terça-feira, 29 de dezembro de 2009

SUPURANDO

Ela mora ali, próxima a casa dele, mesmo sendo curto, o trajeto dilatava-se. A distância agora era em escala de inspirações e expirações, sempre longas, protelando sua chegada, pois o tempo fazia curvas, demorando mais do que a devida medida. Sonhara com as palavras, como uma premonição. Elas deviam vir de algum lugar, prontas que as achava, sem necessitar de acabamento. Ensaio, talvez, somente para ajustar a entonação, a expressão da face. E seria convincente. Aquele senhor nada negaria. O primeiro ato já havia sido realizado: falar com Abgail. Pedido de casamento. Chegara ofegante na casa, ansioso. Já ia, quer dizer, pretendia já mesmo falar com seu pai. Não daquele jeito, como que apressado para corrigir algo, um erro quem sabe. É melhor caminharmos um pouco. Passeamos na praça e ao voltar falo com ele, está bem assim? Abgail concorda acenando. Decidido Estácio. Quando encerrava algo, nunca retornava àquilo para mudar. Ela estava longe. A mente pareceu estar longe, vieram à memória lembranças de pequena, na verdade de brincadeiras, a verdade é que de uma amiga... Passearam, tentaram conversar, mas o assunto sempre terminava no pedido. Quase a seu tempo, quase às claras o futuro que iria ter, a vida futura de esposa, mãe... seria? Nunca parou para imaginar-se sem Estácio, nem lembrava o tempo em que ainda não o conhecia. Acho que ainda namoramos por conta dele, só. Tinha medo de tomar as decisões, ele não! É mais fácil ser conduzida, não que se tomem tais atitudes de maneira consciente, não, mas o medo dominava. É melhor não demorarmos, sabe como é papai. Gostou das alianças? São lindas!

A casa era antiga. Vez ou outra passava por uma reforma, nada que mudasse seu aspecto. Era de pouca luz, móveis esparsos e cheiro de poeira, de coisa velha. Sempre úmida. Sempre fria. Abgail dormia no primeiro quarto, tinha muitos livros, a luz natural chegava mais fácil ali, lia-se melhor. O segundo era do pai, escuro, o odor lhe dava náuseas, ela evitava entrar lá. Era um homem forte, os cabelos grisalhos denunciavam-lhe que a idade já não era pouca. Sisudo em suas ações, na maioria, também era capaz da mais absurda brutalidade. Os estudos não lhe poliram as maneiras. Imperava na família. Era obrigada a tirar-lhe os sapatos e meias sempre que ele chegava do trabalho. Uma condenação, mas pelo quê? Vá, ande logo, tire, seu pai está cansado! Os pés eram pálidos. Podia-se desenhar-lhe as veias. As unhas encurvavam-se, grossas e amareladas, como garras. Presa, acusada de crime algum, quem sabe ainda iria cometê-lo, não teria mais contas a pagar, assim!
Marta - a mãe - estava à porta, esperando. Os horários eram rigorosos. O senhor Idalino mantinha as duas às rédeas curtas e a olhar para frente, apenas! Não acho uma boa idéia! Que? O pedido, pelo menos hoje. De hoje não passa! Ele estava à cadeira de balanço, onde passava a maior parte do tempo - dos anos poder-se-ia dizer -, a espera. Boa noite, senhor Idalino! Boa... Preciso falar com o senhor, um assunto sério. Diga! O pensamento de Abgail canalizara num ponto. Só conseguia pensar no que queria... pela primeira vez realmente queria casar. Diga rapaz, repare a hora, ande! Vim pedir a mão de sua filha. Indiferente, a fisionomia de meu pai. O que achar daquela expressão? Logo se descobriria.
Abgail não ouvira nenhuma palavra. Aquela cor, aquela cor! Deveria ser por completo daquela cor, por dentro. Os sinais, os sinais eram as unhas, amarelas, cor de pus, igual ao amarelo daquele escarro aos pés do pretendente. Nenhuma palavra, nada: olhares ou raiva ou desaforo, nem bravatas. Não foi à porta, nem procurá-lo depois. Nem podia, depois de tudo, o que dizer?
O futuro que iria ter, a vida futura de esposa, mãe... não seria.

5 comentários:

  1. Então vamos lá, mergulhar na aventura da criação, brincar de Deus. E lembre-se: "O talento é a eterna paciência" (Flaubert)
    Amanhã, com mais tempo, farei minhas "análises críticas".

    Valeu.

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  2. Gostei deste primeiro capítulo. Os quatro personagens - Estácio, Abgail, Marta e Idalino - mesmo em poucas linhas foram bem delineados.
    A descriçao dos pés de Idalino está bem feita, mas a referência às unhas amareladas reaparecem no final do capítulo, e isso talvez não seja interessante.
    Há sempre uma discussão quanto à marcação dos diálogos... reflita sobre o melhor modo de marcá-los de acordo com a história, com os personagens, com o narrador.

    Valeu.

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  3. Pobre rapaz, depois do escarro em seus pes nunca mais ira ver Abigail.

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  4. Gostei muito do primeiro capítulo, deu pra imaginar a cena toda... faltou descrever abgail, a mae e o namorado, noivo, prentendente fisicamente, nao é preciso, eu cá é que gosto mais...

    Gostei deste primeiro capítulo, parece uma novela... sidney sheldon?
    parabens!

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  5. Gostei bastante deste primeiro capítulo. Dá calafrios de pensar na figura do pai...Nojento e grosso!!! Gostei do casal, parecem jovens demais, quer dizer, eu tive esta impressão...Resumindo: gostei!!!!!!

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