quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

NASCIMENTO DE VÊNUS

Experimentar foi o que a levou àquele terraço. As luzes apagadas. A porta estava entreaberta, algumas pessoas à sala, na televisão. Sentaram no piso, frio. Esperou que alguma coisa acontecesse e ficou a percorrer, com a visão, os cantos escuros. O lugar mexia com suas percepções. O menino, que tentava aproximar-se, fazia emergi-lhe lembranças que sabia não ter, como algo que não a pertencesse. A escuridão é fértil para muitos desejos primitivos, os piores. Posso ficar assim, perto? Quase não pronunciou palavra de permissão. Esperava. Depois buscou por dentro, dela mesmo: nenhum sentimento vinha. Nada. Queria saber: seria do mesmo jeito que com a outra, de fechar os olhos e perceber tudo, o cheiro, a textura da pele, o coração acelerado, batendo cada vez mais forte e, se olhasse, certamente veria o rubor na face. Quando o sangue ferve ficamos vermelhos. Assim sentiu-se - várias vezes - com ela, depois desse calor de tocha. Mas não. Ele a tocou e beijou-a. É claro que retribuiu. Mas não, não vinha nada. Era como o chão, a parede, os dois frios, como ela.
Aos olhos dos outros esse desejo não pareceria normal. Não parecia desejo. Eles esperavam tanto pelo quê? O que esperaram de mim? Quiseram que ela fosse uma menininha, como as outras: brincar de boneca, de casinha e vestido rosa. Brincou! Brincara até conhecer novas travessuras, não de meninas, não de meninos, outras. Ser criança não é brincadeira! Os planos que são traçados para nós - não por nós -, tentam nos limitar, definir, como se pudessem nos encerrar dentro daquilo que vislumbraram, sem permitir que trilhemos nosso próprio caminho. Somos o que fazem de nós.
Eu sou o que eu quiser ser!, exclamou dessa maneira no dia em que se propôs a viver - de verdade - o que sentisse. Aquele dia me dá gosto relembrar. Hum, como dá! A imensidão figurada naquele sentimento, de tudo poder. Que sensação! E levitava, pois sair de casa a essa hora, nesta atmosfera de possibilidades, é como abrir os olhos ao acordar!
O sol intenso obriga a cerrar os olhos para enxergar em meio àquela luz. Saiu. A rua era mal alinhada, sinuosa, como as pessoas nela e sabia... melhor: sentia que a partir de então as escolhas fariam diferença e ao fim, aconteceria o que decidira.
As fisionomias das pessoas só se revelavam próximas, a alguns metros. Um dia claro como a expressão que denota a geração de uma vida “Dar a luz”. Entre os rostos, um chamou-lhe a atenção. Era anguloso, bronzeado e suas mão eram ágeis. Não aparentava a idade que tinha - procurou saber. Conservado. Vestia-se bem, perfume discreto. Perderia a cabeça! Olhou para ela - fora discreto - assim que percebeu, no canto do olho, ser observado. Nova! Era de uma beleza selvagem. Quem soubesse fugiria, pois esses olhos parecem prometer sofrimento.
Ela queria despertar desejo, já agira assim. Controlar a situação, qual fosse. Buscava - e ninguém compreendera - por um sentimento que reconhecia num passado que estava se tornando remoto, e que, nem assim, seria menos consubstancial com as sensações de agora. Eram da mesma natureza. Não o jogo, prestes a começar, com esse homem. O jogo consigo. A luta que travava em seu íntimo por descobrir - à custa do que fosse - o real prazer, o prazer que faria seu sangue ferver como antes. Ouvira o pigarro, a garganta arranhara bem no instante de atravessar com ela. No rosto, insinuava um leve sorriso. Suporia - quem notasse - que ela quereria brincar. De fada, Quem sabe? De ninfa? De musa? Sim. Dessa forma nunca, senão em circunstâncias de extrema exceção, necessitaria ceder à satisfação do gozo. Pairaria na beleza do platônico. Estaria intocada, qual dia fosse.

3 comentários:

  1. O plano narrativo mudado gera um bom efeito de expectativa no leitor, vamos ver se as pontas serão amarradas ou ficarão soltas, se bem que isso é, até certo ponto, secundário.
    Apresentar aos poucos a cena e os personagens para que o mosaico construído pelo leitor seja a real impressão é a grande qualidade dos dois primeiros capítulo, invista nisso.
    Num dos seus famosos conselhos, Raimundo Carrero alerta: Cuidado com as "filosofadas". É um cuidado que devemos ter; escolhendo um narrador quase oculto, as divagações devem estar sempre concectadas aos personagens.

    Valeu.

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  2. Grande professor é Mário.....nossa sou suspeita pra falar.....

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  3. Uhm, a história começou a ficar mais interessante. Adoro esse mistério no ar...

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