga e pergunta: moça, pegue a minha, 39. Obrigada! Nada não! As pessoas sempre me dão senhas e assim eu nunca espero muito. Cá com meus botões: também, com essa cara de doente! E estava eu: mole e com cara de doente.
A casa estava próxima, agora. De longe Abgail vê um perfil reconhecível, Cendira, parada à porta, como se adivinhasse sua chegada. Premonição, ela tinha dessas coisas! O que terá acontecido? Cendira à minha porta? Motorista, obrigada, desculpe-me pelo aperreio! Eu que agradeço pela preferência! Me veio um arrepio. O que houve?

sexta-feira, 9 de abril de 2010

PECADO

Sozinho não é o mesmo que solitário! Olhava para dentro de si, e mesmo olhando não acreditava - não parecia - estar tudo bem. Os diálogos de poucas palavras e respostas monossilábicas pareciam ter voltado, voltariam, se por um instante, talvez, quem sabe? Vamos almoçar? Vamos. Carne com batatas. Bom! Pega o suco na geladeira. Tá! Vai trabalhar até tarde amanhã? Não. Acordei e não estavam lá. Na verdade dormiam, era como se não estivessem. Escreve, escreve, escreve. “Ele se sentia só, mas apenas quando realmente estava. Talvez fossem os anos, pesando, sobre as costas. Caminhava com os ombros um pouco encurvados, para frente, dobrado de peso, muito peso, uma vida que pesava. Queria ter construído algo de importante. Um edifício. Um livro. Nem tive filhos! E os olhos dela estavam lá. Certo dia, de tão próximo que estava, senti seu perfume: jabuticaba. Cerrei os olhos e respirei profundamente. O cheiro me invadia. Sabia, ela sabia. Outra vez pensei que era maldade, pura. O olhar profundo, à procura. Os meus estavam lá, esperando, pedindo uma palavra. Meus lábios pronunciavam, queriam pronunciar uma palavra pros ouvidos dela. Escutou o que eu disse? Fala, diz, você nunca fala, por quê? Jogo demorado. Eu não tenho tempo, não sou apressado é que não tenho tempo e você não diz, nada, queria dizer, eu digo, daqui, distante. Até tivemos uma conversa inteira, longa: eu falava, falava, falava e você não respondia, nunca, parecia que jamais, responderia nunca, ali, só, ou apenas com as amigas. Eu voltava para minha janela. Lia. Leria tantos romances quanto necessário para, enfim, vê-la passar. Soube quem era. Soube o seu nome, você fazia questão que eu soubesse. Não vai falar com ele? Não, falo somente com quem quero! Deixa de ser chata, você vive olhando... Não, já disse!”. Escrevo. Se a linguagem é a criação do mundo, não informação dele, eu vivo tudo isso! As formigas na caixa! Me aceite como sou, Jorge! A outra Circe me faz mal! Não quero mais. Vejo que assim, como estou, respiro, vivo, muito! Deixa, Jorge, vai, deixa? Vou pedir, ele deixa.

domingo, 28 de março de 2010

LIMBO OU PARAÍSO?

Tateei ao meu lado e, após algumas passadas de mão, percebi que estava sozinho. E era cedo, bem cedo, e Circe já levantara, acho que nem dormira, de tão cedo que era. Hora de ir para o trabalho. Não gostava de acordar sozinho. Mesmo em casa, lá na cidade, Circe levantava primeiro, mas eu sempre percebia, despertava com ela, embora ficasse na cama até mais tarde, esperando que ela preparasse o café, assim eu cochilava um pouco mais. Não tomaremos o café da manhã juntos, eu sei. Ela está escrevendo. Não iremos para casa juntos, também. É! No começo era assim: éramos independentes, os dois: juntos, mas separados. Quero dizer, casamos e - acredito - nós nos amávamos, eu acho. Cada um tinha seu lugar. Seus afazeres: ela escrevia, muito, sempre, compulsivamente. Morreria se parasse. Não morreu. E cuidava da casa: contas; refeições; limpeza; minhas roupas. Eu, bem, eu cuidava da ótica. Provia o sustento da família. E estávamos juntos, sempre. Depois que ela parou de escrever, sempre estávamos juntos. Veio a lembrança de uma namorada que teve. Ela perguntou, certa vez, se eu a achava “grudinho”. Um pouco. Você não gosta de ficar comigo? Não disse isso. Mas eu perguntei se você me achava um grude e você respondeu que sim. Mas você me perguntou se eu a achava um grude ou afirmou que era? Eu perguntei. Pensei que você tinha afirmado por isso eu disse um pouco. Circe e eu estávamos sempre juntos, mas agora era como antes: ver Circe de novo escrevendo me dava a certeza de que teríamos espaços separados de novo. Esta nossa reconciliação me soa mais como uma trégua. Não que estivéssemos em guerra, e talvez fosse. Circe estava se armando novamente: palavras.
Jorge chamou por Circe: não vem comigo, meu amor? O silêncio era a resposta que ele esperava, sabia que ela o pronunciaria. Não entendia como conseguia aquilo: longe, parecia doente. Distante. Perdida. É, Circe parecia perdida. E ele, nada perderia! Quando chegou à varanda, Abgail estava dormindo. Neste momento parou, à frente da casa, um taxi. Tocou-a no ombro: Abgail! Queria despertá-la. Ela estava ali, linda, azul. Lindamente azulada como a duas noites, na praia. Olhou para Abgail e era como se a visse, deitada. Como se a visse nua, bem a sua frente, de novo: os seios à mostra, firmes que eram, pareciam, queriam afrontar, afrontavam. Ela, após ele perguntar por que não iria acompanhá-lo, disse que não queria incomodar. Não incomodaria! Fica para a próxima!

A sedução é um jogo: o melhor dos jogos. Envolve. Há uma satisfação neste processo, o caminho até a conquista é o que parece dar mais prazer. É possível que mais do que os finalmente. Num filme - não lembro ao certo qual - chamavam isto de retardo de prazer: os amantes nunca chegavam as vias de fato, não até próximo ao término do filme. Retardo, essa é a palavra. E Jorge retardará, ao máximo. Na busca da plenitude do orgasmo. Na busca do sublime. Já havia se esquecido de como era bom, isso, essa busca desenfreada pelo prazer. Prazer que Circe nunca o promovera de fato. Não era triste, tudo isso. Pelo contrário, entendia que tinha muito ainda para viver. Não pôde observar, ver os olhos de Abgail, virando a cabeça para o lado, para vê-lo, sumindo na neblina. Olhou, olharia para ele, assim, ela partindo? Ele observou o carro até bem distante, até sumir na névoa densa. Apenas o começo! A casa ficaria para trás, não para sempre. Voltariam ali os três. Viveriam momentos bons. Uma casa ao pé da colina, às margens do mar. A neblina que estirava uma lerdeza desde o pico até as águas quietas. As ondas cadenciadas embalavam a quem se dispusesse a olhá-las, por um breve tempo que fosse e seria capaz de dormir. Um sono tão profundo. O sono dos justos. Era o paraíso!

sábado, 27 de março de 2010

SUAVÍSSIMO

Quando a vi, ali, próxima à janela, sentada naquela escrivaninha de mogno, a luz irradiava sobre Circe como uma seda, como se essa seda - fina que era - lhe tocasse a pele. Pensei em despedir-me, mas não. Senti como se ela não estivesse ali, de tão compenetrada no que escrevia Circe não estava ali. Ela parecia frágil, mas ao mesmo tempo sentia-lhe uma força interior imensurável. Mexia comigo, ela mexia comigo! Ela me atraía de um jeito... Circe, naquela sua determinação, impressionava. Parecia que ressuscitara. Buscava o ar como quem não respirava há muito. Como quem, de volta de um mergulho, puxa o ar com vontade, força que vem de dentro para se agarrar à vida. Preferi assim, sem palavras. Melhor seria preservá-la, em toda força. Chamei um taxi. Enquanto esperava sentei-me na varanda. Estou pronta para retornar aos problemas cotidianos? A vontade que eu tenho é de jogar tudo para o alto!
A manhã estava um pouco fria. Abgail recostara-se na cadeira da varanda pensando se voltaria àquela casa. Lançou a mão na bolsa e retirou fones de ouvido. Imaginou que, por conta da localização da casa, o taxi demoraria um pouco para chegar e a música faria o tempo passar mais depressa. É curioso como o tempo varia de acordo com nosso estado de espírito. Eu digo que o estado psicológico de uma pessoa afeta sua percepção de tempo: num instante estava tudo bem, e os anos passavam, aos bocados, e só nos damos conta quando a carga da idade começa a pesar sobre as costas.
A cadência da música envolveu-me e logo ressonei. Não me vinham pensamentos, ou eles eram mesmo como as águas do oceano, as mais profundas, pois tudo estava escuro e eu nada conseguia distinguir. Foi quando submergi, despertada por uma leve pressão em meu ombro. Abgail, seu taxi chegou! Era Jorge. Nunca havia sentido seu toque, e confesso, ele tinha firmeza na mão! Por que não vai comigo, eu poderia levá-la, não era preciso chamar o taxi? Não queria incomodar. Não incomodaria, mas tudo bem fica para a próxima! Ele olhou-me, era como se me enxergasse por dentro, como se quisesse algo. Esse Jorge! Não o conheço muito bem, ainda, mas... deixa para lá. Melhor esquecer, não? Bem, não sei. Vou deixar as coisas acontecerem. Parti. Para trás, a casa, e era mais que isso. E duas pessoas que eu veria em minha vida sempre, de agora em diante.
O carro, de maneira que logo Jorge perdeu-o de vista, devido à neblina, seguiu pela serra numa velocidade moderada. Nesse instante, Jorge pensava além. E de volta, se perguntaria: hum, será que dá?

domingo, 21 de março de 2010

LONGÍNQUO REMANSO

“Ele estava sentado, a sua frente, ampla e aberta, a janela permitia a entrada de uma luz alva. Dia claro perfeito para a leitura. A janela dava para a rua. Ele a via. Não era movimentada como as dos subúrbios onde crescera, mas uma vez ou outra passavam pessoas: conhecidas; desconhecidas; indiferentes. Sabia o nome da moça. Aquela ninfeta passava em frente àquela casa todos os dias. Olhar evasivo. Ela tinha um olhar que fugia tortuoso, apressado. Numa ocasião passou de namoradinho, só para provocar. Escolhia o banco da margem oposta da rua, e olhava-me. Gisele não me tirava o olho. Falava ao ouvido dele e por trás da nuca do menino me fitava.
Ela estudava em uma escola próxima, ao fim da rua. Certa vez, eu me encontrava na padaria e - percebi de relance - uma das amiguinhas dela viu-me pela vitrine: ele está lá dentro. Logo entrou. Dirigiu-se ao balcão e pediu alguma coisa. Os olhos vivos de Gisele podem virar a cabeça de qualquer um. A minha não. A estrada já era extensa. Pensei que...” Silêncio. Percebera que estava sozinha. Jorge! Você está aí, Jorge? Quando escreve, Circe se abstrai do mundo. Entra no mundo da ficção. E que, saibam vocês, não é um mundo de mentira, de faz-de-conta! A ficção não trata do que foi, mas sim do que poderia ter sido. Indaguei de novo, refiz-me a mesma pergunta de antes, dos primeiros anos de casamento: viveria sem escrever? Poderia passar sem a escrita? Não obtive resposta. Não da primeira vez. No começo da manhã, bem cedo, acho que fora Jorge ou talvez Abgail, não sei, mas alguém falou comigo e eu distante, como antes. À janela, como meu personagem, eu não via a paisagem à minha frente. Na verdade eu via o que o meu personagem via. Eu era ele. Olhando Gisele. Vendo-a passar com o namoradinho: ele de boné, olhos claros. Mas ela olhava pra mim. Não digo eu, Circe. Digo eu, o-homem-que-lia-à-janela. Então não poderia ter ouvido Jorge ou Abgail. Eu, e acredito nisto, não estava aqui. Os dois se foram. Mas tudo estava bem. Nós estávamos bem.

