sábado, 23 de abril de 2011

ATITUDES E PALAVRAS

As costas doíam-lhe. Estava avessa ao dia, queria a escuridão novamente. Na cegueira do amanhecer tateou, procurava o corpo que lhe fizera companhia, na noite. No frio da noite e no calor dos corpos. Custou a perceber-se no vazio do quarto, da sala, da casa. O cheiro de uma lembrança - vaga como o aroma de pão lá da esquina - vinha como se não fosse sua: a respiração próxima à face; o afago nos cabelos. Sentira mesmo. Escorregava por entre os lençóis ainda num sono muito sono e um vazio na barriga insistia em não dar-lhe sossego. Mas era melhor assim. Sentira-se, nestas últimas horas, simples, numa vida simples. E perdeu-se por um bom tempo vagando os olhos pelo quarto: a cama, grande demais para ela; os vários quadros; a porta da varanda aberta, um pouco; as rosas que ele me trouxe num belo vaso, ao lado da TV; a porta, do quarto, fechada. Não deixara bilhete. Na verdade o recado que ficara fora a brisa do beijo; o toque nos cabelos. Era como se dissesse que voltaria.

Prazos. Alguém dissera a Abgail que não se esquecesse dos prazos. Talentosa que era sempre os cumpria. Por isso a folga em fazer o próprio horário. Mas era rigorosa consigo. Só de uns tempos pra cá é que se deu o luxo de realmente mexer em seus próprios horários. Tinha amigos agora. Gente que se importava com ela. Que a amava. Eu os amo. E observavam-na sempre. Na empresa era tida como a queridinha. Muitos funcionários antigos temiam perder o cargo para uma estagiária. Nem se formou ainda!
Para Abgail não era o conhecimento que se detinha que fazia a diferença. Postura e competência são o que contam. Podia passar o tempo observando o eixo do sol. Era competente. O pai, Idalino, dizia que ela observava tudo. Perdia um tempão olhando e depois ia lá e fazia o que fosse, certinho. Não é olhar, é saber olhar. Entender o funcionamento, das coisas, da vida, de tudo. É ter a sensibilidade de ir ao âmago e perceber as nuances.

A gradação da voz de uma música suave fazia-lhe pensar. Apoiou a cabeça em uma das mãos e viajou na rouquidão doce da cantora. Era triste a melodia e parecia tocá-la. No mais, fechou os olhos e não quis mais pensar. Que caminhos?

sábado, 20 de novembro de 2010

JOGOS DE ESPELHOS

Aquela frieza não saía de mim. Após dirigir noite adentro, chego em casa e à porta dou de frente com Jorge. Sonolento, quase não repara que estou a sua frente. Buzino para despertá-lo de seu limbo, para livrar-nos do choque quase inevitável. Ele não estava ali. Entramos. Vou para um dos quartos de hospedes, preciso estar só. Parece-me, às vezes, que sempre estou sozinha ao final do dia, ou quando a manhã aponta, no final da noite. O espelho reflete minha imagem. A toalha escorre entre minhas mãos. Sou eu? Reconheço minha tez; minhas sobrancelhas delineadas; meus olhos, que outrora ele dissera oceânicos, não brilhavam; minha boca se fechava e renunciava toda palavra. Coloquei brincos como se fosse sair. Os cabelos, após enxugá-los, eu os prendi de maneira a deixarem meu rosto à mostra. Queria me ver. Queria me reconhecer no reflexo que já não parecia comigo. De tanto olhar para fora, para os outros, eu agora não sabia quem me tornara. Tudo poderia ser tão simples. Enxergar-me por completa me faz indagar quais limites ultrapassei. Se eu olhar para dentro do espelho verei que realmente não sou eu. É o inverso, meu inverso. Sigo na contramão de mim mesma. Devolvo o colar à gaveta, mantenho o colo limpo. Não irei sair.

ETIAM TEMPUS

Fora um início. Era como se não tivesse dormido: ele apenas abriu os olhos. Seria como um relacionamento já de tempos. Deitada ao lado, ela não se movera. Tomada por um sono mortal, de pecado. As mãos de Jorge margeiam os cabelos da adormecida. Não acordará. Um beijo de brisa, quase sem toque. Veste-se e sai sem dizer uma palavra. À porta, vira-se e contempla o corpo delgado. Não o vê realmente. É o relevo formado pela tenra pele que o aquecera durante a noite. O corpo, agora sozinho, apoderava-se da cama, da coberta que lhe delimitava as formas, contido em si mesmo. A porta é trancada da forma mais sutil. Jorge vai embora.

