quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

DESALENTO

Depois de uma vida longa em comum, unidos pelos laços do matrimônio, Circe chega ao ponto de indagar-se se valeu à pena. Os dias transcorriam lentos, mornos. O passar dos anos não trouxeram felicidade. Exaltada, exclamava que até os sonhos lhe foram embora. Entrever algo nessa monotonia de vida é desesperador. Quase não nos falamos. O casamento está mais para um peixe fora d’água, arfando em seus últimos momentos. Vivemos em aquários separados. Concluía.
Em momentos de pura solidão - os quais eram constantes -, continuava a se indagar, agora na busca de uma resposta que satisfizesse a incógnita que seria o futuro, juntos. No que ele me completa? Matava o tempo conversando com vizinhos, entre pessoas de fora. Recebia a visita de algumas amigas que sempre comentavam sobre como estavam bem na vida conjugal; de filhos exemplares, também nas escolas; do arrebatador amor que os maridos demonstravam e que não viam a hora de economizarem o suficiente para a realização daquela viajem, que a tempos planejavam. Entro em casa. Saio de casa. Não ouço uma palavra sequer. Sentia que o quarto era minúsculo para os dois. A casa. Não, á vida. Esta era insignificante para cabê-los. Descansou, exausta de tanto remoer na cabeça os problemas que achava ter.
A monotonia se configurava desde os primeiros instantes da manhã: o café estava posto às seis e trinta. Jorge deveria abrir a ótica as quinze pras oito. Circe levantava-se às seis. Jorge continuava na cama, por mais meia hora. Pão e ovos, o principal pra ele. O café está na mesa. Comia antes de escovar os dentes. Dizia que era pra não ter dois trabalhos - antes e depois. Tomava banho e, após se trocar, dava-lhe um beijo. Circe perguntava se viria almoçar na hora de sempre. Venho, nessa época quase ninguém aparece pra fazer óculos.
Voltar para cama é o que faz - a maioria das vezes. Lembrou de quando escrevia. Gostava de escrever, de brincar de Deus. Assim o destino estava em suas mãos e a história terminava como ela quisesse, quando terminava. Veio a mente as Mil e uma noites, Sharezade vivendo pela história. Ela vivia sem uma história. Um momento depois do outro, era assim. Diria que daqui à uma hora, ou cinco dias - quem sabe anos - estaria no mesmo lugar de agora. Que nada mudaria. Foi quando, atônita, percebeu que desejava algo diferente para esse futuro, próximo ou longínquo, que a levasse além daquelas manhãs preparando café; no início das tardes: almoço; à noite: jantar. Tudo pro Jorge. Maldito e miserável Jorge por ter feito maldita e miserável minha vida! A seqüência dos dias, agora, assustava.
Ligou para ele, ainda na parte da manhã. Vou à casa de papai. Tanto o almoço como a janta estão prontos, na geladeira. Não esperou nem a resposta.
O pai de Circe morava em uma cidade próxima. Não foi de carro, sentia-se cansada. No ônibus ao menos dormiria. Foi para aquela viagem como quem, imerso no mar, busca o ar para viver. Talvez buscasse apoio ou orientação para as borbulhas de coisas que vinham a sua mente. Notara até que respirava diferente, ofegante. Esperança, ela acreditou.

4 comentários:

  1. A literatura nunca acabará, porque a capacidade de entrar nos dramas humanos que ela possui, o "revelar escondendo", ainda é inatingível por outras artes sempre tão explícitas. Nem mesmo "avatar" acabará com a litertura.

    O VENDEDOR DE SERIGUELAS: finalmente está pronto (suas preces foram ouvidas), logo o imprimirei - acabou o papel e a tinta. Agora com os blogs nosso contanto ficou mais fácil.

    Valeu.

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  2. Olha Erick que chique!Mário já esta lhe seguindo....ps:eu ainda não sei como posta,e agora?me ajuda ai....

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  3. gostei muito desta parte...
    Descreve muitas relações... e como as mulheres se sentem escravas do casamento...

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  4. É muito bom você ler uma história e conseguir trazer para a realidade. Várias mulheres que conheço passam por este mesmo problema: casar e depois "morrer" para os sonhos. Gostei muito...Meus parabéns!!!

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