sábado, 6 de março de 2010

VIDA

É melhor que você reúna a família, não terão muito tempo! O senhor tem certeza? O médico não hesita: ele está com falência múltipla... não foi a esclerose, o problema maior está por conta do diabetes... receio que sim, só mais algumas horas. Cendira sai da sala de espera, segue por um corredor que a leva para fora do hospital e chora. Era o turno dela, pois Marta passara toda a noite ao lado do marido, não apenas esta última como também as três anteriores. Necessitava dormir, um descanso para seguir a jornada de destino certo. Nesses momentos as pessoas tendem a antecipar as dores que se seguirão, antecipar o sentimento de perda que perdurará - quem sabe - os próximos anos, ou talvez nem chegue a ser superado. Dessa forma, a carga emocional parece insuportável. Não vá!

Nós o velamos em casa. O caixão aberto... ele nem parecia estar morto, suas feições estavam serenas e o que mais parecia atestar sua morte era o aroma das flores de jasmim, eu as colhi do nosso próprio jardim, sabia que ele gostava, em nossa vida em comum ele dissera muitas vezes. Era como se estivesse me fazendo um pedido, quase que explícito: Marta! Coloque-as em meu caixão. Ele nunca pronunciara estas palavras. As pessoas vinham, poucas. Elas vestidas de preto e eu me perguntava se por respeito a ele ou compadecidas por mim. Não queria aquele enternecimento, não precisava daquela tristeza.

Todos imaginavam que Idalino teria uma morte agonizante, que urraria em seus últimos momentos, como se estivesse sendo arrastado para o fogo. Quem não se desesperaria? A fase de doença pareceu destruir os últimos resquícios de nervos de Marta e Cendira, eram as únicas a tratarem dele e com o passar dos anos, ele só piorava: perda de memória; difícil locomoção. Abgail tratou logo de ir embora, em seguida Benoni. Parece que não se tratava do mesmo pai, quando Cendira ligou para Abgail não pareciam serem filhas do mesmo pai. Calei-me ao ouvir as palavras de Abgail, ela fora muito dura com ele, eu não conseguia ver papai daquela forma, era como se estivesse falando de outra pessoa e eu preferia não ouvir. A noite estava fria e o velório duraria até o amanhecer, ninguém mais ficara e nossa família se reduzira a mamãe e eu. E eu me reduzira em dor, era uma falta não apenas dele, mas de tudo que vivera, ele realmente fora um pai para mim.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

SEM DELONGAS

Gostava de casa cheia. Quando eles ainda eram crianças, juntava-os no terraço, estendia um tapete ao chão e passávamos a tarde brincando. Engraçado é que uma vizinha trazia seu sobrinho, bebezinho, e nós o colocávamos de um lado a segurar a ponta da fralda e na outra ponta quem segurava era Abgail e estava pronto o cabo-de-guerra: um puxava pra cá, o outro pra lá. E as tardes eram de risos, exceto pelo choro dos bebês quando não conseguiam puxar a fralda por completa. Era mesmo uma diversão. Marta sempre tentou manter a família unida: as refeições eram na mesa e os horários sagrados; o boletim escolar deveria ser impecável; estavam sempre cheirosos e bem apresentáveis; a família deveria ser exemplo. Uma crosta quase intransponível se formara em torno dessa família, de disciplina e aparência. Não seria a única.
Era bom estar de volta, no seio da família. Assim Miriam suspirava no primeiro dia de volta a casa onde crescera. Não estavam todos ali, ainda, mas sua fisionomia era de alívio, já se acomodara, novamente. A mãe à cabeceira da mesa, Cendira à esquerda seguida de Benoni; à direita estava Miriam seguida de sua filha, uma menina doce, Daniela. Abgail ainda não aparecera e Cimon, ninguém sabia dele. As crianças menores estavam brincando na sala de estar: o filho de Cendira e as duas filhas de Benoni, a esposa dele ainda estava por chegar.
A unidade familiar é um preceito importante na sociedade, embora que com a modernidade esta unidade tomou formas diferentes. Marta sempre apregoou esta união, mas viu-se diversas vezes incapaz de consolidá-la. Mesmo tendo ousado em muitos aspectos sociais e transgredido certas convenções que davam direitos a Idalino sobre ela, sentia que aquela era sua família e sendo como fosse, gostaria de vê-la unida. Marta levanta-se e pede um brinde, deseja celebrar a reunião familiar, ainda incompleta é verdade, mas aquele seria o primeiro passo para um novo convívio. Vamos celebrar nossa união e a lembrança do pai de vocês. Miriam crispa a testa e diz que a única coisa que tem para celebrar é estar com a mãe e os irmãos. Meu pai não valia nada, não sei por que devemos isso a ele. Segura, Marta era uma mulher segura de si, mas naquele instante seu rosto se avermelhara de tal forma que ela explodira numa ira não sabida de onde e calou Miriam com uma tapa, esbofeteou o rosto da filha para que daquela boca não saísse mais nenhuma palavra, perdera mesmo a compostura. Miriam engoliu as lágrimas e fez menção de se levantar: sente-se, daqui você não me sai! O silêncio imperou. Era como estar num sepulcro. As conversas, a partir daquele acontecido, nasciam evanescentes, praticamente já findas. E agora era como estar entre estranhos. Ou talvez estivessem tão no íntimo, uns dos outros, que começavam a se desconhecerem. Quem não tem guardado algo que não mostraria em hipótese alguma ao seu próximo? Quem não tem algo de que se envergonhe: uma fantasia, uma opinião, quem sabe? É lá no íntimo, após aquela porta que se mantém selada, que estão os espinhos e as nossas fraquezas.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

PROGRESSÃO

Por um longo tempo me mantive reclusa nesta casa. Naquela época eu escrevia bastante, meus romances tomavam minha vida. Não tinha uma vida social, nem conjugal também. Para Schopenhauer ou você prioriza o individual, que seria a busca da felicidade, ou você opta pelo bem da espécie - perpetuação dela -, que seria uma vida para a procriação, alimentando o desejo de viver. É errôneo achar que tal desejo de ter filhos caminha junto, faz parte, da busca pela felicidade: ou se é feliz ou de outro modo tornamo-nos pais. Nosso casamento tem sido assim, uma busca incessante pela satisfação pessoal. Jorge nunca falou em filhos. Mas chega um tempo em que não se pode lutar contra a natureza. Passo à escrivaninha, quero pensar num tema para um novo livro, uma história, algo que se passasse numa cidade do interior, montesina. Quem sabe um romance policial... mas acho que uma história assim já fora contada, deve-se ter cuidado para não se ser acusado de plágio!
A definição, a construção do arco narrativo e assim estruturar a planta baixa, o alicerce daquilo que se vai contar: esse é o momento da escrita mais demorado para mim, é onde a dor é mais aguda. O dia arrasta-se. Lembrei-me de uma expressão que traduziria tal efeito sentido, meu pai a usava: o dia está demorando a passar, parece estar de duas gemas. Era como se tivessem dois sóis e ao término da passagem do primeiro seguisse-se outro. Para Circe a escrita era terrificante. Seria como a dor dum parto, cada livro seria um filho e as dores viriam com eles, uma compensação pelos que não tivera em carne. Talvez não devesse dar ouvidos às palavras de Schopenhauer, uma criança poderia nos unir. Como pensar nisso?
Abrir mão da arte, da liberdade e tornar-se mãe, dona-de-casa. Sentir - logo pela manhã - o calor ao preparar a comida. Depois viria o frio através da água respingada do tanque... já passara por tais momentos, não voltaria a eles. Jorge aproxima-se. Seria mais um livro? É nisso que pensava? Não, pensava se terei um filho algum dia, uma semente para esse mundo de Deus. Silêncio. O silêncio pronuncia o que as palavras parecem não saber dizer. Fechar os olhos e ir além. Juntar as mãos na face e entrar no escuro profundo, até as luzes começarem a piscar, é quando somos inundados por um rubro intenso e começam a surgir alguns padrões repetitivos... o ser humano não consegue refugiar-se no escuro de seu ser. Lá não é escuro, apenas o túnel de entrada é. E as imagens vêm, vinham, abstraídas da realidade, distorcidas.

SEM COMPANHIA

Senti-me como outra pessoa após aquele banho frio de mar. Queria ter nascido ali, em meio àquelas espumas. Estes dias estavam fazendo-me bem! Tinha olhos para Jorge - verdade -, outros planos também, para ele, mas Circe havia sido tão receptiva, tão... amiga, que talvez eu repensasse tais desejos. Retirei-me à varanda, que na sua extensão podia-se observar tanto o mar como os montes no lado oposto. O dia trazia uma luz pastosa, nem conseguia distinguir algo por entre as árvores que se erguiam por trás. Nesta calmaria era como estar no céu, sentada ao lado de Deus numa confortável cadeira de espaldar alto, olhando para o mundo aos meus pés. E olhei o dia passar, naquela lerdeza também se iniciou a noite.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

ANÍMICO

E estávamos lá. Eu não dormira aquela noite. Não mesmo! A mulher azulada na beira do mar... e inclinava o rosto para trás. Os cabelos que cobriam em parte os seios, intensificavam a sinuosidade de seu corpo. Podia falar em mais de uma, pois a cada movimento ela se fazia outra: mais intensa; exuberante... Olhar era como sentir o gosto dela na ponta da língua, doce. Por mais longe que eu estivesse, seu cheiro me encontrava, envolvendo-me, poderia ficar em transe. Os movimentos copiosos pareciam querer dar ritmo ao próprio mar, tinham uma força imanente que sobrepujava a imensidão marítima, vinda do próprio vento. Jorge levantara durante a noite, não conseguira dormir, por isso resolvera ir ver o mar. Estavam a dois dias na casa de praia: Jorge, Circe e Abgail. Não esqueceria aquela primeira impressão, lá quando vira Abgail pela na rua: olhos que prometiam sofrimento. Aquela dança duraria a noite. Circe dormiria até tarde, parecia morta, ou numa preparação para ressuscitar. Voltei para a cama. Ela não percebera minha ausência.
Uma postura - diria ser mais como um código - permitiu-me viver muitas aventuras sem maiores contratempos, ou mesmo aborrecimentos: as conquistas sempre foram em terras longínquas. E agora eu estava à beira do precipício, diria mesmo que ele estaria a me envolver. Comemos já no início da tarde: frutas. E quando estávamos os três dispersos, vi Circe na escrivaninha, próxima à janela, como nos tempos em que ainda escrevia. Parecia ser ela novamente. Pessoas sozinhas, não solitárias.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