Poderia chegar em casa e contar tudo. Jorge poderia fazer isso. No entanto, lembra-se das palavras da mãe, de como dizia que as mulheres não perdoam. Se o acaso vier e assim te encontrares sobre uma cama, doente, o olhar dela será de reprovação. Lembrar-te-á que fora traída. Que tu a traíste. E em teus instantes finais fincará o olhar em ti, agora de um teor repulsivo, condenando-te e relembrando, para tua tortura final, que estivera ao teu lado sempre, que te apoiara em tudo, nos cuidados, na dor, e que tal benevolência seria tua passagem para o inferno. Meu filho, que nunca admitas traição a uma mulher, mesmo que em evidente delito. Negas às últimas!

Durante o caminho de retorno, Jorge esvaziara-se de pensamentos, absorto em nada, despertado já à frente de sua casa. Circe o desperta. Dormindo ao volante! Ambos retornando ao raiar do dia, de caminhos opostos. Demoraram-se na decisão de quem estacionaria primeiro. Nas feições de ambos não era possível notar indagação alguma. Pareciam até tranqüilos. Uma paz estranha. Nesta hora, nem o vento soprava. As árvores testemunhavam mudas, imóveis.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

CALINA

Poderia fazer um balanço de minha história. Analisar minhas escolhas ao longo de um percurso tão conturbado. Quando penso que tudo está resolvido, sou tragada por problemas recorrentes e sentimentos que me deixam atordoada, ainda mais: surpresa comigo mesma. O meu casamento com Jorge, por exemplo, parece ser uma daquelas coisas que não eram para ser. O meu casamento é como uma pessoa bipolar. É como um monstro que me devora. É mais. Pior! É o mesmo que ter feito um pacto com o demônio: primeiro o deleite, depois o estipêndio. Estou prestes à pagar. Estas idas e vindas, ora entre beijos, ora entre discussões, olhares vazios, indiferença. Tudo me faz desejar o colo de minha mãe. Lugar único! Então, sigo de carro até o cemitério querendo estar perto dela.
Queria um mausoléu. Papai reclamara: para quê tanto? Pediu-me um bloco de granito. Esculpiria o que viera a ser, para mim, uma verdadeira madona. Os cabelos longos, pouco ondulados, caíam-lhe aos ombros. A cabeça e o olhar baixos. As mãos ajuntavam-se sobre o colo. Era saudade. A madona que se assentava sobre o túmulo de minha mãe era legítima saudade. E mesmo que em puro granito, era a saudade mais encarnada que já vira. Queria... Quis muitas vezes tocá-la e pedi-la que levantasse, a dor passa. Diminui. Àquela hora, já fria, a escuridão apontava. Ficaria ali por mais um tempo assentada ao lado da “pessoa” que simbolizava toda a falta de minha mãe.

Por toda minha vida busquei tomar as atitudes mais coerentes. Nunca operei mudanças bruscas. Mas agora, abrindo-me por dentro e refletindo sobre mim mesma... Temo a culpa, a falta de razão ou talvez a realização de vontades outrora inibidas. É um amálgama de rancor e espanto. Mais rancor que espanto. Mais espanto que pranto. Cansei de chorar! À frente o vazio, portal do horror. O esmagador peso do vazio, sobre o peito. Vazio que comprime, sufoca através do silêncio. Silêncio que dilacera, que golpeia. Exacerbadamente golpeia e dilacera. Dilacera a carne ao ponto de, num mesmo golpe, golpear a alma. A minha franqueza comigo mesma é diretamente proporcional à fraqueza com que conduzo minha vida sentimental. Exígua vontade de mudar. Levanto–me da saudade, da autocomiseração. Volto à vida. A madona me dá as costas, continua em saudade eterna. Jurei ter visto uma lágrima, escutado um choro engolido. Também baixo a vista. Fixo o olhar na alameda de pequenas pedras retangulares. Uma poça d’água reflete a capela de abóbada dourada. Na saída, o frio me abraça.

domingo, 22 de agosto de 2010

FULCRO DE QUÊ?

Aquele pranto se estendia. As lágrimas vertidas pelos olhos da irmã eram como as chuvas no mês de agosto. Os dias mais frios. O período mais melancólico. A indagação é inevitável: por que tantas lágrimas? E a obstinação pelo silêncio? Não vira tristeza maior desde A enchente. De uma brevidade, o silencio irrompe num fio de voz: as palavras não encontram coragem. Para Cendira o vórtice de pensamentos tilinta em sua mente como um sino de igreja, num aviso de calamidade. Abgail inclina-se na busca de melhor ouvir. Outra vez as palavras rompem o momento limítrofe entre o instante que separa o silêncio – nascedouro – e a palavra proferida. Tais palavras são como lenha para fornalha: irradiam ira para o coração de Abgail.