BATISMO NAS ÁGUAS

A vida recomeçara. Ao levantarem cedo, na fria manhã daquele domingo, o calor parecia vir de seus corpos. Estavam dispostos a recomeçarem e isso estava a olhos vistos. O cheiro de terra denunciava a chuva prévia. Cheiro gostoso de terra. Circe lembrou-se dos passeios matinais com sua mãe. Iria à orla caminhar com Jorge. Juntos por que a vida também recomeçava assim: corpo e alma. E precisava acreditar naquela possibilidade da reconciliação, da renovação dos votos. Não sabia se Jorge teria sido infiel. Não importava. Precisávamos nos movimentar. O corpo tende a parar, com o passar dos anos, se não nos damos às tarefas: a morte fica mais próxima; o raciocínio lento. No pouco que me lembro de minha avó, consigo constatar isso: perdida no tempo, numa contemplação em nada, apenas ver o tempo passar. Prontos que estávamos, fomos caminhar. Era como se todas as pessoas tivessem decidido pela mesma renovação de vida: unir corpo e alma. E íamos a favor daquela correnteza de pessoas, cada uma delas imersa em suas realidades que facilmente seriam conflitantes se não estivessem restringidas ao nível pessoal. De repente, recebo um impacto, vindo em sentido oposto a maré, uma mulher me pede desculpa, ela parece conhecer-nos, ao menos de vista, e ao olhá-la por uma segunda vez, também acho o mesmo. Bastante simpática, elogiou-me e como encanto parecíamos conhecermos uma à outra. O interessante é que a conversa entre nós três pareceu-me agradável. Seria a primeira vez em que teríamos uma amizade em comum, eu e Jorge. Seria algo inusitado.
As pessoas constroem barreiras sócias difíceis de transpor: não se cumprimentam como antigamente; não se ouve mais um Bom dia. Os interesses são individuais, competitivos. Não se pode confiar em ninguém. Não numa primeira vez. Acuados que estávamos fomos à margem. Precisávamos conversar: aquela era nossa nova vida e àquela necessidade de fazer o novo, sem planejar, deveria ser fluente como a vida. E a energia estava em equilíbrio, eu sentia. Acompanhava com meus olhos as pessoas que passavam indiferentes e distantes. Tudo o que conseguira em verdade observar, diria resvalar, como a brisa ao final da tarde em nossos rostos, eram indivíduos dormentes em suas vidas inacessíveis, dentro das quais não permitiriam que ninguém se aproximasse. São fantasmas de si mesmos. Eu não era mais.

SIMILITUDES

Olhava aquela família e era como se olhasse mesmo a esfinge, a que propunha enigmas para, se não respondidos, devorar os viajantes. Abgail seria uma viajante frente a sua própria família. Sua esfinge. Seu mostro particular que lhe propunha enigmas. Ou quem sabe um mundo. Um mundo! Sim, isso mesmo: aquele grupo de pessoas que ela chamava de família seria um mundo. Talvez Abgail fosse um satélite desse planeta que, com a força característica de seu movimento, poderia desprender-se dessa órbita e vagar pelo vazio do espaço. Mas ao contrário, por mais energia que gerasse - com seu movimento - apenas se afastaria o mínimo possível e sua existência não seria tão duradoura para totalizar o tempo necessário para desvencilhar-se. E então, passar pelos percalços dessa convivência seria um trajeto inevitável. Mas Abgail não se sentia... não se sente confortável nesta situação. Os problemas familiares parecem sugá-la para esse turbilhão. E mesmo morando em outra cidade, os laços consangüíneos são amarras impossíveis de serem desatadas: o pai inacessível; a mãe permissiva; o irmão fugido de casa... Resolvera caminhar na orla. A água deveria estar fria. Acreditava que sim. Um banho naquelas águas congelaria o sangue. Caminhar. As pessoas vinham de encontro a ela e passavam, desconhecidas que eram: amigos; solitários e seus cães; ciclistas... a vida que não cessava.

Não se pode fugir. Criar um mundo próprio para se abstrair da realidade não é a resposta. A força interior de Abgail seria suficiente para que ela siga sem tropeços. A vida que leva parece-se com um trem nos trilhos: estuda o que gosta e já está, digamos, inserida no ramo, pois o estágio na empresa de publicidade e designer lhe pouparia metade do percurso. Continuou a caminhar contra aquela onda de pessoas, não queria ir com a correnteza, nunca se achou como os outros. Era diferente. Pensava diferente, ao menos em algumas coisas. E olhava para cada rosto incógnito que surgia. Reconheceu, um pouco à frente, um semblante que a interessara há algum tempo. Lembrou, claro. Buscara saber dele: casado. Parecia algo contra a natureza, como morrer antes de um filho, essa minha busca fazia-me sentir assim, contra eu mesma, e sobre o filho, não saberia, ainda não tivera um. A mulher ao seu lado era bonita. Conversaria com ela, saberia mais dele assim. Cumprimentou-os. Elogiaria Circe: bela. Beleza incomum, diria, mas não, conteve-se. Pararam os três, ali, bem no meio da onda e se viram forçados à margem. Muita afinidade. Jantariam, quem sabe. Conversariam naquela sala de mesa quadrada, cadeiras de modelos diferentes, próximas à janela. As persianas seriam levantadas, a luz que entraria. O piso de taco e a lareira que nunca fora acesa, tudo contrastaria com o abajur que Circe trouxera como lembrança da mãe. Uma casa que compramos numa praia de pouco movimento. Tranqüila. Uma amizade em comum, talvez.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

SANGRAR PELO DECÁLOGO

A dor que sentia agora... Era melhor ter morrido. A vida esvaindo-se de mim. Então ele viria e me levaria em seus braços, salvando-me. Para trás, os touros vermelhos que me feriram. Por trás deles o homem que os dominava, que queria me dominar. A mulher ao seu lado, calava. Sentia uma ligação com ela, sentia-me parte dela. Pequenas folhas caíam como neve, mas rosa. Folhas de cerejeira. Tudo quente como um bafo de dragão. Eu - desfalecida - ia me apagando, sumindo e já distante, percebia, por trás daquela luz fina, uma névoa surgir. Quando se dissipou, eu estava ao chão, tocando a terra. Abri mais os olhos e era como se acordasse naquele instante, um momento de sonho. A morte de meu pai mexera comigo. Não sei mais o que fazer com o ódio que tenho guardado. As cicatrizes eram profundas. Não queria esquecê-las. E minha mãe as permitira. Idalino não estava mais no controle. Não em pessoa. Em seu lugar restava a dor. Na verdade resquícios psíquicos da dor que impusera. Agora, Abgail parecia refletir essa negatividade para a mãe: permitiu. Marta anuíra Idalino por todos os pisos. Talvez em troca de algo, não saberia. Não tinha como saber. E olhando para o passado, Abgail surpreendera-se com o contentamento de Marta: todos àqueles anos; sem voz; sem vontades; sem direitos... Abgail conhecia a mãe. Conhecia? Sondou a si mesma se deixara algo escapar. Se o rompimento daquela relação simbiótica poria um dos dois em desgraça. Enquanto o outro seguiria, indiferente. O telefone toca. Abgail mal esboça uma reação para atendê-lo. Não quer. Ele insiste. Deveria ser o fim do mundo para tanta insistência. É tarde de sábado. O tempo frio só contribui para a vontade de continuar na cama. Não. Não vou atender.
Mergulhar na cama. Inundar-se nos lençóis até sempre. Isso não trará respostas. A dúvida parece preencher a mente de Abgail. Um corte na alma! Prescindir do que nos é ensinado - a santidade da mãe e pai - o real caráter deles. Afastar dos pensamentos a mão pesada da religião: honre pai e mãe. Eles são falhos, são como nós. Mas teriam direito a fazer tudo? Teriam a supremacia de arrasar as vidas de seus filhos? E perceber essa igualdade parece doer. Corri. Com as forças que tinha, eu corri. Quando passei pelo portão, de relance olhei para trás e ela me perseguia. A menina era enorme, dava duas de mim. Provocara-me atirando minha sandália à lama. Partiu para me agredir. Apenas me defendi. Quando entrei, ela esbarrou na porta de casa. Como um cão raivoso esbaforia meu nome: Abgail, mato-lhe! Apanhei neste dia, mas de minha mãe. Culpou-me, acho, por me defender. Pensava que ela estava certa. As nuvens não são feitas de algodão. Ela teria alguma culpa, em tudo? Não apenas neste episódio, em tudo. Meu pai tem, teve. Largada na cama, pela noite, sem dormir. Que venha o domingo.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

AGONIA

Corria ao levantar-me da cama - bem cedo - para em frente à janela olhar com atenção a casa de nossos vizinhos, à direita da nossa. Nessa época, a cidade estava envolvida numa fina e incomum neblina que me permitia apenas ver ao fundo, quase sumida, a porta lateral por onde Cláudia saía. Era como se viesse ao meu encontro. Entre as duas casas, havia uma árvore que nesse tempo frio perdia todas as folhas. Minhas melhores lembranças são de Cláudia me chamando para alguma brincadeira: Jorge! Vem, Jorge, você demora muito. E assim íamos correr em volta dessa árvore, nossa árvore! Certa vez fomos ver o mar. Apesar das recomendações constantes de vovó, conseguimos aproveitar aquele dia ao máximo: nadar; correr; fazer castelos parecia coisa de criancinha, mas ela gostava. Mesmo nublado, o dia estava bonito. Ficamos, ao final da tarde, observando os raios do sol quase trespassarem as densas nuvens. As pequenas ondas vinham umas sobre as outras e nós - ali atordoados com a beleza chumbo daquela luz tardia - nos perdemos nesta contemplação. É o dia que me recordo mais.
A dor da perda deve ser a maior laceração infligida ao ser humano. Tão intensa que pode ser capaz de matar uma pessoa, de fazê-la definhar após hauri-lhe as forças. Jorge conhecerá está dor nos primeiros fios de vida. Logo no despertar interior das sensações afetuosas. Hoje Cláudia não o procurara. Ele passara a manhã e boa parte da tarde sentado, ao pé da janela. Sentira como se algo ruim estivesse prestes a acontecer. Como se tivesse perdido algo, ou por perder. Não sabia como livrar-se dessa angustia. Os avôs disseram para não ir à casa da amiga, que ela não podia sair... A noite esfriou logo de início, como um pressentimento das tristezas que surgiriam com ela. Com o avanço das horas, o silêncio fora cortado por um grito de desespero. Cláudia, aos berros, pedia para seu pai socorrer-lhe das dores que ela sentia no peito. Pedia para ele livrá-la da pressão que irradiava para a cabeça e deixava, nas têmporas - assim disseram -, suas veias em tempo de romperem-se. Cláudia era portadora de uma doença congênita cardiovascular que fora responsável por sua partida precoce. Cláudia fora minha primeira grande perda.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

OBRIGAÇÕES SOCIAIS

Eu nunca quis sair do litoral. Seguir para o interior do Estado foi uma fuga, mas era preciso fechar esse círculo e, assim, retornar ao início, até mesmo como uma maneira de sanar tudo o que me acometera. Benoni era meu quarto filho. Possuidor de uma voz melodiosa e de um dom - disso tinha certeza - musical incrível. Seus dedos pareciam terem sido criados para os instrumentos de corda. Ele tinha um apreço especial pelo violão. Os acordes eram perfeitos e suas dissonâncias, fora do comum. Das vezes que estive internado, ouvira falar de uma moça que sentia os sabores dos sons... se ela alguma vez ouvisse Benoni tocar, diria ter provado o manjar dos deuses. Apto que era. Pensei promover-lhe a carreira. Dar-lhe aquele apoio próprio dos pais. Se bem que não tinha vocação pra mais nada. Trabalho braçal, com aquelas mãos, nunca e eu sabia. Dormia tarde e acordava mais tarde ainda. Vida boêmia. Espero que respeite os limites próprios. Pai, o senhor marcou a data da apresentação? Quatorze de julho, no canal treze. Estou comprando os instrumentos necessários para você montar sua banda. Ele ainda tinha dezessete anos.
É natural que os pais façam esforços pelos filhos, de modo a permitir que esses filhos tenham oportunidades. É da natureza humana. Seria uma maneira de perpetuar os genes, de comprovar que sua seiva seria superior. Marta preste atenção: a esta hora Benoni não entra. O filho possuía as chaves do portão e das grades, o que lhe permitia apenas o acesso até o terraço, mas não tinha as chaves da casa. Ela - angustiada - afastou as cadeiras e pôs um colchão de solteiro ali, alguns travesseiros e uma coberta. Pressentira o frio e não queria que Benoni se resfriasse. Com cuidado, ele adentrou os limites possíveis e aconchegou-se na cama improvisada. Alguns minutos depois, percebera o basculante abrir. Ouvindo o sussurro da mãe “Boa noite, meu filho!”, sentiu-se protegido, não demorando a adormecer. Para Marta, a noite seria longa.

domingo, 31 de janeiro de 2010

SÉQÜITO

Moveu-se diante dele, não discernira as palavras que ele pronunciara e pensou, naquele instante, que por um segundo estivera distraída. Jorge falara, como ela queria, apesar dela não saber o quê. Ele agora se mostrava pensativo. Consegui captar-lhe algumas expressões curiosas, era como se quisesse compreender algo naquela situação. Havia uma inquietude, mas não demonstrada, não explícita... eu percebia isso, quanto mais me demorava a dizer algo, sentia uma postura diferente nele, uma estranheza. Não se encontravam um frente ao outro, os olhares não se trocavam de forma direta, eram oblíquos, alternados e a conversa não se delineava. Muita coisa deixara de acontecer e eles pareciam - e não deveriam parecer assim - como se não tivessem uma meta, como se não tivessem planejado algo. Desde as palavras, sim, as palavras estavam escolhidas e agora, no mesmo ambiente, estavam perdidos. Longe um do outro por não saberem o que lhes ocorria, o que o outro pensava ou por que agia de maneira diferente. Jorge suspira. Nessa hora Circe o fita, perscruta-lhe sobre a causa daquele suspiro. Jorge silencia, de maneira tangente, fala algo sem coisa com coisa. No fim, diz que está cansado, precisa de um banho. Essa noite não fora fácil.
É verdade que os casais não precisam ter tudo em comum para que as coisas se encaixem - mesmo que isso ocorra numa percentagem irrisória, até sem representação. E esses milagres, quando ocorrem, partem de uma harmonia inerente a relação. Algo até mesmo sem lógica. Muitos dizem: nem sei por que estamos juntos. E os motivos parecem não serem suficientes, mas continuam. Jorge aproxima-se, senta-se ao lado dela. Segura aquelas mãos ainda frias do banho. Desenrola-lhe os cabelos, liberta-lhe a cintura da toalha. Sente o aroma da pele, fresca ainda e macia que era. Circe entrega-se aos braços dele, quer se entregar e já nem lembrava por que tudo aquilo, nem precisava, nem queria saber o que ocasionara aquele mal-estar entre ambos. E estavam como um, ela ao colo dele. E abraçava-a como se fosse carregar uma criança nos braços. Tudo se apagava, só eles restavam, abraçados. E parecia ser noite. O dia transcorrera assim, parado.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

FILHO PRÓDIGO

Após aquela noite, que papai fora me buscar no cabaré, lá no meio das quengas, depois da surra que ele me dera, juntei minhas coisas no silêncio da madrugada e parti. Não sabia para onde, mas sábia que devia ir. Fora necessário uma semana para me recuperar direito. Imagine: uma semana entre a vida e a morte. Digo isso não por ter ficado hospitalizado, mas por que até as raízes do cabelo me doíam, os ossos me doíam. Camarada, aqui pra nós, para os ossos doerem... foi daquelas que o sujeito que a leva nem morre nem fica vivo, ao término, fica arfando.
Cimon fora em direção ao extremo norte. Ouvira dizer que trabalho para aquelas bandas não faltava. Serviço duro, mas o sujeito tinha como se manter. Papai sempre dizia que onde tem trabalho se vive. Agora ele estava por conta própria e isso começava a ficar claro. O dinheiro pareceu contado. Só dera para custear a passagem e a alimentação. Seis dias de viagem, minhas pernas já estavam entrevadas. A sorte parecia estar mudando: ao chegar ao destino, ouviu alguns homens comentarem que uma fazenda estava contratando. Os homens informaram-lhe o local onde o recrutamento estava sendo feito. Ao chegar lá, Cimon nem quisera ouvir as condições, deu logo o nome para a lista. Aqueles que estão dispostos a começar o trabalho o quanto antes, tem um pau-de-arara saindo em dez minutos! Começar o quanto antes seria garantia de sustento. O caminhão saiu lotado de homens com uma única afinidade: conseguir sobreviver.
Mesmo tendo nascido numa família de classe média, poderia considerar-se rico. Idalino nunca deixara faltar nada. Agora arrancaria da terra o sustento com as próprias mãos. De finas que eram quase não suportaram os primeiros dias. Ia agora aprender a escrever com enxada, facão, machado... e o aprendizado se firmaria nos calos das mãos. Trabalhou a primeira semana, mais uma e outra sem receber um centavo. As jornadas eram de quinze horas, no mínimo. A alimentação era como a lavagem dos porcos. A surra do pai era um carinho agora. Fim de um dia de trabalho: homens armados mandavam que os trabalhadores se organizassem em fila. E seguiam em direção ao alojamento sob a mira, sem direitos, apenas o de morrer agora, pois o de nascer já havia sido usado. Barracos de folhas de compensado, colchões ao chão e o medo constante era a última coisa de que se lembrava antes de dormir, quando conseguia.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

ÚLTIMO

Segurou a barra da saia puxando-a, com voz ritmada olhava para ela e dizia “Mainha! ‘Cocoito’, mainha!”. Todos eram “mainha” para ele. O menino perambulava pela casa inseparável de seu velocípede. Esbarrava nas pernas da mãe e da avó o dia inteiro. Cendira metia-o num macacão quadriculado com um bolso na frente e a inscrição “Buaa”, embora não fosse criança de chorar. Era ativo. Nunca vira um menino andar tão rápido num treco desses: um rastro amarelo e vermelho, indo e vindo sem parar. Filho do primeiro casamento. Cendira não tinha relacionamentos duradouros. Não fazia idéia de qual seria o problema, se é que teria um. Casou-se nova, como a mãe. Só uma coisa livrava-a do sofrimento das desilusões, de maneira aparente ao menos: era mulher prática. Sempre pôs o raciocínio a frente dos sentimentos. O primeiro marido a deixou. Ainda grávida, viu-se sozinha e tendo que trabalhar para se manter. Apesar de ver seu pai como um homem bruto - não que o fosse com ela, especificamente, mas a maneira com que tratava a mãe: severo e controlador. Não via necessidade disso, não conseguia entender. A mãe diversas vezes se abrira com ela, que não imaginava até quando suportaria. Marta vivia de rotinas. Por que controlá-la? Que males teria feito para ele suprimir-lhe a liberdade? -, após o disquite - ainda não havia o divórcio - voltou a morar com eles. Tentou outras vezes. Por um tempo viveu sossegada com um homem trabalhador, mas só por um tempo. Era guerreira, mas a motivação parecia estar esgotada.

Lembro que Miriam dizia que Cendira era fraca: voltar à casa dos pais, depois de tudo que vivera... é humilhante! Nunca achei isso. Cendira é uma mulher marcada. Merece que acreditemos nela. Não sei qual a tensão entre as duas, mas se bem conheço Miriam, com aquela ligação, ela deve estar vindo. Abgail acabara de chegar. As vestes ainda molhadas, as impressões daquelas ruas... Após trocar-se, especulou por que a condição da irmã viera-lhe ao pensamento. Lembrava de quando as duas se pegavam: a mais velha e a mais nova. Sobrava para ela, a do meio. Essa vinda de Miriam - se é que ela vem - não vai dar em boa coisa! Como é possível cinco irmãos serem tão diferentes?

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

OUTROS LUGARES

O peso do ar sobre os ombros. A força para manter-se ali, estática. A pele fria. Ela - prendendo a respiração; cerrando os lábios - apelava no íntimo para que Jorge falasse, pois a boca estava num indo de sublevação, num levante contra seu próprio ser. E falar, assim, sem controle, seria uma batalha perdida!
Chegara com Jorge um cheiro que o acompanhava nestas ocasiões, um cheiro de indiferença. Os sons, também característicos, eram leves, distantes, como se não quisesse ser ouvido. Se olhasse para ele, e nem precisava, veria uma expressão natural, tranqüila. Seu olhar poderia ver através de mim, me perpassar. Não meu íntimo, isso não! Mas como se eu não estivesse ali. Ela nunca conseguira mantê-lo num lugar, ou encerrá-lo numa conversa. Sempre escapa! “Impreciso” definiria Jorge assim, com esta palavra. Se pedisse para papai retratá-lo, o resultado seria uma mancha, sem contornos definidos. Acredito. Em qualquer quadro que fosse Jorge seria a única coisa indefinida na composição da tela: uma mancha sobre as árvores; uma mancha pescando no lago... Não parece que saiba quem Jorge seja ao certo. Mesmo juntos é como se não estivessem. Vago, distante, impreciso.