Acredito naquelas pessoas que dizem possuir o controle de suas emoções. No entanto, acredito também num limite. Na tênue divisória que faz (a todos) externar a ira capaz do assassínio. Até os monges tibetanos já transpuseram este controle em direção à pancadaria. Sempre existe um limite.
Com a ira veio também a perplexidade como resíduo dos motivos que ela supôs que pudessem ter acometido Miriam para realizar tais atos. Nunca serviriam de desculpa. Desvencilha-se e segue em direção à varanda, Abgail. Busca, ela, ar. Quer límpida as decisões. Desanuviar os pensamentos! A lembrança: nós mudávamos, tanto. E sempre parecia tudo bem e a mudança - de novo - acontecia. As discussões abafadas. Os motivos que pareciam fúteis. Nosso pai, esmagado pela face obscura. Não fera, ferido! A precisão das palavras. O silêncio marcado. Sou forçada a ser corajosa, mesmo se não quisesse, não poderia fazer outra coisa!

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

INQUIETAÇÕES

Ao chegar à frente daquele restaurante, Circe lembrara que ali se encontrara pela primeira vez com Abgail, após retornarem da casa de praia. Lembrou-se até de antes: de quando recebera o convite. Não nos esquecíamos daquilo. À mesa, chegara cedo. Torradas, patê, água e uma taça de vinho. O tempo passaria. Havia escolhido uma cadeira virada para o sentido oposto à entrada. Um musicista, ao fundo, soava uma melodia delicada de seu violoncelo, com movimentos vigorosos que se contrapunham à suavidade da música. Parecia esforçar-se.

Assim que entrou, percebera em Circe certa inquietação, como se esperasse há algum tempo. Abgail consulta as horas: não estava atrasada. Conversaremos muito, como se nunca tivéssemos nos falado. Alguém para ouvir nossas frustrações.
O ser humano tem essa necessidade de compartilhar, de confessar. Mesmo que mantenhamos nossa face mais obscura às escondidas, é imperativo dizer algo, mesmo que não seja toda verdade. Não precisa ser. Nós camuflamos. Maquia-se o acontecido ou sentimento e dá-se ao outro, com desdém e tudo. Sem a importância que realmente enxergamos. Circe enxergara naquela amizade uma cúmplice, alguém para dividir o íntimo. À porta, o cheiro inebriante que ficara marcado na memória. Ao fundo o violoncelo, incessante. Ao pulso, o relógio marcava a hora exata: nem antes, nem depois.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

CLARIVIDÊNCIA

Prostrei-me ao colo de Abgail. Não era simples tristeza o que me acometia. Havia um medo. Gostaria de saber agir naquela situação. Agir de maneira enérgica, decidida, decidida como em outras horas de minha vida. Ou explodir. Mas isso não resolveria, ou talvez resolvesse. Trocaria um problema com o qual não tenho o menor tato por outro. Outro com o qual eu poderia usar toda a aspereza que é possível a um ser humano. Mas vendo minha mãe, nossa mãe, esquálida, passando por maus tratos. Sendo privada de cuidados. Como tratar uma situação como esta? Mataria Miriam com minhas próprias mãos se possuísse a coragem necessária! Enquanto isso, choro. Espero soerguer-me dessas lágrimas e contar a Abgail. O lençol encobria ambas em ondas, como o mar a abarcar os náufragos. O ar frio no quarto era como a própria chuva. A chuva era como as lágrimas que caíam incessantes. As tragédias chegam, sempre.

Nem sempre o laço consangüíneo é condição suficiente a uma aproximação fraternal entre irmãos, o que – dito desta forma – resultaria em redundância. Mas desde nossa literatura mais sagrada, bem como na literatura mais universal, encontramos casos de desentendimentos extremos entre irmãos. E, no entanto, existem fatos conhecidos, ocorrências com as quais temos maior proximidade – um vizinho, pode ser – e que nos mostram que tais desavenças, após um olhar, um, apenas, e apagam-se mágoas, profundas mágoas.

Clarividência, assunto que alguns tratam com certa desconfiança. Mamãe, porém, cria nessas sensações, Cendira afirmava ter. E surpreendia, às vezes. Essa coisa de pressentir a chegada de pessoas, como agora a pouco, não assustava. Bem, não a maioria das vezes. Entramos. Providenciei uma roupa seca, cobertor. Fomos para o meu quarto. Os lábios já roxos. Queria morrer, e na minha porta?! As lágrimas que escorriam nas faces de Cendira, o olhar comiserativo, eram como grande fornalha, derretiam as calotas de gelo que o tempo formara, à duras penas, no coração da irmã. Que aflição seria capaz de causar tamanha angústia à Cendira? Um verdadeiro aperto no coração. Minha irmãzinha! Apesar de ser esta mulher, a quem admiro tanto, nessas horas, não passa de minha menininha, a quem eu protegi tanto!

Quando a viu, parada à porta, os ombros molhados do chuvisco que caíra, Cendira tremia de frio. De chofre, ao descer do taxi, Abgail perguntou-lhe o que ocorrera. A irmã ali, sem aviso, não era coisa boa.