Suas expectativas eram de realmente nada acontecer. Sua espontaneidade era a estética de sua vida. Apenas aparente. Nela os pontos chegavam premeditados: o que fazer; como olhar; o que dizer, ou não dizer. O olhar desviado, como se procurasse por algo, desencontrava-se com o de Circe. A aparente imprecisão fora à custa de muita experiência. Jorge sabia desses modos. Dominava-os. Conduzia as situações sem se impor.

O desejo de chegar ao objetivo, de pensar que os fins justificariam os meios, seriam motivações necessárias a um pré-julgamento de personalidade? Poderíamos limitar um ser humano ao aspecto observável que seria a ponta do iceberg de experiências possíveis num oceano que tende a reprimi-las, mantendo-as submersas? Ao que parece, e isto tem sido claro ao longo dos tempos, a maioria acha que sim. Então Jorge fala. Diz alguma coisa que Circe não consegue discernir. Premeditado! A via de comunicação fora aberta. O plano segue. Logo ela nem lembrará por que devemos ter esta conversa.

sábado, 23 de janeiro de 2010

ESCUTE

“Pare. Olhe. Escute” o museu do trem - que eu uma vez visitara - trazia esta inscrição à entrada. Uma alusão aos cuidados que se devem ter na travessia de uma linha férrea. Escute.

Não suportaria mudar mais. Nem tenho saúde para isso, estou cansado. Não ligo se os males se repetirem, não mais.
O café era preparado cedo, ainda sobre o céu escuro: cuscuz; leite; ovos; pães e manteiga... comia pausado, mastigava bem. Era um momento importante. Fizera dele um ritual. Sentado à mesa, antes de todos, sozinho, Marta apenas lhe servia, ausente.
E a rotina, enfim, chegara. Dirigia-se ao trabalho - o mesmo; no mesmo lugar; todos os dias -, fora alocado numa fábrica de peças automotivas, pertencente ao grupo de empresas das quais faziam parte as usinas em que prestara serviço por tanto tempo. Idalino saia cedo. Os ombros encurvados, o olhar no caminho... Fazia sua caminhada compenetrado em si, abstraído do mundo.

Marta tinha seus segredos, Idalino sabia. Coisas que mexiam com a cabeça dele. Depois que a família voltou para o litoral, Marta se convertera ao protestantismo. Crente! Disse que a vontade viera em casa mesmo, ao preparar-se para ir a um culto. No espelho de seu quarto, viu seu reflexo retorcido. A imagem tornou-se repugnante: vestia uma calça pantalona, blusa de mangas curtas... De repente, apossou-se de uma tesoura e cortou uma após outra. Apenas vestidos e saias agora! Depois falou de um sonho que tivera: as calças manchadas de sangue, as blusas de mangas curtas mofadas... Era um aviso de Deus, só poderia! Ir a igreja era compromisso, o único local que Idalino permitia que ela visitasse sem sua companhia. Uma saída! E eram assim, algumas noites e certas tardes da semana: ir à igreja.
Parecia real, tudo aquilo, olhá-la naquelas vestes, como nunca a vira: o cabelo preso, os vestidos longos. Tranqüilidade?

Sempre, em suas manhãs, caminhava absorto como um cego em sua própria casa, já não precisava tatear: as ruas estariam ali, as mesmas esquinas, o viaduto antigo no qual se via o metrô por baixo, o novo mercado público, o largo da igreja católica... passou por esse trajeto tantas vezes e mesmo assim não saberia descrever nenhum detalhe. Distante em pensamentos. Lembrara, depois, de duas placas sobrepostas, como um “x”: “cruzamento” e “via férrea”. Eu sei que olhara, sei! Antes de cruzar a linha, olhei para os dois lados, mas não escutei. Uma coisa salvou minha vida, na verdade um paradoxo: a locomotiva diesel-elétrica, fabricada pela English Eletric da Inglaterra - pesquisara muitas possibilidades para aquele milagre. A locomotiva é revestida com chapas de quatro milímetros, o que lhe dá certa aerodinâmica, e este contorno - ao que parece - teria sido crucial para apenas me arremessar a aproximados vinte e cinco metros. Devo salientar que o choque não fora frontal, outro ponto ao meu favor. Não havia sons, nenhum. Não escutara nada. Não havia plataforma, nem porteiras que avisassem do trem. Não havia ninguém: eu e o caminho, por todos aqueles dias, até aquele momento. Segundos depois, fui segurado pelos baços: ainda estava caído nos trilhos. Não estava só!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

SEM CONTRAPOR

Quando entrei, percebi a figura de Circe muito quieta, ao sofá. Ela estava de costas. O cabelo, ainda molhado, escapava-lhe de uma toalha azul, enrolada à cabeça. Nas costas nuas, notava-se sua tez recém-enxugada: os poros se abriam; os pêlos eriçavam... Nelas, o vinco sumia-lhe dentro de outra toalha, à cintura... Circe era mulher desejável. Não sabia. Respirava com dificuldade, como se suas narinas estivessem obstruídas. Entrei em silêncio, não pretendia ter a conversa para qual fora intimado. Não se moveu. A combinação da textura das toalhas - aveludadas - com a suavidade mármore de sua pele, o tom de sua pele, tornavam-na uma escultura, como aquelas que tantas vezes ela planejara ir vê-las em algum museu. Quando me ouviu, um movimento de constrição foi iniciado, como se contraísse o ventre, preenchendo os pulmões. Com este ato, tudo parecia ter parado. O próprio tempo, com este quase imperceptível movimento, já não transcorria. Fiquei paralisado, imóvel de olhar aquela imutabilidade. Nem a brisa, que entrava pela porta que eu deixara semi-aberta, era capaz de mover-lhe um fio sequer. Senti-me combalido. Sua constância sólida me afetou. Não imaginava que mudanças haviam sido operadas nessa mulher, nem poderia dizer ser a mesma.
É verdade que esta atitude parecia ser algo novo em Circe. E é verdade que o ser humano também é um animal que responde a estímulos, e assim - é possível pensar nestes termos -, as novas atitudes de Circe seriam uma resposta as causas que Jorge lhe impusera. Qualquer observador - desde que imparcial - poderia chegar a esta conclusão. Cabe-nos aqui perscrutar sobre um ponto: por que agora, se estavam casados a tanto? Qual teria sido o gatilho, o estopim para o desencadeamento desta transformação?
Ao instante, deu-se seguimento, o tempo recobrara sua força. Com precisão, Circe volvera o rosto para próximo de seu ombro direito, em direção a Jorge, num movimento de oposição ao seu próprio corpo. Pesava-lhe, na respiração, certa ansiedade. Não acredito que tenha algo a ver com insegurança, diria que desejo. Sim. Desejo de livrar-se daquela obrigação - e era isso que sentia - da inevitável conversa. Aqueles dizeres guardados, prontos e esperando para serem descarregados, todos, de uma única vez. Os lábios vacilavam - loucos para desobedecerem - e ela continha-os.

Seria difícil. Sem um plano de contenção seria difícil. Na maioria das vezes, quase sempre, antes de uma cena como esta, já teria mentalizado o andamento, o esboço das palavras a proferir. Só teria que adequá-las na situação, isso se surgisse algum imprevisto. Sentei-me no sofá, oposto à Circe, ainda calado e compenetrado no que diria. A deixa seria dela.
Jorge sentara. Circe a sua frente, insistia em permanecer virada para o outro lado. Por maior que fosse, o elefante estava presente, mas sem ser molestado por ninguém. Permanecia, permaneceria ali, naquele clima pesado. O ar congelável surgia nas faces mediante expirações, branco, quase palpável. O lugar mais sem vida deste mundo era, sem dúvida, esta sala.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

COMPASSO

Pedi que o táxi parasse. A chuva cedera um pouco. Desci do carro, armei a sombrinha e me coloquei a andar. Tinha o costume de vagar nessas imediações: casarões velhos, paredes sujas, até mesmos alguns edifícios antigos - de no máximo dois andares - encontrávamos por ali, poucos que ainda restavam de pé. Os edifícios antigos se mesclavam com as construções irregulares - barracos de tijolos, cobertos por telhas de amianto -, as paredes salpicadas de cimento maltratavam os desavisados. Era um mundo que evocava uma harmonia diferente, não premeditada. Não gostava das coisas preconcebidas e isso influenciava na visão futura, da carreira que escolhera: designer. Estas caminhadas ajudavam. O que não ocorrera com a conversa que tivera com a mãe. Não aliviara minha tensão.
A morte de Idalino deixara um vazio. Abgail parecia suprir esta ausência e a desorganização familiar com os estudos, com o trabalho para se manter. A procura de uma harmonia no caos dos becos e vielas era como uma representação da busca pela harmonia na sua própria vida: serviria de justificativa, que mesmo no seio daquela família dissipada, iria levá-la a entender e aceitar sua história como igual à de tantas outras famílias. A felicidade não era a regra, mas sim a exceção.
Caminhou. Desnorteou-se, um pouco à frente, depois de passar por dúzias de ruas, ora pequenas, bem pequenas, e estreitas. Ora labirínticas e irreconhecíveis, mesmo que tivesse passado por elas outras vezes. Num certo ponto, parou. Um homem a olhava, aparado por um guarda-chuva de hastes empenadas. Sempre vejo você por aqui, está procurando algum parente? Negou de aceno. Ela procurava ordem naquela desordem. Ordem que daria sentido aos seus descaminhos.
Abgail continuou. Seguira até um ponto externo, uma das vias principais que contornavam a localidade. Sentou-se numa parada de ônibus. Juntou as sobrancelhas e, observando uma das entradas do bairro pobre, alongou a vista como se estivesse hipnotizada. Das telhas formavam-se cortinas, à frente dos barracos, de “cordas” d’água. Pequenas luzes vermelhas adornavam a estreita rua de acesso. Um emaranhado de fios - de energia; cordões; linhas - formavam uma teia sobre a rua. Á direita da entrada via-se um daqueles edifícios: dois andares; paredes amarelas. Um limo, já engrossado pelo tempo, encobrira a maior parte das paredes deixando-as com aspecto de velhas, abandonadas. Pela fresta de uma das janelas - do térreo -, era possível ver a quina de uma geladeira, e acima dela encontrava-se uma caixa de bebida alcoólica. A chuva engrossava. Ao volver os olhos para a rua, fixou-os numa figura que percorria a viela. Os ombros contraídos, os lábios trêmulos, eram sinal de frio. Enquanto andava, dejetos eram arrastados à sua margem, pelas águas. Aquilo não era nada. Normal seria um sistema de esgotos, seria? Daqui, agora, todas as entradas pareciam iguais. Se olhasse em todas veria as luzes, os fios, as telhas, o sangue dos arranhões nos ombros. Não ouvia choro, nunca ouvira choro por ali.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

ÓBICE À LUZ

Receosa, Cendira dirigiu-se pelo corredor nos deixando a sós. A cada dois passos, olhava-nos, um pouco desconfiada, sondando-nos como se achasse que temos algo a esconder. Mamãe silencia e, após segurar minhas mãos, aproxima-se, lentamente. Depois, ela escorrega os olhos pelo corredor, numa última constatação de que estaríamos mesmo sozinhas, para ao final, fitar-me, talvez na espera da primeira palavra. Como mostrar os limites em que me encontrava? Abgail não poderia - nem se quisesse - mostrar-se decidida. Nunca chegara a uma decisão. Nem sabia por que deveria tomar uma. Sua mãe achava que a definição era necessária, que não se poderia viver em dois mundos. Mas cabe a Abgail, somente a ela. É dificultoso até pensar nisso.
As mulheres protelam as sentenças, restringem as perguntas à curiosidade sobre o cotidiano de cada uma, dos afazeres, da loucura do tempo: de como está quente no inverno e mais quente ainda no verão. Marta percebe que o assunto - a verdadeira conversa - terminara no limiar, no nascedouro dos pensamentos, quem sabe nem fosse ainda um pensamento e aquela conversa que teriam, morrera. Sabia que esse momento iria chegar, ou que nem fosse uma conversa, mas, talvez, um desabafo, mas chegaria.
Toda a vida, Abgail procurara atender as expectativas do pai. Quando descobriu que não poderia correspondê-las - não como ele esperava, não como a natureza mandava -, ou talvez não. Fechou-se num casulo. Mais tarde, a crisálida pareceu romper-se, quando dissera que sairia de casa. Mas era um ensaio, a borboleta forçando, tentando eclodir, criando a energia necessária para um dia voar, liberta em suas cores. Esse dia ainda não chegara e o amor que sentira, transfigurou-se em mágoa, remoída até hoje. E é possível que de uma forma mais intensa agora, após a morte de Idalino. Que assim, sem possibilidade de reconciliação, as coisas se tornassem eternas. Um veredicto final fora tomado, e nem toda a sorte do mundo seria suficiente para dar-lhe uma chance de voltar atrás, de remendar os cacos - se sobraram algum - daquela relação entre filha e pai.
De novo a troca de olhares, agora como um asserto de fim de conversa. Abgail dissera que não poderia ficar, precisava retornar ao trabalho, aos estudos. Neste instante Cendira adentra a sala: Mãe, Miriam ligou. Como uma nuvem, um quadro se compunha, aos poucos, na mente de Marta, um quadro de uma única cor, que ao entornar seu frasco ao chão - dessa cor que prevalecia -, agora um matiz se mostrava, de cores cada qual com suas peculiaridades, nuanças. Assim, a paleta - que outrora fora seu ventre - recompunha-se, de maneira paulatina, realizada nas cores que tinham os nomes de seus filhos. E sabia - diferentemente das pessoas que declaravam o contrário - que não tinham equivalência, que não se tratava de uma relação qualitativa: cada amor era diferente.

domingo, 17 de janeiro de 2010

DESREGRAMENTO

Antes de retornarmos, como dissera que iria fazer - eu, Marta e as crianças -, cometi um excesso. Havia montado uma mercearia, uma atividade para Marta e um encaminhamento na responsabilidade para Cimon - meu primogênito -, prestes a completar dezessete anos. Após a semana de trabalho, retorno e o que encontro? Um desfalque na mercearia, tanto em mercadorias como em dinheiro! Um pai de família sai para o trabalho em plena segunda-feira, ainda de madrugada, passa os dias naquele calor infernal das caldeiras, deixa a mulher e o filho mais velho, ambos cuidando dos negócios em casa e para quê? Diga-me você, para quê? Para quê um vagabundo pegue os maços de dinheiro no caixa e torre num prostíbulo? Por que foi isso o que aconteceu. Quando cheguei do trabalho e fui conferir o livro-caixa: nada bateu; as prateleiras quase vazias; e a mulher: mil e uma desculpas. Onde ele está, diga que eu vou buscá-lo? Bem, essas palavras foram num momento de cólera, raiva tamanha que descobri onde ele estava: estava mesmo num prostíbulo, ao final da rua, já um pouco afastado dos limites do bairro. Ele no meio das quengas, pagando bebida pra qualquer um, desfazendo-se dos frutos do meu trabalho. Cimon! Levante-se e passe direto para casa. Não abra o bico. Pai “vamo” tomar uma, aqui pai ó, com as meninas. Segurei-me nesta hora. Primeiro: cristão devoto que sou não poderia me demorar mais em meio àqueles restolhos de gente; segundo: mesmo sendo um lugar sem respeito, não teria o direito de fazer confusão ali. Na saída, enquanto endireitava os passos desse filho irresponsável, ele sugeriu que voltássemos e “quem sabe a gente se diverte um pouco com as meninas”. Meu excesso começou aí.
Na manhã seguinte acordei cedo, como de costume, para fazer a feira semanal de horti-fruti-granjeiros. Fui ao quarto de Cimon, bati na porta, estava entreaberta, a cama não fora nem desforrada. Nunca mais o vira, desde então.

sábado, 16 de janeiro de 2010

ANTE-SALA

Discutiremos a relação. Ele me contrariará. A isso, seguirá um silêncio. Ele passará a mão pelo rosto num movimento que se encerrará no queixo, comprimindo-o. Os olhos fechados, não contraídos; as sobrancelhas elevadas; as extremidades da boca decaídas; tudo harmonizará com outro movimento, no qual ele penderá a cabeça em minha direção e completará, assim, um gesto de condescendência. E encerrará a discussão. Dirá “tubo bem”, que eu estou certa. Sentará no sofá - que ele escolhera - e ligará para a ótica, perguntará a Teresa - a líder de vendas - sobre o andamento das coisas, ela o deixará a par de tudo. Irá até a cozinha. Servir-se-á do feijão tropeiro, cozinhado por ele próprio no dia anterior, a única comida que faz na minha ausência. Encherá sua caneca, que ele comprara na OktoberFest, de Coca-cola, pois não gosta de bebidas alcoólicas em casa. Sentará à mesa, sem minha companhia. Costuma comer sozinho quando discutimos. Ao término, levantará e lavará toda a louça, que ele mesmo sujara durante minha viagem. Acreditará que esse gesto me confortará de alguma maneira. Chamará a mim- talvez - para guardar a louça. Se não, fará isso ele mesmo mediante choque entre panelas e, quem sabe, alguma louça quebrada. Entrará no chuveiro e tomará um banho de mais de meia hora. Deitará na cama, no lado esquerdo por que acha que o colchão cedeu no direito. Eu me deitarei. Ele ficará de costas para mim. Ficarei calada. Perguntará se não daremos um beijo de boa noite. Tocaremos levemente os lábios. E dormiremos, sem que nada tenha mudado.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

HÍGIDOS ARES

Sentou-se sobre a cama. Os lençóis não estavam com o perfume dele, a muito nada aqui cheirava bem. Afagou os travesseiros, despedira-se desta cama já algum tempo. Não agüentava mais! Dormia no quarto ao lado. Abaixo da cama, por necessidade, ele mantinha um penico, pois não chegava ao banheiro em tempo hábil se não estivesse próximo a ele. O peso da perna e a falta de controle no braço, ambos esquerdos, dificultavam a locomoção. O odor impregnara o quarto, os móveis, o ar, aqui dentro tudo exalava urina. Mesmo agora, uma semana após sua morte, só consigo entrar com um lenço encharcado de perfume. A bíblia pousada sobre uma prateleira era a consulta mais freqüente. A sandália, ao pé da cama, que ele arrastara pelos cômodos da casa, era como um sinal de seu retorno, como se ele não morrera, tivera apenas ido visitar um parente distante. E isso me dava calafrios. A sensação de liberdade, mesmo com a idade, trazia leveza ao espírito, ao corpo também. Não desejava sua morte, mas não podia negar que ela trouxera uma perspectiva nova, de sossego. Cendira adentra o quarto, avisa da irmã: Abgail veio ver a senhora. A meia luz só permitira enxergar a silhueta da mãe. Supôs que ela estivesse chorando: mesmo não dividindo a cama, era uma vida em comum. Ao sair, aparentava melancólica, o cabelo um pouco desgrenhado, vestes caseiras, simples que estava. Sempre fora mulher vaidosa e mostrando-se assim, pensavam: ela sofre. Abgail acomodou-se na sala, não sabia qual seria a reação da mãe por ela não ter vindo ao enterro, ainda mais, ter dito que não viria. Mas a mãe sempre a acolhera, em todas as decisões. Ao se olharem, mãe e filha sabiam o que se passava uma com a outra. Eram as únicas pessoas da família que, no íntimo, guardavam um sentimento de rebelião contra Idalino, a diferença é que Abgail externou suas queixas. A distância foi mantida como um diálogo. As duas mulheres, em aparência, eram resultados opostos da incursão dele. Tomara suas vidas e as separara. Sem lágrima, abraçaram-se. Cendira deixe-nos a sós.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

TESTEMUNHO

E se quando eu chegar ela estiver chorando? Pôs as mãos nos bolsos ao descer do carro. Estacionara devagar, evitando o alarde da chegada. Indagou-se, uma vez mais, sobre como deveria agir em tal situação. Sabia como Circe era de prantos, de lágrimas muitas, sempre o comovera daí esta prolongação na vida conjugal, apesar de - e era convicto disto - saber que nunca cederia à separação, motivado pelo dinheiro. Acreditava que seria lesado, que seu esforço na estruturação da ótica lhe daria o direito pleno sobre ela. Não a dividiria! Estes pensamentos voltaram a sua cabeça. Sonhava com o dia que Circe imploraria pela separação, rejeitando qualquer percentagem no negócio, frente ao orgulho de voltar a ser uma mulher auto-suficiente, ela acreditava nisso e ele sabia. Poderia usar, bastaria prolongar o casamento até ele exaurir-se, até não restar nada. Mas o que ela pensaria de mim, naquele momento, na consumação de minha astúcia? De certo ela compreenderia, teria a claridade no pensamento do que eu fizera. Seria deslealdade minha, salvaguardar o fruto de meu trabalho? Amor houvera. Nem lembro mais - às vezes. Nunca pensei que fosse eterno. O amor, para mim, sempre fora uma coisa a se buscar.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

TERRA AGUADA

Se ele ainda vivesse, talvez este dia nunca chegasse! Atravessar estas portas, só em pesadelos! O batente da casa ainda era o mesmo, elevado, desde a última enchente, A enchente. Acontecimento triste. Acordei durante a noite, bem no meio da noite, e o piso estava espelhado, e depois, tremeluziu. A cor mudara. A sonolência havia afetado minha percepção, até o momento em que ele me chamou: Abgail, venha, coloque a bota e me ajude a suspender os móveis. Nunca chovera tanto, desde minha lembrança mais remota. Elevamos os móveis, todos. A água estava bem próxima ao lastro da cama. O bairro - a maior parte - era abaixo do nível do mar, um facilitador para tamanha catástrofe. E depois? Depois viera a falta. Terra de extremos! Depois viera a falta d’água. Os caminhões-pipa chegavam a intervalos de três dias: Abgail vá buscar os baldes. Os dedos avermelhavam, chegavam a ficar roxos. Um balde em cada mão e viagens infindas, torturantes como um ínfimo lapso de estadia no purgatório. E depois? Bem depois. Luzes, de variadas cores, no céu, como se viessem do espaço. Algo tão belo como a própria Aurora Boreal - que eu vira, num vídeo na escola -, essa serpentina não variaria em tão belas cores. A bela imagem parecia viva, e precedida de um estrondo, muitos acreditaram ser o fim do mundo. Ele pensara nisso, cogitara tal desfecho. Mas encostou-se na varanda da casa e observou. Perguntei: é o fim do mundo, papai? Com a seriedade consoante a gravidade que o acontecimento exigia: por que o alvoroço? Não teríamos aonde ir. Não me lembro do estrondo, só das luzes. Saíra na televisão que as luzes eram resultado de uma explosão na pedreira, que uma grande quantidade de explosivos fora detonada acidentalmente. Uma pessoa vitimada. Quando lembro, as lágrimas me vêm aos olhos. Poderia chorar por qualquer pessoa que morresse. Conhecida ou não. Mas não poderia chorar pela morte de meu pai. E não chorei.
Cendira estava à sala. Ao ver-me descaiu os olhos, murchou como um girassol ao anoitecer, e chorou. Buscamos os braços uma da outra, mas as minhas lágrimas, nesse momento, saiam pela tristeza de vê-la chorar. Onde está mamãe?

domingo, 10 de janeiro de 2010

ÂMAGO

Preferia a época em que viajava. Sei que os problemas tomavam feições novas, mas, em essência, eram os mesmos. É! Eles só mudam de R.G., se repetem. A princípio, percorremos o Estado, mudamos de cidade três vezes, em direção ao interior, a trabalho, fugindo das repetições. O Estado parecia... era como um lugar amaldiçoado. Por Deus, eu sempre fui um homem religioso e os votos de meu casamento são o que tenho de mais sagrado! Por isso mudar, conhecer pessoas novas. Rostos desconhecidos são como portas que nunca foram abertas, cheios de possibilidades. Mudar dava-me a chance de recomeçar, mas ali, até onde chegara, e sempre em direção ao oeste, ao centro do país, encontrara apenas mais daquilo que me acometera moral e espiritualmente. Era como se meu espírito estivesse assaltado por uma languidez crônica, tornando-o mais fraco do que eu acreditara ser, do que eu encobrira por décadas, mudando, mudando e recomeçando de novo, de novo e de novo. Os anos vinham como os filhos: um atrás do outro. Já eram três. E seguia: precisamos ir para algum lugar sagrado, voltarmos às origens. Via que precisava livrar-me dessa máscara, posta por mim e reforçada pelos outros. E fomos para terras novas: um Estado ao sul, o seguinte na divisa, na seqüência litorânea. E Marta veria sua família. Essa volta às raízes poderia reestruturá-la. Banhar-se nas águas de seus ancestrais. Reviver rituais antigos seja quais forem: desde uma simples reunião familiar a um sarau, ou uma conversa ao pé da cama, com um dos mais velhos.
Veio mais uma criança. Forte, assim diziam. A mais parecida comigo, ao menos em personalidade. Abgail crescera muito próxima a mim. Interessava-se por tudo que eu fizesse. A minha dureza não a afastou, por um tempo.
E a vida não estava como eu queria: precisamos mudar. Deslocamo-nos de mala e cuia, para o norte. Já que o estado ao sul estava carregado com as mesmas infâmias, iremos para o norte, ao próximo estado.
Como profissional o meu nome era reconhecido. “Artífice do ferro” Marta dizia. Trabalho não me faltava. Estabelecemo-nos. Então nascera nossa quinta criança, a quem batizamos de Cendira, sugestão de uma vizinha. Nunca fui chegado à vizinhança, levam aos maus costumes, o que sempre se repetia. Mesmo com o espírito fraco, me sentido fraco por dentro, tinha seis razões para seguir sem desistência, de acordo com meus preceitos religiosos, não importava o que achassem: coração de pedra; bruto. O que eu queria é que estivessem resguardados, de tudo. E eles eram: Cimon; Miriam; Abgail; Benoni; Cendira e Marta. A qualquer lugar que eu fosse, eles estariam comigo.
Por fim, voltei ao litoral de onde saíra: eu, Marta e nossa primeira criança. Enfrentar os fantasmas parecia melhor que criar outros. E minha saúde já não era a mesma.

sábado, 9 de janeiro de 2010

COMEDIDA FRIALDADE

A manhã fora fria. Desde ontem não prego o olho. Não sei dormir sozinha, não consigo. Os pés fazem falta: ele os junta aos meus; de vez em quando roça o dedão na planta do meu pé, sinto cócegas, é verdade, mas sem isso não durmo. A coxa pesa sobre minha anca. Ele agarra-me por trás, o braço passa pela cintura e a mão vai encher-se do meu seio, completa, em movimentos de contração como um bebê a segurar o seio da mãe, adormecendo. Quando queria provocar, sabia como fazer: resvalava, lentamente, o ombro naquele queixo - a barba por fazer - e as nádegas em movimentos circulares. Ele sabia. Agora só dormíamos, acostumados que estávamos com a proximidade de nossos corpos. Desde a noite de núpcias Jorge nunca dormira fora de casa. Na noite passada, depois de entrar e perceber a casa vazia, quis ficar sozinha, por isso não telefonei. Pensava em como ter uma conversa decisiva, uma conversa que esclarecesse o que está se passando entre nós. Não podemos continuar dessa forma - talvez não consiga sem ele. Será que colocarei os pensamentos em ordem, só em algumas horas sozinha? Venho protelando esta conversa a um bom tempo. Sinto-me, apesar de tudo, tranqüila. Acredito que ele me ame e não vá me deixar, assim, sem mais nem menos. Sei que nosso casamento está frio, mas nos separarmos... é demais.
Ligou-me cedo. Pensara que eu acabara de chegar. Quando lhe falei que precisávamos conversar, agiu naturalmente como se o tom da minha voz não denunciasse a importância da conversa. Preciso conter-me. Estes dias, na casa de papai, permitiram que refletisse. Importo-me com meu casamento e papai me aconselhara bastante. Lute, se isso importa. Mas só isso importa?

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

MOTIVOS

“Alzira” foi assim até o último instante, chamando-me pelo nome da irmã. A vira pela última vez aos... não sei ao certo, bem pequeno, criancinha.
O médico diagnosticara: esclerose. Então, foram embora as forças; as memórias; as pessoas não nos visitavam e agora nem notícias me indagavam para ter. Idalino não estava nas preces de ninguém. Se me ausentasse, mesmo por segundos, chamava-me - aos gritos - “Alzira!”. Os olhos ficavam irrequietos como se nada enxergassem, tateando no ar. Enquanto ainda andava, deslocava-se pela casa, perseguindo minha sombra. A perna esquerda era um peso, arrastada a amplo esforço. Não apenas a perna, mas o braço esquerdo também, esse, num movimento de pêndulo, expunha a falta de domínio. Seqüelas do acidente, na via férrea. Idalino fora chefe de caldeira, artífice do ferro. Viajávamos muito. A mudança de residência era constante, conseqüência das muitas usinas nas quais prestava serviço. Poderia - se desejasse - manter vínculo empregatício com qualquer delas, fincar raízes em qualquer desses lugares. Mas também havia outro motivo, que nunca confirmei para Idalino: ele apenas dizia que mudaríamos e calava-se. Nossos filhos choravam - inconsoláveis - por longas tardes e relembravam amiguinhos deixados ou as professora-andas, as mais meigas: as meninas as tinham como irmãs; os meninos se derretiam em paixões encantadas. Eu apenas recomeçava: lugares novos, hábitos antigos. Nossa união era de longa data. Casou-se comigo eu nem completara doze anos ainda. Contava aos filhos - posteriormente aos netos - que em algumas ocasiões precisei ser dura, valente, pois fui buscar o pai deles dentro da casa de algumas lambisgóias. Eu cuspindo bazófias: não estou aqui de brincadeira, cale-se senão quebro sua cara. O argumento funcionava, não havia contra-senso da parte delas.
De tantas mudanças, as crianças vieram a nascer em estados diferentes. Eu sei que ares sempre novos não faziam bem as crianças e a ausência do pai durante a semana, também. Até me afetava. Idalino acusava-me com o olhar, nunca com palavras. Não me fazia concessões: não passeava; não conversava com ninguém, durante os dias em que ele estava em casa; não opinava, nunca, em nada. E eu obedecia, na presença.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

SONHO DE PASSADO

Jorge dirigiu. Conduzido pelo subconsciente, trafegou em voltas tantas que, depois de certo tempo, teve uma sensação de “déjà vu”. Não àquela impressão que - normalmente - se tem de um lugar acolhedor, a outra, a que o forçava a franzir a testa, causando-lhe uma dúvida angustiante sobre para qual lugar estaria se dirigindo, e com isso mantinha-se a circunvagar. Em intervalos, as buzinas de outros condutores despertavam-no. Verdadeiros estampidos recebiam seus ouvidos. Essa espécie de transe durou um tempo. Ele mesmo não saberia precisar. Conseguira, apenas, a percepção de algo destoante nele mesmo. Despertado, estacionou. Foi quando se surpreendeu com o destino de sua viagem interna: o mar, bem à frente. Para Jorge o casamento era o mar, e trazia a dúvida consigo desde muito, nas palavras dos mais velhos “menino, o mar não tem cabelo!”. Sentou na areia; pés descalços; calça arregaçada; a água a tocar-lhe a ponta dos dedos dos pés: não passo daqui.

O mar estava agitado. Você não me sai daqui. Está vendo estes rochedos? Preciso atravessá-los, seu avô precisa de ajuda, lá ao fim. As pedras eram cortantes, mas com agilidade, a mesma de quando nova, conseguira passar para o outro lado. Via-se uma casa de máquinas que nunca soubera de que, mas algo chamava a atenção. O olhar fixava-se nas engrenagens e elas rodavam e o perigo parecia rondar. O avô já estava a salvo. Agora só via verde, a cor esmeralda tomava o campo de visão; o ar faltava; não havia nada em que se agarrar. Lembrara dos cabelos da irmã: ela nunca escapava. Disse pra não sair de onde lhe deixei. E era eu, contava como se eu tivesse feito àquilo. Como se estivesse sumindo em mar revolto, hipnotizado pelas engrenagens que, em aparência, deixavam o perigo lá, longe. E isso me pesava.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

MOEDAS

Deveria chorar, ou ficar abatida? Quem sabe tenho um daqueles passamentos, daqueles, típicos em pessoas que recebem notícias como a recebida por mim, hoje no final da tarde. Minha irmã caçula, Cendira, ligou-me: papai faleceu. A reação que tive? Bem, acho que não tive reação alguma. O senhor Idalino era como um estranho, pior: alguém para esquecer, sem o menor receio. Nosso laço de sangue, teria significado? O homem que me tratava com dureza, acre em todas as ações dirigidas a mim, seria merecedor de uma lágrima sequer - por menor que fosse - a rolar em minha face, ou mesmo ameaçar nascer e findar, ainda nos cílios? Chorem, não tenho lágrima, não para ele. Quis matá-lo, muitas vezes. Matá-lo muitas vezes! Com o tempo, nem isso. Despendera muita energia odiando. Estou compelida a entristecer-me, mas por minha mãe. Sofreu - calada - mais que os cinco filhos que teve.
Cendira calou-se ao ouvir que dissera a mamãe que só a visitaria depois da morte dele, e que não iria ao enterro. Pronto: ele morreu. No entanto seu corpo ainda está lá, só após o enterro ponho meus pés de volta àquela casa. E que ninguém se admire se, por esses dias, eu quiser por a casa a abaixo e reconstruí-la, não antes de queimar o solo com sal.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

AIS DA INFELIZ

Acordo e me pergunto onde devo estar. As costas me doem, acho que dormi neste tapete. O corpo cheio de marcas. Devo ter me coçado pouco durante a noite, felpudo o tapete. De quem deve ser o apartamento? Não é da minha última conquista, é muito sofisticado e tem um “quê” de quem gosta de arte. Procuro meu sapato, aliás, minha roupa. Como cheguei aqui? Rezo pra não ter sido carregado por nenhuma coroa metida, enfiada numa cinta-liga até o pescoço e levado - em coma alcoólico - ao seu antro de predição, onde ela papa os anjinhos loucos pra botarem a mão no dinheiro dela, e usufruírem de um apartamento decorado por alguém que ela nem lembra o nome. Merda! Cadê o sapato? A sala estava arrumada demais para alguém ter feito sexo. Eu acho que não fiz. Que porre! Merda, cadê meu sapato? Essa deve ser tarada, tem a escultura de um pênis na mesinha da sala. Onde eu me enfiei!? Ei, estante legal, tem o estilo de Circe: muitos livros; réplicas de esculturas gregas; borboletas empalhadas. Circe adora colecionar borboletas, acho que mariposas também. Que se dane, vou embora, que merda de sapato! Sair evitará outra decepção, e duas em menos de uma semana... ninguém merece. Chamo o elevador, ele demora muito. O problema é minha cabeça, está do tamanho do mundo. Vomitar, não. Dou um sorriso forte - contrair a musculatura do pescoço ajuda, aprende-se alguma coisa nas noites de bebedeira. Desço as escadas. A chave do carro está no bolso, mas onde está o carro? Só me falta perder o juízo. Não me lembro de conversar com nenhuma mulher; nem de dirigir; muito menos onde estacionei, se estacionei. Ativo o alarme, para minha sorte o carro estava na garagem do prédio. Sigo pra casa. Quantos dias, Circe ficará com o pai? Estou cansado de comer fora. Ligo pra casa, pra verificar se ela chegou, hoje já é domingo, cinco dias... Alô, Circe, chegou agora pela manhã? Chegou ontem, mas por que não me ligou, não teria ficado até tarde na ótica, dormi no sofá, estou todo quebrado. Daqui a pouco eu chego. O quê? Quer conversar comigo? Certo, assim que eu chegar em casa, falamos. Desligo o telefone. É agora que suspiro: lá vem bronca!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

NORMALIDADE

Moça! Sente-se aqui, eu lhe cedo o lugar. Mal posso acreditar que encontrei um homem cavalheiro, nos dias de hoje é coisa rara!, pensei surpresa. Noutro lugar ficaria cismada, mas aqui, no metrô... realmente deve querer ajudar. A maioria pediria minhas bolsas e sacolas, permanecendo sentada. Quem sabe seja um sinal de esperança. Quase não tenho mais fé em nada, nem em meu casamento. Mas vou tentar, “lutar” como disse papai. Rapaz prestativo ajudou-me a desembarcar as malas e até travou a porta do trem, para dar tempo de descer tudo. Os passageiros ficaram irritadíssimos. Deve ter tido uma boa criação, sua mãe deveria perguntar-lhe - quando criança - “Como é que se diz?” e ele meio acabrunhado respondia, enrolando a bainha da camisa entre os dedos, “Obrigado”. É! Faz tempo que não me pego imaginando a vida de desconhecidos. Me dá vontade de escrever. Horrível é quando vejo aquelas bolas de papel... amontoadas me fazem desistir. Às vezes me apanho em autocríticas tão severas, fico quase paralisada. Problema que não me deixa voltar a trabalhar. Acho que deveria buscar ajuda profissional. Criar novas realidades era meu maior prazer. Desse jeito se matiza a vida com as cores julgadas mais pertinentes, variando a paleta de acordo com o drama. Que cores estariam dispostas na paleta dos meus dramas? Mulher casada; sem filhos; casamento em crise. Minha vida dá um romance.
Quanto deu a corrida? Vinte e três reais. A senhora teria os três trocados, ou uma nota de um? Não, não, fique com o troco, eu estou apressada. Só lhe peço o favor de colocar as malas na entrada da casa. Certo, senhora. Obrigado e tenha um bom dia! Quatro dias longe! Jorge, ajuda com as malas, estão pesadas. Jorge? Onde ele deve estar?

domingo, 3 de janeiro de 2010

LIRA DO PASSADO

Ele não confiava no “profissional” que contratara para ornar a igreja. O casamento estava marcado para as vinte horas e a noiva não se atrasaria, disso tinha certeza. Pegou o carro e dirigiu-se ao local da cerimônia e ao chegar confirmou seu pressentimento: a ornamentação estava diferente. Não foi o que combinamos. Não, mas eu sei o que estou fazendo. Jorge franziu a testa e retrucou reafirmando que não foi aquilo o combinado com a noiva. Nunca, nos meus anos de trabalho, nenhuma noiva ficou insatisfeita com minhas alterações. Nesse momento Jorge tornou-se ríspido, não havia tempo para discussões, já se passavam das dezenove horas e ele ainda precisava se trocar, não iria deixar a noiva esperando no altar. Mas você não está tratando com a noiva, eu sou o noivo e estou dizendo que não gostei. Quero que você faça do jeito que pedimos. Olhe, eu sou um profissional e jamais fui tão humilhado, nunca fizeram tão pouco do meu trabalho. O noivo respirou fundo. Muito obrigado pelos serviços prestados e, por gentileza, pode se retirar. Não se preocupe, eu cuido de tudo. Vá embora, já disse. Jorge olhou o ambiente, lembrou-se - não poderia esquecer - dos por menores, frisados por Circe, cada posicionamento dos arranjos; as pétalas de rosa aos pés das colunas; as fitas no corredor da igreja; cada detalhe. O celular toca: Circe. O que você está fazendo aí? Já são dezenove e trinta. Não vás me deixar esperanto, te mato, juro!
A marcha nupcial, aos ouvidos de quem casa, é a mais bela música. Linda! Apertou-lhe as mãos. O senhor Dagoberto consentira e aprovara a escolha do genro. Homem educado. Sabia entrar e sair de qualquer ambiente. A filha estaria em boas mãos. Ouviram as palavras do Monsenhor. Jorge fez a leitura das Sagradas Escrituras - como manda o ritual. Leram os votos, as promessas que deveriam ser cumpridas durante a união. E enfim o “sim”, tão esperado. Marido e mulher. Pode beijar a noiva.
Após o término da cerimônia, os convidados se dirigiram à recepção, aos comes e bebes. A festa. O casal demorou-se um pouco para algumas fotos. Ao seguirem para a recepção veio a notícia: quase que o bolo veio à baixo. Jorge juntou os dedos entre os olhos, cerrou o outro punho. Bicha dos infernos, tenho certeza que foi ele.

sábado, 2 de janeiro de 2010

MORTIÇO

Jorge ainda sente-se jovem. Tenho fôlego de um meninão, desses rapazotes que vivem a correr atrás de uma bola. Nos tempos de moço corria muito, mas atrás das meninas. De mentalidade jovem, trabalha com o que gosta e segue como se fosse viver para sempre. Proprietário de uma respeitada ótica, preste a abrir uma filial. Considera-se um empresário bem sucedido, acredita estar no caminho certo. O comércio é sua vida desde muito cedo. Diziam que tinha tino pros negócios. Dizia ser o sangue português nas veias, do bisavô. Já tentou se dedicar aos estudos - teve boa educação e mostrava aptidão -. Mas, sabe de uma coisa, nada melhor do que trabalhar naquilo que é seu. Acredita que o maior erro de sua vida foi ter casado. Não devia. E agora não dá pra aproveitar nada, a mulher sempre no encalço. Tento... juro. Eu realmente tento agir como um homem casado. No íntimo ouvia uma voz dizer que não tinha nascido pra isso. Cuidava bem da saúde. Era da opinião de estar com tudo em cima. Não vou deixar que me enterrem vivo, só por estar casado. Vou viver de maneira intensa.
A esposa avisara - esta manhã - que iria à casa do pai. Devia ser uma daquelas crises de Circe. Considerava o senhor Dagoberto um ótimo sogro. Nunca se meteu no relacionamento da filha e sempre respeitou as decisões do casal. Mas a Circe é um problema, dizia e dos grandes: nunca esteve satisfeita no casamento. Não era nenhum santo, mas as traições - não usava este termo - eram bem feitas. Não dou motivos pra ela achar que não sou um bom marido. Para ele o casamento estava acabado, desgastado com tantas brigas e discussões - via o reflexo desse mesmo desencanto, que o tomara, nos olhos da esposa. O que tinha convicção de não fazer era pedir o divórcio, não. Ela vai querer metade de tudo; e o trabalho de uma vida pra construir minha ótica? Agora que é um negócio sólido, não, não posso abrir mão de nada.
Quando Circe ia à casa de seu pai, nunca ficava os dias que dissera. Bem que nem me deixou perguntar dessa vez. Serão dias, no mínimo. Hoje planejou sair, espairecer a cabeça. Soube do um show de um cantor famoso. Será esse. O projeto era arrumar uma nova conquista e esquecer-se do casamento, quem sabe por uma noite ao menos. Estar com alguém que não traga o ranço de uma vida estressada, talvez renovar as energias, dando ânimo novo para enfrentar a rotina a partir do dia seguinte.
Abriu os olhos e assustou-se ao acender a luz: uma mulher deitada sobre o peito dele, despida e com insuportável cheiro de vômito. Beijara aquela boca? Percebeu em si que o álcool não surtia mais efeito. É um daqueles encontros que devem acabar antes de se ficar sóbrio, para as lembranças parecerem boas. Levantou-se com cuidado, não era preciso acordá-la. Ela não saberia ao certo quem ele seria e não teria a decepção de descobrir não haver a mínima possibilidade de novo encontro - desde que ele esteja sóbrio -, ou ele seria flagrado acompanhado de tão desafortunada criatura, em atitude suspeita. Pagou o hotel, também de quinta. Dirigiu um pouco, até um posto de gasolina. Bebeu uma tônica, ajuda na ressaca. Não colocarei os pés na ótica hoje, estou um fiasco.
Fico pensando se algum dia eu conhecerei alguém que me faça tremer nas bases, como a Circe um dia fez. Não sei onde perdi aquela mulher.